Espíritas de esquerda rompem com maioria conservadora e preparam iniciativa de educação popular

Por Murilo Pajolla

No começo de 2016, o clima de polarização política que levou ao golpe contra a presidenta Dilma Rousseff contaminava, também, as casas espíritas. A apologia à ofensiva conservadora era a regra nos encontros religiosos e discursos públicos feitos por lideranças ligadas à doutrina. 

Sentindo-se isolados, espíritas baianos criaram um pequeno coletivo para reunir adeptos com perfil progressista. Desde então, centenas de membros de todo o Brasil se somaram ao Espíritas à Esquerda.

Neste ano, o grupo pretende passar do discurso à ação, promovendo iniciativas de educação popular inspiradas nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) ligadas à Igreja Católica, espaços que foram cruciais na resistência durante a ditadura militar.

“O Livro dos Espíritos, bem como o anúncio do reino feito por Jesus, são necessariamente transformadores, revolucionários”, afirma um dos fundadores do movimento, Sergio Maurício Pinto, ao citar a obra fundamental à doutrina espírita escrita no século XIX pelo francês Allan Kardec.

“Eles ensinam o tempo todo que o nosso dever é lutar por uma sociedade de justiça social, de igualdade de direitos. Então todo discurso conservador, reacionário, discriminatório, preconceituoso, como nós temos visto dentro desse movimento espírita hegemônico, na verdade, é uma farsa, uma mentira”.

Maurício relembra o silenciamento sobre as questões políticas dentro das casas espíritas. Quando acontecia, as falas eram contrárias às perspectivas progressistas, criando constrangimento para fiéis que não se identificavam com o conservadorismo predominante.

“Havia uma interdição de qualquer discurso progressista, de qualquer discurso que tivesse um viés de esquerda, no sentido de uma luta por justiça social, por novas políticas públicas que pudessem amparar a sociedade. Isso fez que surgissem diversos coletivos. O Espíritas à Esquerda é um dos pioneiros, mas existem outros”, afirma.

Consolidação

Com o processo eleitoral de 2018, a onda reacionária ganhou contornos fascistas, escancarando ainda mais o “racha” no ambiente espírita. Segundo Maurício, os coletivos espíritas de esquerda ganharam ainda mais força, e um encontro nacional do Espíritas à Esquerda em 2019 marcou o início da trajetória ascendente.

“Temos hoje cerca de 500 membros regulares dentro da nossa organização. O nosso alcance hoje na internet é de aproximadamente 20 mil seguidores, somando as nossas redes sociais. E agora temos um site”, conta Maurício, membro da coordenação da entidade.

Atualmente a organização está presente em 17 estados brasileiros e em Portugal. Remando contra a maré, o grupo divulga artigos e reflexões articulando os preceitos espíritas aos principais debates políticos contemporâneos, como o racismo, a desigualdade social, a questão de gênero, a os direitos da comunidade LGBTQI+.

Trabalho de base

Os Espíritas à Esquerda estão buscando uma nova forma de organização social dos adeptos da doutrina. No horizonte próximo, estão os chamados Núcleos Espíritas Populares (NEPs), cuja atuação se dará nas periferias das cidades. As inspirações são o educador e filósofo Paulo Freire e as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs).

“Refletimos que a única forma de mudar a nossa sociedade é por meio da educação popular, por meio do trabalho de base, aquele trabalho que leva a consciência, que produz libertação. Trabalho que auxilia as pessoas que vivem em condições opressivas a se auto libertarem”.

Segundo Maurício, o objetivo é mudar a forma como os espíritas se relacionam com o conjunto da população e, com isso, inspirar iniciativas semelhantes no restante do país. Ainda neste ano, a meta é inaugurar o primeiro CEB em Natal (RN).

“É possível, sim, que o discurso da fé, num novo mundo, seja um discurso libertador. É preciso que o nosso discurso religioso seja um discurso ideologicamente engajado, que diga às pessoas: ‘sim, é possível transformar a sua realidade’”.

Edição: Marina Duarte de Souza

Fonte: Brasil de Fato

 

 

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