Homilia do Papa Francisco, na missa celebrada na visita pastoral a Carpi

Dia 02.04.2017

As leituras de hoje nos falam do Deus da Vida, que vence a morte. Detenhamo-nos, em particular, no último dos seis sinais miraculosos que Jesus realiza, antes de Sua Páscoa, junto ao túmulo do seu amigo Lázaro. Aí tudo parece acabado: o túmulo se acha fechado com um uma grande pedra. Em volta, só choro e desolação. Inclusive Jesus se achava abalado pelo mistéro dramático da perda de uma pessoa querida: “Ele ficou profundamente comovido e muito conturbado. Depois, desabou no choro e foi ao túmulo, diz o Evangelho, “ainda profundamente comovido”. Este é o coração de Deus: distante do mal, mas próximo de quem sofre. Não faz desaparecer o mal, com uma mágica, mas se com-padece, compartilha o sofrimento, torna Seu o sofrimento dos outros, e vivendo-o, o transforma.

Mas, notemos que, em meio ao pranto geral pela morte de Lázaro, Jesus não se deixa levar pela desesperança. Mesmo sofrendo, Ele pede que se creia firmemente. Ele não se fecha no pranto, mas, mesmo comovido, põe-se a caminho em direção ao sepulcro. Não se deixa fazer refém daquela ambiência de comoção que o cerca, mas ora com confiança e diz: “Pai, Eu Te dou graças.” Assim, no mistério do sofrimento, diante do qual o pensamento se debate como mosca no vidro, Jesus nos oferece o exemplo de como nos comportar: não foge do sofrimento que faz parte desata vida, mas não se deixa aprisionar pelo pessimismo.

Assim, em volta daquele túmulo, acontece um grande encontro-desencontro. De um lado, há uma grande decepção: a precariedade de nossa vida mortal que, atravessada pelo sofrimento em razão da morte, muitas vezes experimenta a derrota, uma escuridão interior que parece invencível. Nossa alma, criada para a vida, sofre sentindo que sua sede eterno bem é sufocado por uma mal antigo obscuro. Por outro lado, há esta derrota do sepulcro. Por outro lado, há a esperança que vence a morte e o mal, que tem um nome: a esperança se chama Jesus. Ele não traz um pouco de bem-estar ou algum remédio para prolongar a vida, mas proclama: “Eu sou a ressurreição e vida. Quem crer em Mim, ainda que esteja morto, viverá.” Por isto, diz, de forma decidida: “Removam a pedra!” E, em alta voz, grita em direção a Lázaro: “Venha para fora!”

Caros irmãos e irmãs, também nós somos convidados a decidir de que lado ficar. Pode-se estar do lado do sepulcro ou do lado de Jesus. Há quem se deixa enclausurar na tristeza, e quem se abre à esperança. Há quem fica preso nos entulhos da vida, e quem, como vocês, com a ajuda de Deus, remove os entulhos e reconstrói, com paciente esperança. Diante dos grandes “porquês” da vida, temos dois caminhos: ficar olhando melancolicamente os sepulcros de ontem e de hoje ou trazer Jesus para perto de nosso sepulcro. Sim, porque cada qual de nós já tem um pequeno sepulcro, alguma zona um pouco morta no coração: um rancor que não dá trégua, um remorso que vem, de vez em quando, um pecado que não se consegue superar. Individualizemos hoje esses nossos pequenos sepulcros, que temos dentro de nós, e aí convidemos Jesus. É estranho, mas por vezes, preferimos ficar sozinhos nas grutas escuras que abrimos dentro de nós, em vez de confiarmos a Jesus até aí. Somos tentados a procurar sempre a nós mesmos, ruminando e aprofundando o sofrimento, magoando as feridas, em vez de irmos em busca dEle, que diz: “Venham a Mim, vocês que estão cansados e oprimidos, e Eu lhes darei repouso.” Não nos deixemos aprisionar pela tentação de permanecermos sozinhos e sem confiança, a lamentarmos desconsolados por aquilo que nos acontece. Nâo cedamos à lógica inútil e imobilizadora do medo, a repetirmos que tudo vai mal e que nada é mais como antes. Esta é a atmosfera do sepulcro. O Senhor, ao contrário, deseja abrir o caminho da vida, o do encontro com Ele, o da confiança nEle, o caminho do “Levante-se! Levante-se, venha para fora!”. É isto que o Senhor nos pede, e Ele está ao nosso lado para fazer isto.

Então, voltamos para nós mesmos, escutemos as palavras de Jesus a Lázaro: ”Venha para fora!”; saia do enclausuramento da tristeza sem esperança; desate as amarras do medo que obstaculizam o caminho; os laços das fraquezas e das inquietações que o bloqueiam, repita que Deus desata os nós. Seguindo a Jesus, aprendamos a não atar as nossas vidas aos problemas que se agravam: sempre haverá problemas, sempre, e quando resolvemos um deles, aí surge um outro. Porém podemos encontrar uma nova estabilidade, e esta estabilidade é o próprio Jesus, esta estabilidade chama-se Jesus, que é a ressurreição e a vida: com ele a alegria habita o coração, a esperança renasce, a dor se transforma em paz, o temor em confiança, a provação em oferta de amor. E mesmo que se não faltem os fardos, sí estará sempre Sua mão a levantarmos, a sua palavra que nos encoraja e diz a todos nós, a cada um de nós: “Saia daí!Venha até mim!”. Ele diz a todos nós: “Não tenham medo!”. Também a nós, hoje como àquela época, Jesus diz: “Removam a pedra!” Por mais pesado que seja o passado, por maior que seja o pecado, por forte que seja a vergonha, nunca atrapalhemos a entrada do Senhor. Diante dEle, removamos a pedra que impede que Ele entre. Este é o tempo favorável para removermos nosso pecado, nosso apego às vaidades mundanas, o orgulho que nos bloqueia a alma, muitas inimizades entre nós, nas famílias… Este é o momento favorável para removermos todas estas coisas.

Visitados e libertados por Jesus, peçamos a graça de sermos testemunhas de vida neste mundo, que dela tem sede; testemunhas que suscitam e ressuscitam a esperança de Deus nos corações cansados e sobrecarregados pela tristeza. Nosso anúncio é a alegria do Senhor vivente, que ainda hoje diz, como o fez a Ezequiel: “Eis que abro o sepulcro de vocês, e os faço sair do seu túmulo, ó meu povo!”

https://www.youtube.com/watch?v=OhNV7V4_5AU
(Do minuto -0:01 ao minuto 12:38)
Trad.: AJFC

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