Boletim Teologia Nordeste N°44 – 2026

ESCOLA COMBLIN. A Escola Missionária Pe. José Comblin retomou suas atividades sob um novo formato e em nova sede. Insediada no Centro Pastoral Pe. Mazza, no Alto do Mateus, em João Pessoa, promoveu um primeiro módulo com uma semana de duração, de 28 de Junho a 05 de Julho. Com um coletivo ampliado de Educadores e Educadoras e com novos conteúdos temáticos, a ESCOLA COMBLIN enfrentou nesta primeira etapa: “O FEMINICÍDIO: AS MULTIPLAS FORMAS DE VIOLÊNCIA PRATICADAS COM AS MULHERES (FISICAS E PSICOLÓGICAS)”. O tema foi dialogado e aprofundado pelos participantes e educadores e educadoras sobe vários enfoques, bíblico, cultural e das redes sociais.


SEMANA TEOLÓGICA PE. JOSÉ COMBLIN, já na sua 16ª edição, realizou a sua programação com as Jornadas Comunitárias, sendo que a primeira aconteceu no Centro de Formação Pe. José Comblin em Café do Vento (PB). A Sessão de Encerramento foi realizada no dia 22 de Agosto, na Casa dos Sonhos de Várzea Nova/de Santa Rita. O tema desta 16ª Semana foi: Discipulado de Iguais x Patriarcalismo/Clericalismo: contribuições de Agostinha Vieira de Melo, de Elisabeth Schussler Fiorenza e de José Comblin.


É possível acompanhar estas atividades – da Escola e da Semana – no nosso site “Teologia Nordeste  www.teologianordeste.net, e nas transcrições a seguir:

Retomada da Escola de Formação Missionária, em João Pessoa: primeiros passos

Como previsto, realizou-se em João Pessoa – mais precisamente no Centro Pastoral Pe. Mazza, no bairro Alto do Mateus -, de 28/06 a 05/07 o primeiro módulo desta Escola, com a participação de uma dúzia de iniciantes, tendo contado com mais de uma dúzia de visitantes, interessados em acompanhar os primeiros passos da nossa Escola. Com o generoso acolhimento das Irmãs coordenadoras do Centro na tarde do domingo, 28/06, foram chegando os primeiros participantes inclusive os membros da Coordenação desta Escola, a começar de Pe. Hermínio Canova.

Na segunda-feira, 29/06 com a presença da Coordenação e dos Educadores e Educadoras da Escola (Pe. Hermínio, de Sobrado-PB; Ronaldo, do CEBI-PB, e professor da UFCG; Marcos, do CEBI/João Pessoa-PB; Glória, do CEBI, João Pessoa-PB; Glaudemir, da AMMC, Bayeux-PB; Lucinha, da AMMC, João Pessoa-PB), bem como das demais pessoas participantes (Mabel Dias, João Pessoa-PB; Ângela, de Mirandiba-PE; Socorro, de Itabaiana-PB; Jéssica, de Sertãozinho-PB; Pe. Wancelei, de João Pessoa-PB; Alder, de João Pessoa-PB; Tânia, da CPT, João Pessoa-PB; Carlos e Edna, da CPT, Palmares-PE), aos quais nos dias seguintes se somariam Pe. Gabriele, de Cruz do Espirito Santo-PB; Ivone, CEBI, Campina Grande-PB; e outras pessoas que nos visitaram: Pe. Alexandre, Edjane, Socorro Borges, Inez Trombini do Grupo Kairós, Pe. Marcos, Pe. Dário Vaona e Lindolfo, todos de João Pessoa-PB; além de Lúcio, de Belém-PB.

