Putas e guerrilheiras na ditadura argentina

A então Escola de Mecânica da Armada (Marinha) – ESMA, famigerado centro de tortura, transformado na era dos Kirchner em museu da memória (Foto: DyN/Página/12)
A então Escola de Mecânica da Armada (Marinha) – ESMA, famigerado centro de tortura, transformado na era dos Kirchner em museu da memória (Foto: DyN/Página/12)

Antecipação do livro de Miriam Lewin e Olga Wornat sobre os crimes sexuais nos centros clandestinos de detenção.
“É verdade que você saía com o Tigre Acosta? (conhecido torturador argentino)”. Houve um silêncio pesado, um prender de respiração de todos os que estavam no estúdio.
–Como assim “saía”?
–Bem… – recuou –. Se é verdade que saíam para jantar, isso é o que as pessoas dizem…
Por Miriam Lewin, no jornal argentino Página/12, edição de 05/05/2014 (Tradução: Jadson Oliveira – Atualmente, julho de 2016, o livro em questão já está à venda há dois anos).
Militantes em sua juventude e jornalistas depois, as autoras relatam – no livro ‘Putas e guerrilheiras’, a ser distribuído pela Planeta nesses dias (maio/2014) – as torturas, abusos e violações que sofreram centenas de mulheres nos centros clandestinos na década de 70. Em alguns casos foram também relações tortuosas nascidas sob tormentos com seus algozes. Aqui, como antecipação, um extrato da introdução de Miriam Lewin.
Mártires e prostitutas
Era 24 de março, aniversário do golpe, e me haviam convidado ao programa de TV Almoçando com Mirtha Legrand. Aceitar estar ali significava para mim renunciar a ir à ESMA (Escola de Mecânica da Armada – da Marinha, antigo centro de tortura), agora a um ato de massa de grandes proporções, no dia de sua conversão em espaço para a memória. Decidi ir ao programa da ex-diva do cinema argentino que se tornou entrevistadora, sobretudo porque iam também Estela de Carlotto, presidenta de Avós da Praça de Maio, e Mariana Pérez, cujos pais, desaparecidos, haviam militado comigo. Mariana havia procurado incansavelmente seu irmão Rodolfo, nascido na Escola. Eu havia estado presente no parto. Havia visto esse bebê sobre o peito de sua mãe, sabia que havia sido arrebatado depois e havia declarado nos tribunais sobre o tema. A mesa era completada por dois juízes do Julgamento das Juntas e um jornalista.
Seguramente o programa ia ser visto dentro de suas casas por muita gente que ainda não sabia ou não reconhecia a verdadeira dimensão do que havia acontecido nos domínios do grupo de tarefas 3.3.2. Outras milhares de pessoas se reuniriam à mesma hora na Avenida do Libertador, frente ao campo de concentração, onde o presidente Néstor Kirchner ia compartilhar o cenário com Juan Cabandié (Nota do tradutor: hoje deputado federal kirchnerista), outro recém nascido a quem eu havia visto em novembro de 1977 num corredor do campo, nos braços de sua mãe, uma moça de 16 anos, depois assassinada.
Cheguei cedo. Um produtor veterano, que conhecia só de vista, me atalhou na entrada. Me levou a um canto e, consternado, me advertiu que “a velha” tinha planejado me fazer algumas perguntas inconvenientes e que queria que eu estivesse prevenida.
Que perguntas inconvenientes? – indaguei, com a segurança de que não ia ser pior do que haviam me perguntado os advogados dos militares em algum processo a que havia ido como testemunha. No geral, me atribuíam – para me desqualificar – ações armadas, atentados ou sequestros nos quais não havia participado.
O produtor tossiu, nervoso.
–Não sei, imagino que terá algo a ver com a colaboração, com a delação. Te antecipo para que não te sintas incomodada.
–Não te preocupes, estou acostumada. Te agradeço muito.
Tinha clareza para que estava ali e as intrigas não me importavam. No dia da recuperação do espaço do campo de concentração para a sociedade civil eu ia falar a uma parte dessa sociedade que talvez nunca havia prestado atenção ao assunto. Talvez se o dizia sentada à mesa de Mirtha todos compreenderiam. Me vieram buscar e me deixaram no estúdio.
