“Temos ou não temos que matar?” – pergunta essencial da filosofia

Foto: P'agina12
Foto: P’agina12

Voltamos aqui à pergunta essencial da filosofia: temos ou não temos que matar? A resposta a esta pergunta decide todos os atos de todos os homens. Se a formulem ou não. Um país soberano é um país com história, uma história feita pela libertação de seu povo.
Mais um instigante artigo deste filósofo argentino que tenho a honra e o prazer de apresentar aos leitores de minha coluna. Traduzi do jornal argentino Página/12, edição de 08/01/2017 (o título acima é de minha autoria).
Um menino sem manjedoura – por José Pablo Feinmann
Destino (“Nada está escrito”)
A concepção do destino diferencia a cultura do Ocidente da oriental. O Oriente concebe o destino como algo já escrito. O Ocidente sempre se jactou da ideia de liberdade. Não é simples discorrer sobre esta diferença. Para o homem do Ocidente a liberdade individual deve poder mais do que o destino.
Em Lawrence da Arábia, o esplêndido filme de David Lean, há uma cena esclarecedora. Quando os árabes terminam de cruzar o deserto notam a falta de um dos seus homens. O xeique recebe a notícia. “Não vale a pena voltar”, diz. “Se ficou lá, estava escrito”. Lawrence que está com ele sai em busca do homem, quando regressa trazendo-o lhe diz: “Nada está escrito”.
O que se escamoteia é a liberdade individual. Na versão fatalista se apresenta um deus que escreveu tudo. Assim os homens não têm o árduo trabalho de escolher. Mas ao não escolher não realizam sua liberdade. Nunca serão livres, sempre haverá alguém mais poderoso que lhes ditará o que têm que fazer.
Isto libera da culpa, mas torna menos atrativa a vida do ser livre que busca assumir-se nos atos do homem do Ocidente. Quanto mais sujeitos ao destino, mais acomodados vivem os homens. Suas ações serão aceitas por um deus bondoso.
Deus bondoso
No Antigo Testamento Deus diz a Moisés palavras terríveis. De ódio e de vingança. No Novo Testamento o sermão de Jesus no Monte das Oliveiras se expressa com palavras de amor e esperança. Mas também estão os versículos perigosos, talvez demoníacos, que unem a espada e o fogo. Que falam de castigo, que falam de vingança, estão cheios de ódio. São um apelo à luta. As tendências dos sacerdotes que pregaram a rebelião sempre os incluem.
Deserto
Sempre é expressivo que se tenha chamado “Conquista do Deserto” a morte dos índios desse território em mãos de Roca e seus soldados (ver observação abaixo). Se o deserto é o nada, que é o que se conquista. O nada tem em si mesmo algo para se conquistar? Sempre nas narrações sobre o deserto alguém morre nas areias movediças. Ninguém é nada se o deserto se obstina em matá-lo. O deserto se é nada não se obstina. Acontece que era necessário dar um sentido ético à campanha mortal de Roca. O que este general conquistou? O nada? Ou terras muito valiosas para os criadores de gado de Buenos Aires e para levar a cabo o Pampa gringo, que é a disseminação dos ingleses pela Patagônia.
Nas mãos dos ingleses o deserto se transforma na civilização capitalista. Aqueles que o habitavam são a barbárie. Que sempre deve ser conquistada em nome do progresso. Toda guerra levada a cabo pelo colonialismo busca demonstrar que o outro não pertence à cultura. Desde os distantes tempos de Colombo em que o outro carecia de alma e merecia morrer, se matou sempre em nome de valores. Hoje, por exemplo, o Ocidente diz estar lutando pela paz e a democracia nas terras do Oriente. A democracia cheira a petróleo.
Linguagem e colonização
O colonizador é dono da linguagem. Os colonizados a incorporam. O colonizador dita a lei. O colonizado sabe que tem de obedecer. O colonizador considera sua ação como uma campanha civilizatória. O colonizado sabe que tem de lutar para ser livre. Livre do colonizador. Esta é a luta pela nacionalidade. Cair na barbárie seria rebaixar-se. O mais bárbaro resulta ser o colonizador. O colonizado não é mais livre quando mata, porém seria valioso imaginar um mundo no qual não seja necessário matar. Voltamos aqui à pergunta essencial da filosofia, temos ou não temos que matar. A resposta a esta pergunta decide todos os atos de todos os homens. Se a formulem ou não. Um país soberano é um país com história, uma história feita pela libertação de seu povo. Se liberta a si mesmo e forma uma nação.
A anemia
Qualquer um se sente fraco quando está anêmico, a etimologia de anemia nos leva à carência de sangue. A carência de sangue à fraqueza. A fraqueza implica o não desejo de poder. Um povo anêmico não luta, se entrega. Um povo anêmico não elabora um rosto próprio. Sua soberania. Um povo anêmico teme a sua própria imagem, a sua própria força. Não a pode usar porque não permite apropriar-se dela. Um povo anêmico é covarde. Foge da luta e busca a paz da submissão. Um povo anêmico espera tudo de fora. Teme construir seus próprios horizontes e se empenha em demonstrar que são impossíveis. Algo que o livrará do esforço de lutar por eles. Espera que o desejo de conquistar sua liberdade lhe chegue como uma graça divina.
Estamos esperando os Reis Magos?
Observação do tradutor:
O autor se refere à Conquista do Deserto, levada a cabo pelo general Julio Roca, episódio dos mais importantes da história argentina. Foi o extermínio dos indígenas da parte mais ao sul da Argentina (pegando parte do Chile), dos pampas (pega parte também do nosso Rio Grande do Sul) e da Patagônia. Extermínio sim (tentado desde o tempo dos colonizadores espanhóis e consumado lá para o final dos anos 1800, quando a Argentina já tinha conseguido sua “independência”), mas os mapuches, um dos povos originários massacrados, continuam sua luta heroica até hoje, tanto na Argentina como principalmente no Chile.

Deixe uma resposta