Após o primeiro momento mais forte de Espiritualidade, animado por Glória, foi proposta uma roda de apresentações. Em seguida, Alder foi convidado pelo Pe. Hermínio, a fazer uma breve memória da experiência das escolas de Formação Missionária, sua proposta formativa, seus conteúdos, sua metodologia, seus momentos desafiantes, seu jeito de trabalhar em diferentes conjunturas. Começou por situar historicamente os principais desafios da atual conjuntura sócio-eclesial, começando por incluir as Escolas de Formação Missionária como uma das iniciativas inspiradas na Pedagogia de José Comblin, lembrando tratar-se apenas de uma dentre dúzia de experiências missionárias e formativas animadas por José Comblin e um número de Educadores e Educadoras, sempre trabalhando em conjunto, desde a experiência do Seminário Rural (Pilõezinhos-PB, 1981-1982), Centro de Formação Missionária (Serra Redonda-PB, 1983 a inícios da década de 2000), Centro de Formação de Missionárias Populares (Mogeiro-PB, 1986 aos anos 90), Associação dos Missionários e Missionárias do Campo (Serra Redonda-PB e Serra da Catita-AL, 1995 ao presente), Fraternidade do Discípulo Amado (Serra Redonda-PB, Serra da Catita-AL e Abreu e Lima-PE, 1994 ao presente), Curso da Associação Árvore (Agreste-PB, 1995 a inícios da década de 2000), entre outras experiências.

Outro desafio apontado por Alder, em sua rememoração, tratou de realçar um outro aspecto pertinente a esta retomada da Escola de Formação Missionária, relativo à questão metodológica. Diferentemente das experiências passadas, esta Escola busca trabalhar não mais a partir de “disciplinas”, mas a partir de temas devidamente conectados: temas considerados mais urgentes de nossa realidade, apresentados de modo conectado com outros temas. Por exemplo, o tema que hoje se apresenta de reconhecida urgência, têm a ver com o feminicídio e outras formas de violência contra as mulheres. Tratamos de compreender melhor diferentes aspectos desta trágica realidade, recorrendo, não apenas as estatísticas, como também a diferentes análises de pesquisadoras em diferentes esferas de saberes, ao mesmo tempo em que cuidamos de examinar esta problemática à luz da Sagrada Escritura (Primeiro e Segundo Testamentos) e do ponto de vista, não apenas das relações sociais de gênero, mas também do ponto de vista das relações sociais de etnia, geracionais, espaciais e de classe social.

Chegou a vez de convidar a Jornalista Mabel Dias, doutoranda em Antropologia, pela UFPE, cuja tese em construção é voltada, sobretudo, a compreender como hoje funcionam as redes digitais tóxicas que abrigam diversos blogs e canais abertamente misóginos, que se ocupam de perseguir e atacar perfis femininos, sob a ótica da “machosfera”. O tema pesquisado pela Jornalista Mabel Dias têm, com efeito, despertado, crescente interesse. Ela já havia apresentado o esboço de sua pesquisa para militantes da CPT, com intensa repercussão. Mais uma vez, não apenas o tema como também o amplo repertório de textos e análises por ela trazidos atraíram a atenção e a curiosidade das pessoas presentes. Além da gravidade e atualidade do índices de feminicídio e das formas múltiplas de violência contra as mulheres, chamou a atenção o amplo repertório de sintomas apresentados pela autora, o que muito enriqueceu a qualidade do debate que acompanhou ou se seguiu a exposição da pesquisadora.

No dia seguinte após um momento mais forte de Espiritualidade, inclusive graças a leitura de um poema de Agostinha Vieira de Melo, poeta e teóloga Feminista, tivemos a alegria de contar com a densa exposição feita pelo Prof. Ronaldo, da UFCG e membro da Coordenação do CEBI regional cujo eixo principal foi mostrar como os textos bíblicos (tanto o Primeiro quanto o Segundo Testamentos) tratam a condição da mulher, focando sua dimensão protagônica, desde que feitas tais leituras de modo contextualizado, de maneira a situar cada episódio do ponto de vista histórico, e em relação também a outras nações vizinha ao povo hebreu. Em diálogo com o expositor, intervieram diferentes pessoas, especialmente no tocante a urgência de aprofundar e expandir a leitura contextualizada da Bíblia, não apenas no tocante aos desafios relativos às mulheres, mas também a tantos outros desafios presentes, tais como:

  • As relações étnico-raciais;

  • As  relações geracionais, haja vista inclusive o enorme desafio de se contar com a participação mais intensa das juventudes;

  • As relações sociais de classes, a exigirem uma compreensão melhor da contribuição do paradigma marxista como chave de interpretação das íntimas conexões dos atuais desafios, inclusive relativamente a expansão da onda fudamentalista das religiões, ao interno da Igreja Católica Romana.

