
Não existem muitos países que no atual contexto econômico mundial abram seus mercados sem pedir nada em troca. A Argentina de Macri o faz e com fanatismo. Facilita o ingresso de produtos dos Estados Unidos, Brasil, Ásia e Europa que rapidamente substituem a produção nacional.
Por Alfredo Zaiat (*), do jornal argentino Página/12, edição impressa de 16/10/2016 – Tradução: Jadson Oliveira (o destaque acima, os intertítulos e a disposição dos parágrafos são desta edição)
Intelectuais e analistas do establishment acadêmico e midiático estão lançados a construir o relato do macrismo. Um dos pilares épicos que ponderam é a decisão política do regresso da Argentina às regras do mundo global. Nestes 10 meses estiveram desfilando executivos de multinacionais que festejam e ministros de potências ocidentais que elogiam esse retorno. Não é só publicitar o fim do isolamento internacional, como expoentes do conservadorismo têm banalizado a política exterior do kirchnerismo, mas sim postular a redefinição na forma de se relacionar no concerto político e econômico mundial.
Como se nada houvesse mudado no mundo desde a queda do Muro de Berlim, o domínio das finanças globais, a irrupção da China como potência econômica e o debacle de 2008, o macrismo se jogou nos braços do capitalismo global do século XXI. É recebido com entusiasmo porque num mundo sedento de mercados para descarregar excedentes de produção e para conseguir rendas financeiras fabulosas, o governo de Mauricio Macri ofereceu o espaço econômico argentino para que possa ser capturado.
A questão central que não avaliam em toda sua dimensão os intérpretes da marcha libertadora do macrismo é que já não existe esse mundo global de décadas passadas. Hoje está numa profunda crise sem sinais claros de qual será o desenlace.
Deflação e superprodução
A banca central estadunidense (Reserva Federal) subiria a taxa de juros no fim do ano, deixando atrás um dos ciclos mais prolongados de custo do dinheiro em quase zero. O principal banco alemão e europeu Deutsche Bank está cambaleando e analistas do mercado financeiro estão especulando que possa ser outro Lehman Brothers, o banco de investimento estadunidense que precipitou a quebra de 2008. A banca italiana está em terapia intensiva. A economia europeia não reage e a Grã Bretanha decidiu sair da União Europeia, sintoma da deterioração geral da região.
O protecionismo e o nacionalismo estão avançando a passo firme nas potências econômicas como resposta a uma crise econômica provocada pelo neoliberalismo, que como única resposta entrega políticas de austeridade ampliando o estancamento e incrementando a exclusão social. Retrocesso econômico, trabalhista e social que se expressa numa crise da representação política e o consequente surgimento de figuras por fora das estruturas tradicionais, como Donald Trump nos Estados Unidos.
A economia asiática já não é tão dinâmica e a chinesa continua liderando o ranking de crescimento global mas com variações longe dos dois dígitos. O Brasil continua num círculo vicioso de deterioração política e econômica sem um horizonte próximo de superação. A crise global está formatando uma economia mundial de deflação e superprodução.
Rumo a essa instabilidade política, econômica e social internacional se lançou o governo de Macri. Aqueles que se erigiram feitores do relato macrista festejam o fim do que denominam pejorativamente de populismo, e anunciam que se abriu uma etapa crucial de refundação do país. Não é uma ideia nova a que consiste em forjar um destino venturoso liderado pelas elites. Um dos aspectos mais frágeis desta elaboração voluntarista é que os que a formulam têm sido críticos ferozes do curto prazo do populismo e agora eles dizem que esse futuro maravilhoso depende do triunfo dos governistas nas eleições legislativas do próximo ano.
Por este motivo aceitam como licença de curto prazo um déficit gêmeo (fiscal e externo) elevadíssimo para suas almas puras da ortodoxia que nunca o convalidariam num governo populista, e um vertiginoso endividamento externo e interno, em pesos e em dólares, recursos que só são utilizados para cobrir esses enormes buracos e para cancelar dívidas. É uma combinação explosiva que está subordinada à construção da Argentina idealizada pelas elites.
