A psicanálise do burnout – neoliberalismo e colapso

Imagem: nikko macaspac

Para além do cansaço físico, o esgotamento contemporâneo revela o empobrecimento dos afetos e a dependência patológica da produtividade para sustentar a própria existência.

Por Márcio Sales Saraiva* / A Terra é Redonda, 01/05/2026

1.

O burnout virou palavra de uso comum. Aparece em consultórios, reportagens da grande mídia e conversas na fila do mercado. Mas, curiosamente, o DSM-5 (o famoso Manual de Diagnóstico em Saúde Mental) não o reconhece como diagnóstico formal, ou seja, não é uma “doença” da psiquiatria mainstream. Quando muito, enquadra seus efeitos em categorias como “transtorno depressivo maior” ou “transtorno de ansiedade generalizada” (American Psychiatric Association, 2013).

A Organização Mundial da Saúde, por sua vez, define burnout como fenômeno ocupacional, ligado ao estresse crônico no trabalho (OMS, 2019). Em outras palavras, a medicina descreve os sintomas, mas hesita em nomear o processo. É justamente aí que a psicanálise pode contribuir com algumas ferramentas de interpretação.

O termo surgiu nos anos 1970 com Herbert Freudenberger,[i] ao observar profissionais altamente engajados que, depois de um período de dedicação intensa, entravam em colapso (Freudenberger, 1974). Não eram sujeitos apáticos, mas exatamente o contrário. Gente que acreditava muito no que fazia, mas não conseguia parar. Christina Maslach[ii] refinou a ideia ao descrever três dimensões do fenômeno (Maslach e Jackson, 1981). A intuição de origem já dizia muito. O problema não é falta de investimento no trabalho, mas investimento demais, compulsivo, sem mediação.

A síndrome de burnout será redefinida por Christina Maslach a partir de um tripé dimensional que compreende a (i) exaustão emocional, caracterizada pelo esgotamento dos recursos internos do sujeito; (ii) a despersonalização, que se manifesta por meio de atitudes cínicas e distanciamento afetivo em relação ao público atendido; e (iii) a reduzida realização pessoal, traduzida por um sentimento de ineficiência e fracasso pessoal/profissional.

Diferentemente das abordagens que patologizam o indivíduo ou atribuem o esgotamento a uma suposta “fragilidade de caráter” ou da “personalidade/self”, essa perspectiva psicossocial desloca o foco para as falhas na cultura organizacional e no ambiente de trabalho, compreendendo o fenômeno como um sintoma da estrutura social contemporânea e não como uma psicopatologia estritamente individual.

2.

A psicanálise radicaliza essa sacada de Christina Maslach. O burnout não é apenas cansaço. É um modo de funcionamento psíquico. Um sujeito que hiperinveste no trabalho como forma de sustentar valor, identidade e reconhecimento para o Outro. O trabalho deixa de ser apenas atividade que gera renda (e alguma satisfação, em alguns casos) e passa a ser a garantia de existência daquela pessoa. Nesse cenário, parar não é descansar. É cair derrotado, é “perder o jogo”, é não existir mais como sujeito.

Aqui entra o neoliberalismo e toda a cultura da performance, do se vire sozinho, do “empreendedor de si”, mas não como palavra de efeito, mas como forma de organização da vida no capitalismo global. O sujeito contemporâneo é convocado a funcionar maquinicamente como empresa de si mesmo, permanentemente disponível, mensurável, produtivo. A precarização não é só econômica.

É também simbólica, pois é empobrecimento dos afetos e dos vínculos. As referências coletivas que antes organizavam o laço social se fragilizam (ou tornam-se “líquidas”, para lembrar Bauman), e o indivíduo passa a depender ainda mais do desempenho para se sentir alguém (Dejours, 1992).