Também, no decorrer da semana, foi enfrentado o tema das redes digitais, bem como a crescente influência das grandes plataformas digitais a potencializarem, cada vez mais, suas influências maléficas sobre crescentes segmentos de nossa população. Ao mesmo tempo, graças também à fecunda participação de Ivone, da Coordenação do CEBI, múltiplos aspectos de intersecção entre a situação das mulheres, os textos bíblicos e as novas tecnologias digitais vieram à tona, contribuindo notavelmente para uma compreensão mais efetiva dos desafios que hoje enfrentamos.

O domingo, dia 05/07, foi dedicado à avaliação dos trabalhos realizados, bem como ao planejamento das atividades a serem realizadas durante o intervalo entre este módulo e o próximo, a ter lugar, no mesmo local (Centro Pastoral Pe. Mazza, no Alto do Mateus, em João Pessoa, de 10 a 17 de Janeiro do próximo ano). Para fazer uma reflexão autocrítica, os participantes foram distribuídos em pequenos grupos chamados a avaliar: conteúdos trabalhados, metodologia, participação, assim como sugestões de tarefas a serem realizadas pelos participantes durante o intervalo até o próximo módulo. Não se tratou aqui de se fazer um relatório, mas de fornecer alguns elementos de alguns aspectos considerados mais relevantes a compartilhar.

Alder Júlio Ferreira Calado 

João Pessoa, 17 de Julho de 2026.

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Relato da Primeira Jornada da XVI Semana Teológica Pe. José Comblin

Neste mês de junho de 2026, mais especificamente no dia 06/06, realizamos a Primeira Jornada da Semana Teológica em memória do Pe. José Comblin, hoje em sua XVI edição, trazendo para o centro da reflexão o tema: Discipulado de Iguais x Patriarcalismo/Clericalismo: contribuições de Agostinha Vieira de Melo, Elisabeth Schüssler Fiorenza e José Comblin.

A Primeira Jornada, realizada no Centro de Formação José Comblin, em Café do Vento – Sobrado – PB, contou com a presença de Pe. Hermínio, Tânia, Alder, Glória, Lúcia Maria, Inês, Cida, Edna, Ulisses, Socorro Araújo, Socorro Barbosa, Socorro Borges, Ir. Maria Lúcia, Ir. Vitória, Ir. Silvana, Ir. Jardiane, Salene e Pe. Wanceley, representantes de diferentes grupos co-organizadores das Semanas Teológicas, que seguem unidos e esperançosos nesta caminhada, como os Grupos Comblin, Kairós, CEBI-PB (Litoral, Borborema, Itabaiana, etc.) e CPT.

Como de costume, na chegada formos recepcionados(as) pelo Pe. Hermínio, que nos ofereceu, com a contribuição de Alcione nos preparativos, uma merenda, antes de darmos início aos trabalhos. Após a acolhida, seguimos para o Salão São José para iniciarmos as atividades programadas.

