O Imperador sem roupas e sem cartas

Presidentes da China, Xi Jinping, e dos EUA, Donald Trump 14 de maio de 2026 Kenny Holston/Pool via REUTERS (Foto: Kenny Holston/Pool via REUTERS)

A Xangai empresarial não está exatamente impressionada com a chegada do Imperador da Barbária.

Por Pepe Escobar / Brasil 247, 14 de maio de 2026, 10:33 h

Xangai – A casa de força da China dispara como um vertiginoso veículo elétrico. A atmosfera é elétrica. Em um jantar de negócios em um emblemático restaurante cantonês, a visita de Trump à China, pelo menos, propele a conversa em uma direção mais tangível: os caminhos conflitantes para as futuras gerações do Ocidente e do Oriente.

A Xangai empresarial não está exatamente impressionada com a chegada do Imperador da Barbária. Mesmo que todas as variáveis geoeconômicas  possíveis estejam em jogo naquela que talvez seja a reunião diplomática mais importante do Ano de Guerra de 2026, cujas possíveis decisões sobre comércio e segurança fatalmente irão afetar todo o Sul Global.

Comecemos com as prosaicas preocupações estadunidenses. Como Mestre na Arte da Empatia Zero, Trump, ao menos, talvez  tenha entregue todo o jogo com suas vociferações: “Eu não penso na situação financeira dos americanos. Eu não penso em ninguém”.

No entanto, ele está aterrorizado com a possibilidade de vir a se tornar um pato manco e gordo depois das eleições de meio de mandato. Ele, portanto, irá pressionar Pequim a comprar mais soja – para pacificar seus eleitores do Meio Oeste – e mais  Boeings. Ele irá pressionar Pequim a exportar terras raras – para pacificar o complexo industrial-militar.

E, é claro, ele irá exercer sobre Xi pressão máxima para que ele force Teerã a abrir o Estreito de Ormuz para que os preços do petróleo caiam, para que a inflação baixe e para que o Fed reduza as taxas de juros.

Trump não tem nenhuma carta nas mãos para alcançar essa agenda. Quanto à guerra tecnológica, sua pressão máxima só fez com que a China, de forma espetacular, abandonasse  seus fornecedores estadunidenses, vez após vez. Quanto à guerra comercial, a China diversificou amplamente suas exportações e conseguiu até mesmo um superávit comercial recorde.

O Irã, é claro, é o ponto chave – e não apenas por escancarar a todo o planeta os mega buracos existentes na estrutura da “nação indispensável”. O que Trump fará? Ameaçar Xi porque o Irã vem usando o sistema de satélites chinês BeiDou, que de fato reduziu todo o Oeste da Asia à condição  de casa de vidro para os mísseis balísticos iranianos?

O Irã nunca perdeu seu corredor de conectividade com a China quando o Imperador da Barbária inventou o tal “bloqueio”. O fluxo continua por meio da rede de petroleiros  fantasmas que navegam próximo às águas territoriais iranianas e paquistanesas, das transferências de navio a navio, de cargas disfarçadas e, agora, com Pequim dizendo aos refinadores chineses que absorvam os riscos das sanções.

Essa não é uma luta que se desenrola apenas em termos talassocráticos, mas também em termos do interior da Eurásia – em termos do corredor ferroviário eurasiano, os trens que vão de Xian a Teerã e vice-versa. Talvez as ferrovias ainda não igualem o volume das exportações marítimas, mas, estrategicamente, elas são absolutamente cruciais, demonstrando que a pressão marítima é completamente diferente do estrangulamento econômico terrestre.

A “brilhante” ideia estadunidense de sufocar a cadeia de suprimentos de petróleo chinesa – da Venezuela a Ormuz – e também de aplicar sanções às pequenas refinarias independente chinesas conhecidas como as refinarias bules-de-chá, só fizeram com que a China  surgisse como um dos principais mediadores de fato durante o (constantemente quebrado)  cessar-fogo, juntamente com a Rússia.

Todo o jogo de Ormuz, jogado à perfeição pelo Irã, teve muito pouco impacto sobre as importações chinesas, tanto quanto a restrição das exportações de Nvidia H100 e H200 a fim de “controlar” a IA chinesa teve impacto zero. Na verdade, a China ignora a Nvidia. O modelo DeepSeek V4 usa chips locais. E o  H200 não é vendido na China.

