Neuroplástico (continuação)

Eu tive um psiquiatra
Que era muito procurado
Na sua sala de espera
Esperava-se um bocado.
E para nos entreter
Nem revista, nem tv
Porém uma única escolha.
Alegando que curava
Sua atendente nos dava
Para estourar plástico-bolha.

Com ânsia os dedos buscavam
Nas paredes da sacola
As bolhas cheias de ar
Aquietando a cachola.
O som seco do estalido
Jurava ter explodido
Sua oficina de achaque.
E a calma em todos baixava
E o médico então ponderava
Diminuir o Prozac.

Carradas de plástico-bolha
De um fabricante chinês
Para abastecer a clínica
Chegavam ali todo mês.
Cada um tinha direito
Dependendo do “defeito”
A uma certa quantidade.
Pra minha amiga Germana
Uns 100 metros por semana
Dada a sua “insanidade”.

Eu fiquei por muito tempo
Na psicoterapia
Mas um ambientalista
Abriu-me os olhos um dia:
_Em terra ou nos oceanos,
demora uns 500 anos
pro plástico se decompor.
_Aves e peixes sedentos,
ingerem os fragmentos
e sucumbem de torpor.

Sem demora comecei
Campanhas ambientais
Para proteger a fauna
Com todos os animais.
E a clínica onde me tratava
Finalmente abandonava
Seu viés degradador.
Sob a chama da candeia
Hoje aplico em minha veia
Sobejas doses de amor.

Martim Assueros, 18/10/2024

 

Imagem: s/d ou identificação do autor

 

Um comentário sobre “Neuroplástico (continuação)”

  1. Maestria no viver. Bom humor e consciência. Nos faz ver que a obra de arte de ser quem somos, depende muito do nosso olhar e intenção. Parabéns!

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