O anfitrião abriu a sessão dando as boas-vindas às pessoas presentes e, em seguida, passou a palavra a Cida que conduziu a dinâmica de apresentação entre os participantes. Findas as apresentações, Glória dirigiu a Mística inicial, entoando canto: “Mudarei o sertão em açude”, de Irmã Agostinha, passando a palavra a Lúcia Maria que fez a leitura do Evangelho de Mc 7, 24-30 – a passagem do diálogo entre a mulher sírio-fenícia e Jesus -, o que gerou uma rica reflexão entre os(as) participantes que reconhecem, na leitura, a condição da mulher no escritos bíblicos. Inquietações como: Quem, naquela época, tinha livre acesso a Jesus? Qual o nome da mulher? O que a moveu ao procurar Jesus? Ela recebeu, de imediato, um SIM de Jesus? Quem tem acesso aos bens materiais e à saúde? Quem tem acesso ao pão de cada dia e quem vive de migalhas? Ante as “migalhas”, uma vez interpelado pela mulher, Jesus tem um apelo à conversão; As “migalhas” também importam; Mulheres e crianças têm palavra de cura, de conversão, de ensinamento… a sabedoria também está com as mulheres e as crianças; Com as mulheres e as crianças se faz o “discipulado de iguais”. Após a rica reflexão da assembleia, Edna recitou a oração “Santa Mãe de Tudo que Vive”, de Elizabeth Schüssler Fiorenza (In. Discipulado de Iguais… Capítulo “Invocações”. p.234-35). Segue a oração:

SANTA MÃE DE TUDO QUE VIVE

Nós pecamos contra ti
por falta de respeito próprio
por falta de auto-afirmação
por falta de amor-próprio
por falta de solidariedade com outras mulheres.
Como podemos prestar-te culto
a ti, de quem somos imagem e semelhança,
se ignoramos o respeito a nós mesmas?
Como louvar tua glória
da qual somos imagem e semelhança
se não nos afirmamos?
Como havemos de amar o próximo que é a nossa irmã,
se não nos amamos a nós mesmas?
Perdoa-nos as nossas ofensas
assim como perdoamos aos que nos têm ofendido
aos que nos banalizam
aos que nos faltam com respeito
aos que nos enfraquecem e tiram o poder
aos que fomentam em nossos corações e mentes e aversão a nós mesmas.
E não nos deixes cair em tentação
mas livrai-nos do mal da dominação patriarcal.
Amém.

No passo seguinte, Cida fez uma breve Memória das Semanas Teológicas, desde as origens aos dias atuais (2011-2025), a partir das informações contidas no Site “Teologia Nordeste Net” (https://www.teologianordeste.net/index.php). Para o evento atual, Cida procura contextualizar a escolha do tema considerando os índices de violência contra a mulher que, em 2025, atingiram o alarmante número de 1.470 casos de feminicídio*, correspondendo a 4 mulheres assassinadas por dia, sendo as taxas gerais daquele ano (assassinatos, estupros, violência doméstica, entre outras) as mais elevadas dos últimos 15 anos (*dados da Procuradoria Especial da Mulher, Senado Federal, disponível aqui ). Não bastassem os dados concretos até então registrados, e o fato de iniciarmos 2026 com igual tendência de violência contra as mulheres, os poderes constituídos se mobilizam em torno da aprovação de Lei que amplia o alcance da criminalização do aborto, com o aval de parte da sociedade civil (os conservadores de extrema direita) e da própria CNBB. Estas foram as questões fundantes que levaram os grupos co-organizadores das Semanas Teológicas a definirem o tema central dessa XVI edição do evento.

Buscamos então o diálogo entre José Comblin, que nos apresenta as “Beguinas” (mulheres da Idade Média que se destacam por sua espiritualidade vivida na experiência e na convivência com os pobres de sua época), e as teólogas e missionárias Elizabeth Schüssler Fiorenza e Agostinha Vieira de Melo, as quais, cada uma ao seu modo, sendo exemplo de vida e de escolhas, centradas no serviço e na promoção da causa das mulheres seja na Igreja, seja na sociedade, dando margem ao entendimento de que somos todas e todos convidados a formarmos um grande “discipulado de iguais”.

Logo após essa contextualização do tema, e ainda na perspectiva da responsabilização da CNBB, demonstrando a sua insensibilidade à causa das mulheres, Salene fez a leitura de uma carta-denúncia intitulada “Carta a um amigo teólogo sobre o aborto nas eleições de 2010”, que José Comblin destinou à comunidade eclesial brasileira, a qual se encontra no Site “O Arcanjo no Ar” (https://oarcanjo.net/site/carta-a-um-amigo-teologo-sobre-o-aborto-nas-eleicoes-de-2010/). Em seguida, Alder ao apresentar “Agostinha e Elizabeth: Quem são essas mulheres?”, falou-nos brevemente sobre a história de vida dessas “beguinas” dos dias de hoje.

