Equador: “A direita é derrotada, apesar de seus milhões e sua imprensa”

Lenín Moreno, presidente eleito, durante festejos pela vitória domingo à noite (Foto: jornal El Telégrafo)
Lenín Moreno, presidente eleito, durante festejos pela vitória domingo à noite (Foto: jornal El Telégrafo)

A declaração é do presidente equatoriano Rafael Correa, na noite do domingo, quando os números oficiais já consolidavam a vitória de Lenín Moreno. Enquanto isso, o banqueiro Guillermo Lasso esperneava, com farta repercussão na mídia cúmplice.
De Salvador-Bahia – Falhou no Equador o roteiro batido, rebatido e combinado com os monopólios internacionais da mídia: a chamada Revolução Cidadã, liderada pelo presidente Rafael Correa, conseguiu parar o tufão neoliberal – referido pelo próprio Correa como “restauração conservadora” – que vinha assolando nos últimos anos a América Latina.
O roteiro estava bem ensaiado e já executado com relativo sucesso na Venezuela em 2013, quando da eleição do presidente Nicolás Maduro. É uma narrativa já sedimentada pelas corporações privadas da mídia hegemônica:
1 – Milhares de petardos, repetidos à saciedade, são disparados diariamente pelos variados meios de comunicação de massa, demonizando o governo como “corrupto”, “incompetente”, “ditatorial”, “populista”, que afugenta os investimentos privados, causa desemprego, etc, etc;
2 – Alardeia-se todo dia que a população é contra o governo (agora não é preciso nem mentir, porque já existe a pós-verdade);
3 – A oposição, que adora usar como slogan de campanha eleitoral a promessa de “mudança” (“cambio” em espanhol), com certeza vai ganhar;
4 – Se não ganhar é porque houve fraude;
5 – Daí que a oposição não reconhece a lisura do pleito quando perde;
6 – Denuncia supostas fraudes, mesmo sem indícios à vista, e pede recontagem de votos. Tudo com farta repercussão na imprensa cúmplice e respaldo do império estadunidense;
7 – E parte para protestos e atos de violência, convocando seus simpatizantes às ruas e tentando instalar o caos.
Eis aí o roteiro perfeito adotado nos últimos quatro anos na América Latina.
Como se vê, nesse esquema a ação dos monopólios da mídia é fundamental. Mas se houver a adesão da maioria do Congresso e de setores significativos da Justiça, Ministério Público e Polícia Federal – como ocorreu, por exemplo, no Brasil, a partir da derrota da oposição em 2014 -, poderá se dispensar a parte da violência.
O roteiro perfeito não virou filme
Mas, repito, no Equador, na eleição do domingo, dia 2, o roteiro não virou filme.
Mais ou menos 24 horas depois do desenrolar do escrutínio dos votos (escrevo na noite da segunda-feira, dia 3), a vitória de Lenín Moreno – ex-vice-presidente de Correa nos dois primeiros mandatos, de 2007 a 2013 – está assegurada:
Com 99,33% dos votos totalizados, ele obtinha 51,16% dos votos válidos contra 48,84% dos obtidos pelo banqueiro Guillermo Lasso, conforme números oficiais do Conselho Nacional Eleitoral (CNE).
No primeiro turno, o governo já tinha conseguido ampla maioria na Assembleia Nacional. E ganho também o plebiscito proibindo que dirigentes políticos tenham dinheiro em paraísos fiscais.
Dou um lance expressivo para dar mais vida ao roteiro geral acima:
Lasso teve a cara de pau de se declarar vencedor logo que foi encerrado o processo de votação, usando a desculpa duma pesquisa de boca de urna, feita pela empresa Perfiles de Opinión, que lhe dava 4 pontos de frente.
Chegou ao desplante de anunciar algumas medidas que adotaria à frente do governo. E convocava seus partidários às ruas para garantir tal “vitória”.
Desconhecia totalmente uma outra pesquisa anunciada, também de boca de urna, esta feita pela empresa Cedatos, que previa a vitória de Moreno com uma vantagem de 5 pontos.
Enfim, por volta das 20 horas (horário local, 22 horas no Brasil), os números oficiais divulgados pelo CNE foram consolidando a vitória de Moreno por uma frente de pouco mais de 2 pontos.
Houve alguns atos de violência nas ruas, mas, segundo o noticiário, sem proporções que chegassem a preocupar. O governo anunciou que quatro policiais ficaram feridos.
Lá pelas 23 horas (horário do Brasil) do domingo em diante, enquanto Lasso persistia nos seus intentos temerários de virar a mesa, Correa, Moreno e Jorge Glas (vice-presidente reeleito) cantavam e festejavam com milhares de partidários nas ruas de Quito.
Observação: Lenín Moreno usa cadeira de rodas, é paraplégico. Foi baleado durante um assalto.

Deixe uma resposta