Uso político da violência em operação no Rio transforma massacre em ‘triunfo eleitoral’ para a extrema direita

Governador Cláudio Castro (PL) defendeu operação policial no Rio em denúncias de violações de direitos humanos e suspeitas de execuções sumárias – Fernando Frazão/Agência Brasil

Ignacio Cano, da Uerj, alerta que ‘extrema direita está convergindo com essa operação’ de olho nas eleições.

 Adele RobichezIgor CarvalhoJosé Eduardo Bernardes e Larissa Bohrer / Brasil de Fato / São Paulo (SP), 30.out.2025 às 05h00

O professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e membro do Laboratório de Análise da Violência Ignacio Cano afirmou que a megaoperação policial realizada na zona norte do Rio de Janeiro, marcada por uma chacina com mais de 100 mortos, segue uma “lógica bélica”, voltada a “maximizar o número de mortes” e consolidar um projeto político baseado na retórica do “bandido bom é bandido morto”.

A Operação Contenção, realizada nesta terça-feira (28) pelas polícias civil e militar do Rio de Janeiro, deixou, confirmados até então, 121 mortos, sendo 117 civis e quatro policiais. Em coletiva de imprensa, o governador do estado Cláudio Castro (PL) classificou a ação como um “sucesso” e reconheceu apenas os policiais como vítimas. “A vida dessas pessoas não só não vale nada para o governador, ele considera um triunfo ter matado, como ele fala, ‘neutralizado’ essas pessoas”, criticou Cano, em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.

Segundo o pesquisador, o governo do Rio de Janeiro “apresenta o recorde de mortes como um logro histórico”, em um contexto de disputa entre governadores ligados ao bolsonarismo, em que a violência é usada como uma ferramenta de visibilidade pública. Ele acredita que a operação teve “uma intenção política, feita em um ano pré-eleitoral”, e que “as forças da direita e extrema direita estão convergindo com essa operação para se situar em relação ao ano que vem”.

Cano também observou que o discurso do governador Cláudio Castro se alinha à retórica do presidente Donald Trump, nos Estados Unidos, e de governos de extrema direita da América Latina. “A agenda dele encaixa perfeitamente com a agenda dos Estados Unidos, de países que vêm usando o termo ‘narcoterrorismo’. Isso é extremamente preocupante porque tenta apagar a distinção entre guerra e segurança pública”, alertou.

Operação planejada para ‘maximizar mortes’

O professor classificou a megaoperação como “uma tragédia gigantesca” e “um dos maiores massacres policiais da América Latina”. “Na visão do governador, que infelizmente não é só dele, é uma visão bélica. Eles estão tentando causar o máximo número de baixas no exército inimigo. O ‘placar’ agora está 120 a quatro, mais ou menos. E, para eles, é francamente favorável”, apontou.

Ele destacou que, diferentemente de operações anteriores, a incursão foi desenhada para impedir a fuga de suspeitos. “Historicamente, a polícia entra, mata dois ou três, e o resto foge. Mas, dessa vez, a operação foi planejada para impedir que fugissem e para que não tivessem forma de escapar”, sugeriu. “Nós temos mais pessoas mortas do que presas, o que já é um indicador do grau de brutalidade da operação”, indicou.

Cano afirmou ainda que, diante da escala da violência, “é inevitável que haja várias execuções sumárias” e defendeu o envio de peritos federais para apurar as mortes. “A vinda de autoridades federais deveria vir acompanhada de peritos legistas para ver quais dessas mortes foram realmente de confronto e quais foram execuções sumárias”, disse.

Ao comparar o caso a chacinas anteriores, como o Carandiru e os Crimes de Maio, em São Paulo, o pesquisador afirmou que a operação deve “se tornar o maior massacre da história do Brasil”. “Em um dia só, em uma operação só, o número elevadíssimo de mortes continua crescendo. Vai ser um marco no futuro”, projetou. “Infelizmente, não descarto que algum deputado queira se eleger com esse número total de mortes, como já aconteceu em São Paulo”, lamentou.

Falta de responsabilização e impunidade

Cano avaliou que as chances de punição aos responsáveis são pequenas. “Nosso histórico é muito ruim. É muito difícil conseguir uma condenação contra um policial por execução sumária. O Ministério Público do Rio, infelizmente, não cumpre o papel constitucional de controle externo da atividade policial”, afirmou.

Para ele, sem uma investigação federal independente, como a feita após a Chacina do Pan, em 2007, a apuração não avançará. “É justamente esse tipo de ajuda que precisaríamos hoje. Que não precisa de GLO [Garantia da Lei e da Ordem] nenhuma, mas que dificilmente será aceita pelo governo do estado”, defendeu.

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 9h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

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