Mas há um deslocamento importante em relação às formas clássicas de dominação nas sociedades de mercado. Não se trata mais apenas de um supereu externo, de um “patrão” que impõe regras de fora ao sujeito que depende deste para ganhar dinheiro. O comando se internaliza como ‘ideal de eu”. O sujeito passa a se exigir por dentro, internalizando o “chicote do patrão” a partir de um modelo de excelência, desempenho e sucesso que o próprio sujeito incorpora (Han, 2015).

A cobrança não vem apenas de fora. Vem de dentro, e esta é geralmente mais implacável que as antigas cobranças do ambiente. É uma servidão que se apresenta como “livre escolha da pessoa”. O sujeito acredita que quer aquilo que, na verdade, o submete como uma espécie de escravo desse ideal de eu já internalizado.

Esse arranjo produz um paradoxo clínico. Para continuar funcionando, o sujeito não pode entrar em contato com sua própria exaustão, tristeza ou limite. Ele segue sem parar. Entrega-se. Responde a todas as demandas. Adapta-se. Até que chega a hora em que não consegue mais. É quando o sistema colapsa e, aí, o que emerge muitas vezes tem a forma de uma depressão, mas já em estado bruto, sem qualquer elaboração. Não é a depressão vivida e simbolizada, como no luto e na melancolia (Freud, 1917). É a depressão que foi adiada até se tornar inevitável, até possuí-lo e quebrá-lo em pedaços. A couraça de aço derrete. A produtividade implode. É a queda.

3.

A psicanálise lê esse processo em três níveis fundamentais. No primeiro nível, temos a economia do investimento psíquico. O burnout surge como o colapso de um excesso  que, com Jacques Lacan, chamamos de gozo – e não necessariamente de uma falta. No segundo nível, existe uma dimensão narcísica profunda. O sujeito não apenas trabalha, mas se mede pelo trabalho, pois o eu e a função estão atados em uma fusão patológica (Lasch, 1986). Quando ele falha, não perde apenas desempenho, dinheiro ou produtividade: perde o próprio valor de si.

No terceiro nível, ocorre uma grave falha de simbolização. O sofrimento acumulado não encontra palavras nem espaço para elaboração, e isso leva o sujeito a tocar o barco sem qualquer autopercepção. Ele é empurrado para uma ação contínua e compulsiva até que o sistema explode. O que foi silenciado retorna, então, sob a forma de exaustão ou vazio depressivo, pânico ou angústia.

Autores como Christophe Dejours[iii] mostram que o trabalho não é só fonte de renda. É lugar de reconhecimento e também de sofrimento. Certas formas de organização exigem engajamento subjetivo intenso sem oferecer retorno simbólico suficiente. O resultado não é apenas estresse. É desgaste do próprio sentido (Dejours, 1992).

Há um ponto clínico decisivo sobre o burnout: ele não se resolve apenas reduzindo a carga horária ou descansando. Embora a luta contra a escala 6×1 seja fundamental, ela não é a tábua de salvação para esses casos. Tais medidas de redução do tempo de trabalho podem trazer um alívio momentâneo, mas não transformam a posição do sujeito diante da vida. Se o trabalho ocupa o lugar central de sustentação da identidade, a simples retirada ou redução dessa atividade pode, inclusive, agravar o sentimento de vazio depressivo.

O sujeito sente o “empuxo ao gozo” de continuar trabalhando de forma compulsiva, pois teme não ser ninguém sem essa atividade. Existe um medo profundo de se transformar em resto ou rebotalho caso pare de produzir, já que ele não consegue associar produção a nada que não seja trabalhar e ganhar dinheiro. A clínica mostra que o verdadeiro desafio está em reconstruir o valor do eu para além do fazer, da exploração do trabalho, dos sistemas políticos opressivos (Martín-Baró, 1996).

A questão, então, não é só trabalhar menos, mas deslocar a relação com o trabalho. Isso implica recuperar a capacidade de limite, redistribuir investimentos libidinais, reconhecer perdas e, sobretudo, encontrar outras formas de existência que não dependam exclusivamente da produtividade. Em termos lacanianos, trata-se de atravessar certas identificações ideais e reposicionar o desejo, em vez de apenas responder à exigência de desempenho feita pelo Outro (Lacan, 1964).