Finda essa primeira parte dos trabalhos, seguimos para o foco central da programação. Em pequenos grupos: fazer a leitura e a reflexão dos textos indicados, tendo cada um deles duas questões orientadoras para o debate; quatro grupos foram aleatoriamente definidos; a cada grupo coube trabalhar dois dos três textos, sendo recomendável a todos a leitura do texto 2 “A maioria silenciosa começa a falar” (Elizabeth Fiorenza); os textos 1 “Liberdade da vida religiosa leiga” (José Comblin) e 3 “De águas, vento, palavras e papel. Poemas da Ir. Agostinha” ficaram para a livre escolha. Findo o prazo de uma hora, previamente estipulado para a leitura e reflexão, os grupos se reuniram em assembleia onde suas relatoras apresentaram os aspectos mais relevantes destacados nos textos lidos.

Todos os grupos ressaltaram a densidade do texto 2, de Elizabeth Schüssler, identificando os critérios que ela apresenta quando trata da questão da invisibilidade e do silenciamento das mulheres, impostos pela hierarquia da Igreja.

Apenas um grupo fez menção à figura das “beguinas” – de sua força e de sua coragem no enfrentamento da hierarquia clerical na Idade Média -, presente no Texto 1, de autoria de José Comblin. Relacionaram as beguinas às Irmãs e Missionárias de hoje, que fizeram suas opções pelos empobrecidos(as), indo morar nas periferias, convivendo com o povo, levando a eles a palavra bíblica como palavra de vida, ensinando e aprendendo com eles, a partir de suas próprias histórias, suas dores e suas lutas. Mencionaram como exemplo, entre tantas, a Ir. Marlene e a Ir. Agostinha. Fazer a opção pelos pobres significa ter respeito pela diversidade; ter amadurecimento para o respeito mútuo e só assim formar a “unidade na diversidade”. O grupo reconheceu que não se formam mais missionários e missionárias como antes; que é necessário repensar a formação humanista, social e política nos espaços de formação de religiosos e religiosas e também de leigas e leigos atuantes nas comunidades.

Os demais grupos se detiveram ao Texto 2, de autoria de Elizabeh Schüssler. Os destaques dados ao texto “A maioria silenciosa começa a falar”, nos lembram que o silenciamento das mulheres remonta a própria escrita da Bíblia. Desde Eva, colocada como a segunda no plano da criação (“criada a partir da costela de Adão”) e como sendo a porta de entrada do pecado no Paraíso, passando por outras mulheres apontadas como pecadoras, transgressoras, perversas, indignas… até chegar a Maria, escolhida para a encarnação do Filho de Deus, mas que, mesmo santa, não redimiu a figura de Eva. A interpretação bíblica dominante traz Maria como exemplo de pureza e castidade a ser seguido, e usa Eva para julgar e condenar as mulheres; o próprio Paulo fortalece a discriminação e o silenciamento das mulheres nos ambientes da época. E nas Igrejas, a catequese cumpre esse papel ao reforçar essa narrativa do subjugo e dominação das mulheres, reforçando a ideia de que o pecado está impregnado nas mulheres, uma narrativa que fundamenta a violência contra as mulheres, tão presente nos dias de hoje. Outras colocações ressaltam que o processo de Cristandade, sobretudo desde Constantino (sec. IV), com o distanciamento entre o Jesus humano (Jesus histórico) e o Jesus divino (o Cristo, o Ungido), o Patriarcado é consolidado notadamente com o advento do Capitalismo; Fiorenza chama a atenção para a necessidade de ruptura com esse sistema.

