Uma primeira ressonância sobre a X Semana Teológica Pe. José Comblin

Teve lugar (por meio virtual, por conta da atual pandemia) a Sessão de Encerramento da X Semana Teológica Pe. José Comblin (X STPJC). Nas linhas que seguem, cuidaremos de lançar um primeiro olhar acerca de como foi organizada e como se deu esta X STPJC, em especial sua Sessão de Encerramento, realizada no dia 3 de outubro de 2020. Iniciamos pelos passos dados na realização das Jornadas comunitárias  (transformadas, por conta da pandemia, em noites comunitárias). Em seguida, tratamos de trazer uma primeira ressonância acerca da sessão de encerramento.

Por fim, ousamos propor alguns passos aos seus organizadores e organizadoras, não apenas com um intuito avaliativo, mas também com um propósito prospectivo, que nos permita dar prosseguimento, no chão de nosso dia a dia, em relação ao enfrentamento dos atuais desafios, em especial o das Profundas desigualdades de gênero que seguem reinando, na Igreja Católica Romana e em outras igrejas, como também no dia a dia das macrorrelações sociais.

Como nas precedentes STPJC também nesta 10ª edição, reuniram-se virtualmente representantes dos distintos grupos corresponsáveis pela sua organização. Assim, foram realizadas as Noites Comunitárias de modo virtual com a participação de uma dezena de componentes da organização geral, dentre os quais: representantes do kairós, do CEBI, da Escola de Formação missionária de Santa Fé, da CPT, do coletivo feminista, do grupo José Comblin, do MTC. Foram realizadas três noites comunitárias, além de uma última, em busca de conferir e ultimar os preparativos para a sessão de encerramento, prevista e realizada no dia 3 de outubro das 9 horas às 12 horas.

 

Dinâmica das Noites Comunitárias

Constaram das noites comunitárias, além da definição do tema central da X STPJC – “por que e para que uma teologia feminista? ” -, também o empenho na produção de textos e pequenos vídeos, que circularam e continuam disponíveis no site Teologia Nordeste (cf. https://www.teologianordeste.net/). Desses textos, individuais e coletivo (este último de autoria de quatro das mulheres participantes das noites comunitárias) também constou um texto, em nome das equipes organizadoras, sublinhando a importância da realização, ainda que de modo virtual, da 10ª edição da STPJC a partir do tema principal, incluindo seus objetivos, uma breve memória do Pe. José Comblin, e das semanas precedentes, além de algumas questões sobre os textos trabalhados. Tratou-se, em verdade, de momentos candentes de uma vivência, de um debate caloroso.

Um dos frutos destas Noites Comunitárias já se experimentou, durante este mesmo espaço, a medida que despertou nas participantes o empenho em refletir, a partir de suas próprias experiências, os desafios enfrentados pelas mulheres, em seu dia a dia. Experiência que, além da própria produção individual e coletiva desses textos, acarretou discussões teórico-práticas instigantes, o que se pode verificar, relendo estes textos de autoria feminista, acessando o site teologia Nordeste.

Um outro aspecto que marcou as vivências destas Noites Comunitárias diz respeito ao incentivo à produção de curtos vídeos, a partir do tema central desta X STPJC.

 

Retalhos memoráveis da sessão de encerramento

Como havia sido amplamente divulgada, a X STPJC culminou na sessão de encerramento, realizada na manhã do dia 3 de outubro de 2020. As coordenações dos trabalhos, coube à Teóloga Elinaide Carvalho, que também abriu a sessão. De acordo com a programação, a Sessão seguiu com a Mística de abertura, protagonizada por um grupo de mulheres participantes da organização da STPJC. Esta Mística, constante de cantos e poemas feministas, de uma leitura adaptada do Êxodo. Todos profundamente conectados com a memória, as dores, os sofrimentos, as esperanças e as lutas das mulheres, na defesa e na promoção dos seus direitos. Palavras e cantos que expressaram, de modo denso, os clamores das mulheres, em luta pelo respeito e pelo protagonismo, pela condição de sujeitos históricos e eclesiais.