Em termos mais simples, o burnout é o preço de se tentar funcionar como máquina sendo humano. Como toda tentativa desse tipo, ela funciona por um tempo, até que não funciona mais. A psicanálise não oferece uma solução rápida nem um manual de desempenho emocional; em vez disso, propõe algo mais incômodo e enriquecedor: um espaço para que o sujeito deixe de apenas se adaptar ao sistema e comece a entender por que precisou funcionar assim até colapsar.

Como doença ocupacional, o burnout é fruto da estrutura socioeconômica do neoliberalismo, que valoriza a produtividade incessante e a autoexploração. Por isso, a cura não se resume a um mero deslocamento subjetivo dentro do consultório. Ela exige também uma transformação sociopolítica desse regime e uma reconfiguração coletiva do ambiente que rompa com a lógica do esgotamento e do louvor ao cansaço.

Em última análise, trata-se menos de um conserto do eu e mais de uma mudança de posição diante da vida que inclua a dimensão macropolítica. No longo prazo, essa costuma ser a única saída que não conduz ao mesmo ponto de ruptura.

*Marcio Sales Saraivaé sociólogo, doutor em Psicossociologia pela UFRJ e psicanalista membro do Corpo Freudiano do Rio de Janeiro.

Referências


APA – American Psychiatric Association. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. Porto Alegre: Artmed, 2014.

BAUMAN, Z. Em busca da política. Rio de Janeiro: Zahar, 2000.

DEJOURS, Christophe. A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. São Paulo: Cortez-Oboré, 1992.

FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer (1920). In: Obras completas, v. 14: Além do princípio do prazer, Psicologia das massas e análise do eu e outros textos. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

FREUD, Sigmund. Luto e melancolia (1917). In: Obras completas, v. 12: Introdução ao narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

FREUDENBERGER, Herbert. Staff burn-out. Journal of Social Issues, [v. 30], n. 1, p. 159-165, 1974. DOI: 10.1111/j.1540-4560.1974.tb00706.x.

HAN, B.-C. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.

LACAN, Jacques. O Seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

LASCH, C. O mínimo eu: sobrevivência psíquica em tempos difíceis. São Paulo: Brasiliense, 1986.

MARCUSE, H. Eros e civilização: uma interpretação filosófica do pensamento de Freud. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1975.

MARTÍN-BARÓ, I. O papel do psicólogo. Estudos de Psicologia, [Campinas], v. 13, n. 1, p. 7-27, 1996.

MASLACH, Christina; JACKSON, S. E. The measurement of experienced burnout. Journal of Organizational Behavior, v. 2, n. 2, p. 99-113, 1981. DOI: 10.1002/job.4030020205.

OMS – Organização Mundial da Saúde. Classificação Internacional de Doenças (CID-11). Genebra: OMS, 2019. Disponível em: https://icd.whobrasil.org/

Notas


[i] Herbert Freudenberger (1926–1999) foi um psicólogo e psicanalista germano-estadunidense que ficou reconhecido por criar o conceito de “Síndrome de Burnout” em 1974. Nascido na Alemanha, ele fugiu do regime nazista e estabeleceu sua carreira em Nova York.

[ii] Christina Maslach é uma psicóloga social estadunidense, professora emérita na Universidade de Berkeley, e a principal responsável por transformar o conceito de Burnout em um campo de pesquisa mensurável. Enquanto Freudenberger descreveu o fenômeno de forma clínica e observacional, Maslach desenvolveu a base teórica e as ferramentas estatísticas para estudá-lo em larga escala, tornando-se mundialmente conhecida nessa área de pesquisa.

[iii] Christophe Dejours é um renomado psiquiatra e psicanalista francês, considerado o pai da psicodinâmica do trabalho nas sociedades neoliberais.

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