Detrás de uns painéis me colocaram o microfone, quase invisível, um cabo que trepava por debaixo de minhas roupas até o decote e um receptor pendurado na cintura. Em poucos minutos eu estava no centro da cena, rodeada por cristais, jarrões com flores, brocados, adornos (“caireles”), tapetes e cortinados. Já havia concluído o rito costumeiro da descrição do vestuário, sapatos e joias da apresentadora, e os risinhos e aplausos do enxame de assistentes e empregados que a acompanhava por trás das câmeras.
Era uma jornada especial. Não houve almoço servido por mucamas de uniforme. Tampouco se distribuiu o presente costumeiro para cada convidado, um relógio pulseira. “Não é um dia para festejar”, disse Mirtha, e todos assentiram, admirando sua sensibilidade.
Não sei como aconteceu. Não me lembro se ela tinha a pergunta anotada num papel para ajudar a memória. Tampouco recordo se nesse momento estávamos sozinhas, assim sozinhas como se pode estar frente a uma audiência de centenas de milhares de pessoas… Mas depois de me fazer uma observação sobre como me caía bem minha nova cor de cabelo, me disparou: “É verdade que você saía com o Tigre Acosta? (conhecido torturador argentino)”. Houve um silêncio pesado, um prender de respiração de todos os que estavam no estúdio.
–Como assim “saía”?
–Bem… – recuou –. Se é verdade que saíam para jantar, isso é o que as pessoas dizem…
Respirei profundamente, como reunindo forças. Poderia ter me levantado e saído do estúdio, poderia me ter ofendido. Seguramente, a cena teria sido reproduzida dezenas de vezes nos programas de “pegadinhas” do espetáculo. “Jornalista de Puntodoc faz uma desfeita a Mirtha quando lhe pergunta se teve um namorico (ninguém diria ‘foi abusada sexualmente’, com certeza) com o chefe do grupo de tarefas da ESMA” (grupo encarregado de diligências e torturas). Porém, não o fiz. Respondi:
–É verdade, nós mesmas o relatamos no livro ‘Esse Inferno’ que escrevemos sobre o que vivemos no campo. Nos tiravam para jantar. Não saíamos por nossos próprios meios. Não tínhamos direito de recusar. Éramos prisioneiras. Vinham nos buscar os guardas em plena noite e nos levavam. Uma companheira, Cristina Aldini, o Tigre Acosta a levou para dançar em Mau Mau depois do assassinato de seu marido. Que os assassinos de seu marido levem uma mulher para dançar num local da moda me pergunto se não é uma forma refinada de tortura. Para Cristina um oficial da ESMA lhe levou a aliança de seu esposo, Alejo Mallea, a seu beliche em Capucha, onde estava presa, para mostrar que o haviam assassinado. Lhe perguntou se ela queria ver o cadáver. Cristina a princípio duvidou, mas depois aceitou porque pensou que, do contrário, sempre ia ficar na incerteza. Quando o viu, tinha dois tiros no rosto. Um foi o tiro de misericórdia, entre as duas sobrancelhas. Ele tinha sido executado.
Mirtha se sentiu em falta. Olhou para trás das câmeras, como buscando apoio.
–Bem, eu tenho que perguntar…
Ninguém respondeu.
–Ou pega mal que pergunte? – disse, como a ponto de choramingar, ensaiando uma cara angelical.
Quando tudo terminou, me acompanhou até a porta uma produtora.
–Não sei como te pedir desculpas – me disse, respirando forte e sacudindo a cabeça. Me deu a impressão de que a ela também havia doído. Era uma mulher da minha idade. Parecia abatida, indignada, envergonhada. Talvez tivesse algum parente ou amigo desaparecido, pensei.