Subordinação econômica à potência declinante
O macrismo e seus satélites políticos têm repetido até a exaustão que o país estava fora do mundo, e que agora são eles que empreenderam a tarefa fundamental de inseri-lo nele. Sabe-se que este suposto isolamento foi uma das tantas confusões deliberadas que moldaram o senso comum nos últimos anos. O aspecto interessante é avaliar a que mundo o macrismo decidiu incorporar a economia argentina, e fundamentalmente de que modo.
Como se nada houvessem aprendido da história, a definição geopolítica e econômica foi amarrar uma aliança estratégica com os Estados Unidos, potência que na atual etapa do capitalismo global já não está sozinha no cume do poder econômico, e sim que começou a compartilhar este espaço privilegiado com a China. Essa opção geoestratégica e econômica se parece bastante à decisão das elites da década de 30 do século passado com a assinatura do pacto Roca-Runciman, de subordinação econômica à potência declinante (Grã Bretanha) em detrimento da emergente (Estados Unidos); hoje se reitera essa equivocada perspectiva histórica das elites argentinas.
Desorientação que também manifestam ao promover uma ampla abertura financeira e de livre comércio quando o mundo já começou a transitar lentamente, porém a passo firme, rumo ao protecionismo e o nacionalismo. É uma das principais razões para se entender o entusiasmo de executivos e de diferentes ministros de potências ocidentais com o governo de Macri. Não existem muitos países que no atual contexto econômico mundial abram seus mercados sem pedir nada em troca. A Argentina de Macri o faz e com fanatismo. Facilita o ingresso de produtos dos Estados Unidos, Brasil, Ásia e Europa que rapidamente substituem a produção nacional.
Se algum intelectual orgânico do macrismo busca respostas sobre as razões da cálida recepção que tem Macri no mundo ocidental, em contraposição à crescente resistência que desperta a nível local, deve encontrá-las nesta abertura fora de época que está propiciando.
Armadilha do baixo crescimento
Recentes informes de organismos internacionais dão conta da crise internacional à qual o macrismo abriu as portas argentinas de par a par. A Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômicos (OCDE), que agrupa 34 países desenvolvidos, observa que a economia mundial ingressou na armadilha do baixo crescimento. “A espiral não é ascendente, mas descendente. Com queda do comércio, baixa produtividade e redução do crescimento global”, aponta.
O FMI assinala que “desde 2012, o crescimento do volume do comércio mundial de produtos e serviços foi menos da metade do que nas três décadas anteriores. Apenas se manteve o ritmo com o PIB mundial e a desaceleração tem sido generalizada”.
A UNCTAD, a organização da ONU que monitora as economias dos chamados países em desenvolvimento, adverte em World Economic Situation and Prospects 2016 que o mundo está a ponto de “entrar numa terceira fase da crise financeira e não se podem descartar espirais deflacionárias danosas”. Destaca que não há investimento nos setores produtivos e que muitos países têm aumentado a distância com os países ricos em relação à década de 1980, apesar da abertura aos fluxos de capital multinacionais. Para indicar que “a maior parte desses benefícios obtidos saíram dos países ou se investiram em setores não produtivos como o imobiliário ou a especulação financeira”.
Nestas regras do mundo global, num cenário econômico internacional perturbador, o macrismo apostou para empreender a refundação da Argentina conduzida pelas elites. Não é preciso conhecer muito da história nem da conjuntura mundial para saber quais serão os custos do regresso a esse mundo.
(*) Alfredo Zaiat, 52 anos, é jornalista e economista argentino.
Link para ler no original: http://www.pagina12.com.ar/diario/economia/2-311890-2016-10-16.html
Argentina: regresso ao mundo – por Alfredo Zaiat
