Essa senhora, a História

Mulheres católicas contra Jango. Foto: AE
Mulheres católicas contra Jango. Foto: AE

Imagine-se acordando no final dos anos 1940, tendo saído diretamente de 2014. Você abre um jornal no Brasil e alguns dos artigos de opinião e matérias de diários como “A Noite” e “Correio da Manhã” trazem informações sobre os então chamados “deslocados de guerra”. Aos milhares, em meio a uma Europa arrasada, eles buscam novas oportunidades. A recuperação após um dos maiores horrores de toda a História da humanidade é lenta.
Há um “detalhe”: a Declaração Universal dos Direitos Humanos, aprovada em dezembro de 1948, ainda não é uma realidade. Na maior parte do mundo, um dos ideários fundamentais do nazismo — o de que uma “raça” pode ser superior a outra — ainda pulsa com grande intensidade.
Os judeus, mesmo após todos os horrores sofridos na Alemanha e em outras partes da Europa, ainda são intensamente discriminados. A discriminação é étnica e, portanto, não necessita de fundamento lógico, apenas pretextos. “Comunistas”, comerciantes que nada produzem para a economia nacional, “baderneiros”, fechados em “quistos étnicos”. São apenas pretextos para um fundo principal: a discriminação com base na etnia.
Outros grupos sofreram, tanto neste momento histórico quanto em anos e décadas posteriores, com o totalitarismo na Europa. Inclui-se aí o segmento LGBT, um grupo cujos “integrantes” foram perseguidos e executados durante o nazismo, conforme mostram os registros históricos.
E o que dizem os jornais brasileiros da época, então? Estão repletos de artigos e matérias editorializadas que justificam esse tipo de perseguição. Agora, claro, estão um pouco mais envergonhados. Deparam com um intenso movimento internacional pró-direitos humanos, vindo de diferentes partes do mundo, e que trazem um alerta importante: o próximo, amigo, pode ser você. Portanto, os direitos têm de ser para todos, para que ninguém seja tornado, potencialmente, uma vítima da intolerância e do totalitarismo.
Para qualquer pessoa que, retomando nossa viagem, tenha saído de 2014 para esse período intrigante, uma espécie de tomada da consciência coletiva após um belo de um susto, o mundo parecerá de fato “fascinante” — e não em um bom sentido. Como foi possível que, mesmo em meio aos horrores do nazismo e de outros totalitarismos, ainda existam pessoas que efetivamente acreditavam que era possível algo como uma “raça ariana”? Como é possível que um povo passe de vítima a algoz? Tempos difíceis.
De volta para 2014, voltamos renovados e… eis que o totalitarismo exibe seus descendentes. Estão nas redes sociais, nas ruas (embora um pouco mais envergonhados), nos cargos de chefia e, em muitos casos, eleitos por voto direto. “Não sou racista, mas faço votos de que o racismo esteja bem representado.”
Consideram que há, sim, seres humanos que são menores que outros, pois são de uma região onde só há pobres, de uma etnia que nunca vai deixar de ser o que é, têm um comportamento reprovável diante do Senhor, Amém, e sobretudo não conseguem perceber que existe um padrão de vida que é o ideal, o melhor, o mais moralmente aceito e que, portanto, todos devem seguir. Formam-se cada vez mais grupos prejudiciais a estes valores, uma minoria qualquer que quer impor sua ditadura particular aos nossos valores!
Em que diferem os momentos? Tem um negócio novo, o tal “direitos humanos” liberal, que eu acho que é um lance que diz que “cada um na sua”, e deixa o “cada um” dos outros em paz. Que saco, agora nem sequer posso escrever um artigo decretando o que são os bons costumes e a moral, que já vem esses chatos dos direitos humanos falar no princípio da dignidade. Que indigno! Sinto-me humilhado!
Tudo bem. Deixa essa ralé para lá, mas não me peçam para conviver com eles! Eu tenho uma linhagem familiar a resguardar! Mas não. Nunca estão satisfeitos, esse direitos humanos. Agora que a gente deixou a mulher trabalhar, querem que elas ganhem o mesmo que os Homens! Os Homens! E ainda exigem que eu tenha que aceitar essa bicha lá no escritório, me privando de levar meu filhão para o trabalho. É o fim dos tempos!
Já publicamos o lance da dignidade, ora. O que querem mais? Que os aplique? Malditos comunistas! Bem que me alertaram sobre os vermelhos. Mas deixaram que eles formasse seus quistos e, agora, veja no que deu. Reproduziram-se. Falam em igualdade pra depois de amanhã. Querem que as coisas mudem para qualquer vagabundo que não fez por merecer, como a minha nobre família o fez, durante séculos.
Em vez de nos contentar com a lei, belíssima, publicada generosamente em tratados muito bem escritos pelos melhores estadistas, insistem esses comunistas em realizar os direitos, discriminando a salutar competição entre todos os membros da sociedade, incluindo os mendigos e os empresários, juntos, unidos, por um mundo melhor. Todos, diz o mais estudado jurista liberal, em pé de igualdade. Uns descalços, é verdade, eu mesmo sempre ajudo no Natal quem precisa — mas todos livres e iguais!
São novos os tempos. Alguns, meio envergonhados, resistem a essa falácia “comunista” da dignidade humana. Outros, desinformados, repetem. A História é uma sábia e serena senhora que se manifesta somente se questionada. E anda calada, ultimamente. Disseram até que ela tinha falecido. Que nada. Continua pacientemente observando, aterrorizada.
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Se ficar curioso(a), leia alguns dos artigos da época em http://midiacidada.org/periodo/1934-1980

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