Todas as pessoas necessitam de um lugar. Esse lugar pode ser dentro de um livro. Pode ser nas páginas de um livro. Podem ser as páginas de um livro.
Ontem e hoje, e outros dias também, tenho me visto dentro de um livro. Uma silhueta de homem, recortada, no interior de um livro. As páginas deixando um oco para dentro, com a silhueta de um homem que sou eu.
Esta imagem tem me trazido muito conforto. Ainda me traz, pois sinto que esse é o meu lugar. Ali sou eu mesmo. Escrevo, leio, e esse é o meu lugar, o lugar da leitura e da escrita. O lugar que se faz quando a gente escreve, e estamos sempre escrevendo.
Estamos sempre lendo, nos lendo, lendo o mundo à nossa volta e a nós mesmos na escrita do mundo. Esta é uma das coisas que mais me impressiona em Paulo Freire. Que tenha percebido e dito isto.
E que outros escritores e escritoras, bem como certas pessoas chave na minha vida, como a minha mãe, tenham ido me abrindo as portas desse mundo que me contém, que contém tudo que existe, uma vez que a realidade é mais real, e eu me reconheço mais o ser que eu sou, nos livros do que do lado de cá.
Isto é: na verdade é um vaivém, um ir e vir, das folhas para a vida cotidiana, e do aqui e agora, para esse livro aberto que me contém, que te contém, que contém tudo que existe.
Foto: Julio Cortázar

Sociólogo, Terapeuta Comunitário, escritor. Vários dos meus livros estão disponíveis on line gratuitamente: https://consciencia.net/mis-libros-on-line-meus-livros/
