Aprendendo

Ter este espaço para vir a tona nestes tempos (e em qualquer tempo) é um recurso em saúde de extremo valor. Poder partilhar os sentimentos, o que vamos experimentando, coisas que nos alegram ou nos preocupam, é uma necessidade básica e elementar.

Tenho experimentado ao longo do tempo, que escrever é uma ação de efeitos benéficos sempre renovados. Fica mais claro o que estamos pensando e sentindo, como vemos o mundo, o que queremos e o que não queremos. A nossa história de vida, o nosso estar aqui e agora, vão ganhando contornos precisos.

O fato de encontrarmos um tempo para falar de nós mesmos, nós mesmas, é de per si um ato de amor. Um acolhimento. O mesmo acontece quanto ao ato de ler. É necessário que tenhamos momentos para fazer o que gostamos, o que nos faz bem. Uma cultura centrada no desempenho e nos resultados, tende a depreciar o tempo livre.

A pessoa aposentada parece que já não serve para mais nada. Apenas dá trabalho. Esta é uma maneira aberrante e absurda de encarar a vida. Quem trabalhou a vida inteira merece viver até o último suspiro com dignidade, rodeada de afeto e cuidados. O encontro com a página é uma oportunidade para tomarmos mais consciência de nós mesmos, nós mesmas.

Lembro de quando eu dava aulas na Escola de Sociologia e Politica de São Paulo. Exortava aos meus alunos e alunas a que escrevessem sobre si mesmxs. Eu mesmo comecei a levar um diário naquela época. Nunca mais parei. Tornou-se uma experiência libertadora de primeira ordem.

Descobri que tinha todo um mundo para mim. Percebi que precisava e continuo a precisar, como algo de muito precioso, desses momentos de pôr alguma coisa no papel. Neste tempo de confinamento obrigatório, como muitas outras pessoas, tive e continuo a ter um tempo maior para prestar atenção a mim mesmo.

A minha trajetória de vida. Medos e sentimentos de abandono e exclusão. Muitas pessoas experimentam sentimentos parecidos. Migrantes, pessoas sozinhas, gente que sofreu abusos na infância ou depois. Descobri o quanto o sentimento nos aproxima, cria uma liga, nos une mesmo. Penso que provavelmente algumas das marcas que ficaram em mim continuarão a doer.

Já tive a expectativa de vir a não ter marcas dessa natureza. Não consegui. Provavelmente o que ocorra é o que está acontecendo. Vejo o que ganhei com aquelas dores. O que é que aprendi com as situações que me forçaram a me ausentar de mim mesmo, a sair de mim. Voltei-me decididamente para o acolhimento de pessoas excluídas.

Ganhei uma dedicação ainda mais intensa e eficiente para o fenômeno da criação artística. A minha fé e os meus afetos, a minha família e a minha comunidade se tornaram esferas ainda mais reais e concretas. Penso que no balanço de perdas e ganhos, mais foi o que ganhei em termos de competência sanadora e ativa, do que possa ter perdido.

O tempo vêm se compactando cada vez mais. O meu dia a dia reúne cada vez mais a totalidade do meu aprendizado de vida. Os papéis que exercitei e continuo a exercitar, continuam a ser cada vez mais uma única confluência caleidoscópica. O meu afazer literário é o que mais me restitui na escrita da vida.

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