Da relação entre a teoria e a prática, cogitou-se a necessidade de se encontrar caminhos para além do acadêmico, valorizando ações práticas mais próximas ao povo; indagou-se se uma ênfase teórico-abstrata não configuraria uma disputa de narrativas, como se a luta das mulheres tivesse como objetivo ocupar, na hierarquia, o lugar que hoje é dominado exclusivamente por homens…

Sobre essa questão da disputa intra-eclesial, Alder esclarece que Elizabeth não vislumbra uma inversão de lugar, uma tomada de assento na hierarquia por parte das mulheres. Ela defende a pauta da tomada de decisão por parte das mulheres na Igreja, em pé de igualdade com os homens; de seguir em frente, atuando segundo a sua “vocação e espiritualidade”, independentemente do consentimento de Papas, Bispos, Padres. As mulheres precisam se sentir livres para agirem e atuarem segundo a inspiração do Espírito.

Dando continuidade às discussões, argumentou-se que uma das estratégias do patriarcalismo clerical para seguir no seu projeto de dominação e silenciamento das mulheres é a de atribuir a si, com exclusividade, a competência pela interpretação dos textos bíblicos e a detenção do conhecimento teológico, sendo reticente a outras interpretações como as da hermenêutica da memória; da hermenêutica da suspeita (isso é palavra de Deus?); da hermenêutica da crítica (enfoque no estudo os pobres); da hermenêutica da imaginação; da hermenêutica da proclamação (incluindo alternativas ao que é proclamado); da hermenêutica da solidariedade (de natureza ética e comunitária), etc.

– Qual a saída? Avançar nos estudos que fundamentam a “leitura feminista da Bíblia”; fortalecer a “espiritualidade da Libertação” nos pequenos grupos, rodas de conversa, desenvolver a sororidade, a irmandade. Afinal, o que é Igreja? A Igreja somos nós; a divindade está em todo lugar.

– É preciso sair do círculo hierárquico. Enfrentar o conflito. Quebrar esse silêncio é enfrentar a marginalidade a que as mulheres se acham submetidas, seja na Igreja, seja na sociedade; é necessário investir na formação.

– É preciso Decolonizar o pensamento; exercitar a “Pedagogia da encruzilhada”. Hoje, no Brasil, 34.000 crianças, vivem em situação marital e a hierarquia clerical e a sociedade fecham os olhos para isso.

– O mundo está um lugar perigoso para se viver. Estamos em crise. É uma crise de humanidade. Nesse contexto, qual lente estamos usando para ler e agir no mundo?

É urgente mudar a Sociedade e com ela, mudar a Igreja. Queremos exercer o nosso direito de decidir.

Ao final das reflexões se reconheceu a importância e a profundidade dos textos indicados para a leitura. Muitas inquietações foram afloradas a partir das leituras e questionou-se o curto espaço de tempo para a densidade do material disponibilizado. Faltou um espaço maior para as falas e exposição das questões deles decorrentes. Reforçou-se a necessidade da formação, ampla e continuada, como estratégia de enfrentamento de tal crise. “O conhecimento liberta”. Por fim, recomendou-se como estudo complementar, a leitura do livro “Espiritualidade da Libertação”, de Dom Pedro Casaldáliga e José Maria Vigil.

Após as discussões na plenária, Glória conduz a oração final, e em seguida passa a palavra ao Pe. Hermínio para os informes. Juntamente com Ulisses do CEBI-Borborema, eles apresentaram a retomada do Projeto de Formação da Escola Missionária – Pe. José Comblin: Fé, Justiça e Amor a Serviço da Vida -, com o Curso sob o tema: “Feminicídio: As múltiplas formas de violências praticadas contra as mulheres (físicas e psicológicas)”, que acontecerá no período de 28/06/2026 a 05/07/2026, no Centro de Formação Padre Mazza, no Alto do Mateus, João Pessoa – PB. Em seguida Cida lembrou que a Jornada de Encerramento da XVI STPJC vai acontecer no dia 22/08/2026, na Casa dos Sonhos, em Várzea Nova, Santa Rita – PB. O anfitrião nos convida então a um brinde seguido do almoço generosamente preparado pela Alcione.

Revigoradas/dos e agradecidas/dos, no horário previsto, retornamos à João Pessoa.

João Pessoa, 10 de junho de 2026

Uma contribuição do Grupo Kairós

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