Virgínio, Sem ou Com_Domínio?

Montagem a partir do Google

Segurança…, mas o que é mesmo essa tal “segurança” de que tanto se fala nos dias de hoje? Existe segurança? Há um lugar onde possamos nos sentir realmente seguros?…

A respeito deste assunto, tenho pensado bastante nestes últimos tempos e me perguntado: Será que existe, de fato, um lugar realmente seguro? Um lugar de tranquilidade, calma, despreocupação? Para uma amiga minha, este lugar existe: é o túmulo, onde tudo fica parado, calmo, quieto, silencioso… Não! Deus que me livre! Prefiro pensar noutras possibilidades, pensar na vida mesmo, com todos os seus percalços, perigos e tormentas. Lembro-me então das palavras de Riobaldo, personagem do famoso romance “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, para quem Viver é muito perigoso… Porque aprender a viver é que é o viver mesmo… Travessia perigosa, mas é a da vida. Isso! Isso mesmo! A vida, do início ao fim, é perigo constante, é a corda bamba onde tentamos nos equilibrar. A verdade verdadeira é que vivemos por um fio… E agora, para onde correr? Onde se esconder? Se o perigo é condição inerente ao viver, ou se vive perigosamente, ou se morre de medo e angústia antes do tempo. “Viver ou morrer: eis a questão.”

Há quem pense bem diferente a respeito deste assunto segurança, trata-se do meu amigo e ex-aluno Virgínio. A solução que considera ideal, infalível e eficaz é morar num condomínio. Simples assim. Para ele não existe outra possibilidade, não adianta nem tentar se esconder no fundo de uma caverna ou no topo de uma montanha; quem estiver fora de um condomínio, estará realmente perdido, sem segurança nenhuma. Cada vez que me encontra, repete a mesma pergunta: “E aí, professora, já comprou sua casa num condomínio?” Percebo sua decepção quando respondo que não, que não pretendo morar nestas “fortalezas modernas”. Mas ele não desiste e insiste cada vez mais, usando todos os seus argumentos, a fim de me convencer. Diz que hoje vivem todos de portas fechadas, e que isto não é vida para ninguém. Grades e cadeados por todos os lugares: nas casas, nos apartamentos, inclusive nas igrejas, onde se fecham a sete chaves até mesmo os sacrários.

Fico na dúvida se tanta insistência é porque realmente se preocupa comigo; ou se é apenas para vender mais uma de suas casas, uma vez que Virgínio é corretor de imóveis. Sinto-me melhor pensando que seja pelos dois motivos. Mas o fato é que o meu querido amigo e ex-aluno vive a me repetir o tempo todo o quanto é importante morar num condomínio, e não acredita que eu possa viver tranquila, sendo exposta no dia a dia a tantos e tantos perigos. Fica até muito nervoso quando lhe digo que pretendo viver longe de cercas e muros, no meio do povo, numa casa de portas abertas a todos. “Até para o ladrão?” Sim! Até para o ladrão, ele é meu irmão e, caso não me tire a vida, pode sentar-se à mesa, tomar um cafezinho e depois levar o que quiser, escolhendo tudo com muita calma. “Não! Isto não existe! Que maluquice é esta, professora? Isto é pura utopia!”

Utopia ou não, deixem-me acreditar – e sonhar – com um mundo novo, onde ninguém tenha medo de ninguém. Um mundo em que todos sejam irmãos e se comportem como tal, uma grande família, vivendo sem medo de ser feliz, olhando no olho do outro e enxergando-o como irmão. Um lugar onde possamos viver livres, leves e soltos, afinal de contas o Criador já nos deu as duas coisas mais importantes: a vida e a liberdade. A tarefa do “existir” compete a cada um de nós, conforme já dizia o filósofo dinamarquês Kierkegaard. Portanto, vivamos a nossa existência da melhor maneira possível, e se alguém se sente bem e feliz morando desta ou de outra maneira, que assim o faça. Compete a cada um de nós escolher entre a estrada principal ou os atalhos periféricos, e serão estas escolhas que irão definindo o rumo da nossa história. Nestes caminhos incertos, já nos dizia Cora Coralina, o mais importante é o decidir. Serva da vida que sou, decidi viver e existir livremente.

No entanto, diante das insistências de Virgínio, comecei a prestar mais atenção à realidade da nossa região e fiz vários e vários passeios pelas redondezas. Percebi que aqueles lugares tão bucólicos, antes tão cheios de vida e repletos de verde, lugares onde podíamos passear tranquilamente, hoje estão cercados, irremediavelmente isolados com muros e muros por todos os lados, inclusive com altas cercas elétricas. Lamentável não poder mais andar livremente em minha própria terra, principalmente nos lugares mais bonitos; a não ser que compre uma bendita casa. E mesmo se quisesse comprar essa tal casa, nesse bendito lugar, quem disse que o meu salário de professora aposentada daria para tal monta?

Na verdade, tive a oportunidade de visitar uns dois ou três destes “maravilhosos” condomínios de que tanto meu amigo falava. Confesso que só pude entrar nesses espaços porque o próprio Virgínio ia conseguindo a liberação, depois de muita burocracia, vale salientar. Quando entrávamos nesses lugares, parecíamos estar em outro mundo, Virgínio ficava totalmente deslumbrado e me perguntava a todo instante. Está gostando, professora? Não é mesmo um lugar encantado? Não parece mesmo um sonho? Dando o silêncio como resposta, confabulava comigo mesma: realmente, trata-se de um mundo à parte. Tudo muito lindo, limpo e arrumando, muitas flores e muito verde, água em abundância, piscinas e cascatas, jardins e quadras esportivas, áreas de lazer por toda parte. Um grande sonho de consumo, não resta dúvida. Porém, quanto mais eu olhava para aquelas mansões, jardins, cercas e portarias, mais e mais ia me lembrando dos grandes castelos e fortalezas medievais e me perguntava intrigada: Quem são realmente os livres?… Quem são os escravos?… Os seres lá de fora? Os daqui de dentro? Há de se admitir que, aparentemente, as coisas mudaram e muito; mas na realidade, no fundo, no fundo, “Tudo continua como dantes no quartel de Abrantes.” Das pontes levadiças da Idade Média, às portarias dos condomínios atuais, há uma longa travessia no tempo, com mudanças de formas e fórmulas; permanece, no entanto, o mesmo conteúdo de um fosso profundo entre os que estão fora ou dentro dos muros. Falo, então, ao querido Virgínio que, se a questão é de vida ou de morte, desejo viver e morrer fora dos muros. Uma gaiola, mesmo de ouro, não deixa de ser uma gaiola!

Pery-Açu

Peregrina da Esperança

Bananeiras-PB, 22 de maio de 2022

Vera Periassu – poeta, cordelista e educadora popular
veraperiassu@gmail.com

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