Xi nem precisará dizer cara-a-cara a Trump que se ele insistir em empregar a guerra financeira fechando as instituições financeiras por trás das refinarias bule-de-chá, Pequim não terá problema algum em desencadear uma guerra econômica total.

Taiwan não é a única carta restante. Taiwan sequer é uma carta. Taiwan é uma questão de segurança interna para Pequim. Tudo o mais é pura invencionice. Talvez Pequim invista em convencer Trump a anular a venda de armas no valor de onze bilhões de dólares  a Taiwan, incluindo destróiers equipados com Aegis, F-35s (ineficientes), mísseis Patriot e aeronaves  E-2D Hawkeye para sinais de alerta precoces. Mas até isso é periférico.

Então, o que resta após toda a (reduzida)  pompa e circunstância? Na melhor das hipóteses, o atual e muito precário status quo.

O plano chinês para a guerra tecnológica 

Resumindo, o jogo de Trump é forçar Xi a aplicar pressão diplomática sobre o Irã para que aquele país aceite os termos da Barbária para o fim da guerra. O que não tem a menor chance de sucesso em aspecto algum.

Mesmo que isso viesse a acontecer, Trump poderia oferecer  em troca relações comerciais Estados Unidos-China estáveis, extensões de tréguas comerciais e concessões quanto  aos controles tecnológicos. Xi não se deixa impressionar com nada disso – por saber, seguindo a máxima de Lavrov, que os Estados Unidos não são “capazes de honrar acordos”.

A tão queimada marca BRICS talvez nem ao menos figure nas discussões. A China tratará separadamente de seus graves desafios internos, na reunião de Chanceleres a ter lugar na Índia quase que simultaneamente ao encontro Trump-Xi em Pequim.

Xi, além disso, talvez suspeite que os verdadeiros manipuladores de Trump – o Tecnofeudalismo, os Grandes Bancos e os diversos rebentos do Sionismo S.A. – urdiram uma guerra mundial sistêmica e sequenciada que já vem sendo travada, de agora até cerca de 2040, tendo como alvo a infraestrutura global essencial, o comércio e a energia, destinada a colapsar a velha ordem e instalar um verdadeiro Grande Reset, em termos muito mais lucrativos.

Esse é o exato, direto e bruto oposto da política chinesa oficial, que busca formar uma comunidade direcionada a um futuro compartilhado para a humanidade. Xi não se desviará um milímetro dessa política, que na verdade é a sua política, para aplacar o descomunal e patológico ego de um narcisista psicopata.

Xi já vem se concentrando nas 141 páginas do Plano Quinquenal revelado em março, que faz mais de cinquenta referências à IA, mira uma penetração de mais de 70% da IA na economia chinesa por volta de 2027 e se compromete com redes de comunicação quântica entre o espaço e a Terra,  linhas do tempo para a fusão nuclear e interfaces cérebro-computador.

O Plano Quinquenal também declara “medidas extraordinárias” para a autossuficiência em terras raras  e semicondutores – fortalecendo uma cadeia de suprimentos sem a qual as forças armadas dos Estados Unidos simplesmente pereceriam.

O plano chinês prevê a implementação de IA por toda a economia, a robótica como a espinha dorsal da indústria, infraestrutura espacial, computação quântica e total fortalecimento do domínio no processamento das terras raras.

Chame-se a isso um verdadeiro plano bélico chinês – no nível de uma prioridade de segurança nacional – em confronto direto com os Estados Unidos. Acreditar que Trump seria capaz de alterar qualquer parte desse plano com uma pilha de promessas vazias é para lá de ingênuo.

Os registros históricos serão escritos. O que já é certo é que a idiotice de tentar manter o domínio global estrangulando a superpotência emergente que é a China por meio do “bloqueio” dos portos iranianos e do Estreito de Ormuz, ateando fogo em todo o Oeste Asiático ao mesmo tempo em que levam à falência sua própria economia irá figurar como uma das Três Maiores da longa lista de idiotices  produzidas pelo profundamente iludido Deep State dos Estados Unidos.

Tradução de Patricia Zimbres

Pepe Escobar é jornalista e correspondente de várias publicações internacionais

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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