Esse “saía” de Mirtha encerrava um significado concreto. Tinha razão em se surpreender pela reprovação de sua claque. Provavelmente Mirtha encarnava o pensamento de milhares de pessoas, essas que teriam querido perguntar como ela, assim, elipticamente, se eu havia me salvado por dormir com o chefe do grupo de tarefas. Porque alguma explicação tinha que haver por eu ter passado de encapuzada no campo de concentração a convidada à mesa da diva. E sua pergunta implicava uma condenação, uma sentença que nesse momento eu não soube desarticular contra-argumentando, provocando-a como ela me provocava, a partir de sua pretendida ingenuidade conveniente. Dizendo, por exemplo: “Não, não dormi com o Tigre Acosta, porém se o tivesse feito para salvar minha vida, então? Quem poderia me julgar? Quem pode assegurar o que é que teria feito se tivesse estado em meu lugar?”.
Nenhuma de nós tinha possibilidade de resistir, estávamos sob ameaça constante de morte num campo de concentração. Estávamos desaparecidas, sem direitos, inermes, arrasada nossa subjetividade. Seu domínio sobre nós era absoluto. Não podíamos tomar nenhuma decisão, isso era absolutamente inimaginável. Deles dependia que comêssemos, que dormíssemos, que respirássemos. Eles eram nossos donos absolutos. Não ficava resquício algum para nosso livre arbítrio. Mas se tivesse existido? Se o olhar lascivo deles sobre nossos corpos tivesse sido usado por nós como uma arma contra eles, um resquício de força em nossa extrema fraqueza, teria sido correto nos condenar socialmente?
Como mulheres, a utilização de nossos corpos ou o desejo que despertamos no outro como instrumento de manipulação ou de salvação é condenável. Não acontece o mesmo com os homens.
(…)
Queríamos ser mártires e não prostitutas
As mulheres sobreviventes sofremos duplamente o estigma.
A hipótese geral era que, se estávamos vivas, éramos delatoras e, ademais, prostitutas. A única possibilidade de que as sobreviventes houvéssemos conseguido sair de um campo de concentração era através da entrega de dados na tortura e, ainda mais, por meio de uma transação que se considerava ainda mais infame e que envolvia nosso corpo.
Nós havíamos dormido com os repressores. E não éramos vítimas, mas sim que havia existido uma alta cota de vontade própria: nos havíamos entregado de bom grado à lascívia de nossos captores quando havíamos podido escolher não fazê-lo. Havíamos traído duplamente nosso mandato como mulheres: o da sociedade em geral e o da organização na qual militávamos. Não nos via como vítimas, mas como donas dum livre arbítrio na verdade improvável.
Resulta impossível explicar por que os que nos julgavam, sem ter vivido as condições que se sofriam num centro clandestino de detenção, supunham que as mulheres tínhamos o poder de resistir à violência sexual, aos assédios dos repressores e podíamos preservar “o altar” de nossos corpos impoluto.
As mulheres tínhamos um tesouro que guardar, uma pureza que resguardar, um mandato que obedecer. Nos haviam convencido de que era assim.
Eu não escapava desse mandato. Por isso, o total rechaço que me provocava a conduta da mulher de meu assistente (meu “responsável” na organização em que militava). Nunca me ocorreu que podia usar a atração que provocava em seu captor para conseguir o precioso tesouro do contato telefônico com sua filhinha, para aliviar sua dor de mãe separada de sua filha. Tampouco que não havia tido o poder de resistir aos assédios sexuais de seu sequestrador, desaparecida e privada de todos seus direitos, em mãos de um grupo de ilegais que dispunha de sua vida e de seu corpo. Do mesmo modo que não havia podido se preservar das lacerações do choque elétrico. Para mim, para a Petisa, para todos, essa moça era a encarnação do pior, do mais repulsivo.
Sentíamos mais medo de nos converter nisso do que de nos imolar. Queríamos ser mártires e não prostitutas.
Não me era possível terminar este livro, que idealizei com minha amiga e companheira Olga, sem incluir uma passagem de minha própria história que me atormentou durante anos. Não podia, não teria sido honesto, expor as experiências de outras mulheres e calar sobre a minha. É na realidade parte de um romance autobiográfico que comecei a escrever faz um tempo, precisamente para clarear dentro de minha mente o que havia atravessado. Por isso, no final de ‘Putas e guerrilheiras’, relato o vivido em ‘La Casa de la CIA’.

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