B.O.C.A é inaugurada debatendo modelos das UPPs


Nilo Batista (jurista), Marcelo Yuca (músico) e Vera Malaguti (criminalista). Foto: Gabriel Bernardo

A Brigada Organizada de Cultura Ativista (B.O.C.A)  abriu o verbo no Circo Voador, na Lapa, Centro do Rio,  com posições críticas  à “política de paz armada” das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). A mesa  de tema A Paz Armada, mediada pelo músico Marcelo Yuca, teve a participação da socióloga e Secretária Geral do Instituto Carioca de Criminologia (ICC), Vera Malaguti, e do advogado e ex-governador do Rio de Janeiro, Nilo Batista, durante a inauguração do espaço.
Vera abriu a primeira fala destrinchando o seu artigo O Alemão é mais complexo publicado no Fazendo Media no dia 13 de setembro, no qual aborda a política de pacificação do governo com a instalação das UPPs. Vera esclareceu que a UPP foi um projeto originado das ocupações militares dos Estados Unidos quando ocuparam antigos territórios em período de guerra, como o Iraque e o Afeganistão.
“Em uma declaração do Wikileaks, um cônsul norteamericano alegou que a UPP é um projeto de ocupação de territórios insurgentes. Trata-se de um macabro consenso, pois ninguém critica como se fosse uma verdade absoluta. A paz armada é o que nós estamos vivendo no Rio de Janeiro, tudo feito em nome da ideia de reconquista do território”, afirma a socióloga.
Ela complementa sua explicação afirmando que trata-se de uma mentalidade cultural que, ao longo da história do Brasil, fez seu processo de pacificação com massacres das rebeliões populares, que levavam os ideiais da Revolução Francesa, após a sua independência. Para ela, este modelo assume um caráter mais de uma peça publicitária do que propriamente uma política de segurança.“As falas dos sociólogos quando expressam a frase ‘policiamento comunitário’ precisam entender melhor o que foi este modelo de segurança, idealizado pelo Coronel da Polícia Militar Carlos Magno Nazareth Cerqueira, durante o primeiro governo de Leonel Brizola no Rio de Janeiro e aprimorado no segundo. As UPPs são meramente uma ocupação militar e o  policiamento comunitário não tem nada a ver com guerra”,  concluiu.
“Após a saída da Ditadura Militar de 1964, a sociedade brasileira produziu uma resistência à truculência policial. Num segundo momento, começamos a criticar como esta truculência ficou naturalizada, e agora estamos vivendo um momento onde a violência policial é aplaudida”, disse Vera.

De acordo com seu relato, o Rio de janeiro, em números de criminologia, constitui uma espécie de massacre a conta gotas, onde se tem a polícia que mais mata no mundo e também a que mais sofre. Isso por consequência de situações precárias de trabalho, como os baixos salários, ou por estarem diante das piores situações de confronto.
Ao contextualizar o cenário social de segurança na cidade, Vera aponta que a imprensa tradicional é a grande responsável pelo esplendor à paz armada. Um exemplo é o Papai Noel sair do caveirão, em 2010, em uma favela do Rio para dar presentes.  Ao contrário dessa imagem fraterna, na sua visão trata-se de um processo de controle militarizado na vida dos pobres das favelas. São operações truculentas que estão ligadas aos grandes negócios transnacionais da cidade do Rio, como a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016, aponta Malaguti.
“Em todo camburão existe algo de navio negreiro”
Esta foi a frase de abertura do ex-governador Nilo Batista ao ilustrar o problema da segurança pública no estado do Rio. Para ele, trata-se de uma crise de direitos civis oriunda das mudanças do capitalismo industrial do século XVIII para o atual capitalismo financeiro e transnacional. No mundo de hoje, ressalta o advogado, existem populações que não estão contempladas no seleto banquete neoliberal, e por isso estão sendo controladas pela atual política de segurança.“Nós temos um herói torturador como o Capitão Nascimento. No filme, suas ideias sobre drogas é um padrão a ser seguido. Vendo isso, é preciso que façamos uma leitura da vida política sobre os processos de criminalização. As forças da democracia torturaram e mataram mais do que as forças da ditadura”, afirmou.
“ As expressões artísticas visuais e as voltadas para o skate precisam estar com o pensamento mais progressista. Juventude não é uma questão da maneira com que você se veste, mas sim de atitude e de como se portar aos que estão ao seu redor”, afirmou Yuca.

Criticas à classe artística
Ao final da atividade Yuca fez críticas ao modelo social vigente dentro da classe artística no atual paradigma social. Segundo ele, vive-se um momento de falta de espaços para debates ideológicos.  Quando determinadas camadas sociais, como políticos,  sociólogos e artistas  afirmam que a UPP é o modelo mais certo a ser feito, estão cometendo um erro, complementa.
“A minha classe, que é a classe artística, está virando as costas para isso, porque tem medo de colocar o seu nome contra a UPP. Aqui mesmo estou vendo várias correntes de várias expressões culturais que de alguma maneira estão ficando dentro do papel social que o mercado lhes deu. Não estou querendo aqui colocar o meu ponto de vista como o certo, o que estou falando é da ausência de espaços como esse, que também não é meu”, concluiu.

“O Yuca é um cidadão inteligente e engajado, o discurso dele é pertinente e o espaço é importante. No entanto, a minha crítica vai para os grafiteiros que foram chamados aqui para ilustrar o evento. Os desenhos que estão aqui para ilustrar o evento mostram um  momento como se nós estivéssemos vivendo na Suécia, e não tem nenhuma ligação com que está sendo discutido aqui. Como, por exemplo, o funk de raiz e o hip hop. O Yuca fez essa crítica quando falou da classe artística”,  afirmou o cartunista Carlos Latuff.

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