Ao final da Mística, Elinaide Carvalho retoma a coordenação, convida o Pe. Hermínio Canova para um breve relato da memória das STPJC anteriores. Pe. Hermínio, saudando Ivone Gebara, põem-se a rememorar fatos e episódios relevantes da caminhada da Igreja na Base, desde os anos 70. Relembra a densa atuação de Ivone Gebara no Nordeste, por 34 anos, desde quando integrava a Equipe de assessoria de Dom Hélder Câmara, juntamente com Pe. Humberto Plumen, Sebastião Armando, Eduardo Hoornaert, por meio do DEPA (Departamento de Pesquisa e Assessoria). Destaca ainda, em sua memória, os tempos proféticos vividos por vários grupos e pastorais, tais como as CEBs, os Encontros de Irmãos, as PCIs, a CPT, o CEBI, entre outros. Com emoção, Pe. Hermínio expressava a vitalidade desta Igreja na Base, tão animada pelo Pe. José Comblin, sempre presente e atuante nestas e noutras iniciativas que inspirou, a exemplo do Seminário Rural, do Centro de Formação Missionária, das Escolas de Formação Missionária, espalhadas pelo Nordeste. Lembra, por último, da realização anual das STPJC, cuja primeira edição foi realizada em 2011, ano da páscoa do Pe. José Comblin. As STPJC protagonizadas por um conjunto de grupos (Kairós, Centro de Espiritualidade Hélder Câmara, CEBI, MTC, Grupo José Comblin, Grupo Igreja dos Pobres, entre outros), trabalharam diversos temas: Memória e Legado de Comblin, o Espírito Santo e a Tradição de Jesus (título do livro póstumo de José Comblin), Protagonismo dos Jovens, Migrações, Medellín e Puebla, desafíos socioambientais, entre outros. Em todas essas TPJC contamos com densa colaboração de convidados e convidadas, especialmente nas sessões de encerramento. Dentre estes convidados e convidadas, convém rememorar as figuras de Eduardo Hoornaert, Mônica Muggler, Pe. Josenildo Lima, Pe. Luis Carlos Susin, Pe. Agenor Brighenti, Pastor Luciano Batista de Souza, Pastor Paulo Cézar Pereira, Dom Sebastião Armando Gameleira, Alzirinha Souza, Pe. Francisco Aquino Júnior, Elinaide Carvalho, entre outras.

Em seguida, Elinaide Carvalho, com o precioso apoio de Carmelo, na técnica digital, convida a todos e todas a apreciarem três curtos vídeos, trazendo as experiências relatadas por três mulheres (Ir. Rose Bertoldo, Isabel Félix, e Ir. Silvia Rodrigues), refletindo sobre seus trabalhos e suas experiências em grupos de mulheres, seja na Amazônia, seja no âmbito das lutas das católicas pelo direito de decidir, seja no campo da Terapia Comunitária Integrativa.

 

Pontos axiais focados por Ivone Gebara, em sua reflexão sobre o tema da sessão de encerramento da X STPJC

Ainda sobre a coordenação de Elinaide Carvalho, a quem também coube uma apresentação de Ivone Gebara, esta iniciou agradecendo as múltiplas referências a ela feitas tanto na apresentação de Elinaide, quanto pelo padre Hermínio Canova. Fez questão de sublinhar seus 34 anos vividos no Nordeste, inclusive sua aproximação e seu acompanhamento do grupo Chimalmans, de jovens teólogas, do qual faziam parte algumas das organizadoras desta X STPJC, sendo o caso da própria Elinaide Carvalho, e de irmã Rose Bertoldo.

Em seguida, Ivone tratou de propor 4 pontos em torno dos quais giraria sua reflexão: a metáfora Corpo/Fé e Roupa/Teologia, aliança entre a cruz e a espada, Teologia no chão do cotidiano e a Vida Como Referência Maior. Tendo sempre presente o tema daquela sessão, ” Para que e para quem uma teologia feminista?” acentuou diferentes aspectos do fazer teológico ao interno da igreja católica e de outras igrejas cristãs, quase sempre monopolizado por homens, em sua maioria, pouco sensíveis à participação das mulheres como produtoras também de conhecimento teológico. Tanto Ivone quanto membros do grupo de jovens teólogas fizeram referência ao grande incômodo que aquelas estudantes cursando teologia, no seminário católico de João Pessoa, causavam aos seminaristas e professores, eles perguntavam para quê mulher fazer teologia. Não se tratava, contudo, de uma posição exclusiva daqueles seminaristas, mas expressava o olhar predominante de teólogos e membros da hierarquia uma postura de quem se sentia incomodado com a possibilidade de compartilhar estudos e produção de teologia por sujeitos femininos. Postura que datava de muitos séculos e que nem as inovações do Concílio Vaticano II conseguiram superar.

Tratou, então, de ilustrar tal posição, recorrendo a vários episódios da história da igreja, inclusive citando as místicas da idade média, entre as quais Marguerite Porète, nascida em 1250, e condenada à fogueira pela inquisição, em 1310.

Androcentrismo Eclesiástico atravessou séculos, até hoje, inclusive em tempos do Papa Francisco, que não tem demonstrado simpatia pela causa feminista. Eis porque assume importância em sua fala, a metáfora corpo/fé e roupa/teologia, isto é, foi institucionalizada indevidamente a identificação entre fé e teologia, em detrimento do protagonismo teológico das mulheres. Estas não cessam de reagir à esta “roupa” costurado pelos clérigos, que já não lhes diz respeito.

O segundo ponto destacado por Ivone nos remete à conhecida aliança entre o trono e o altar, entre a cruz e a espada, conforme pesquisas e estudos realizados inclusive por Eduardo Hoornaert, um dos coordenadores da CEHILA/Brasil. O conluio entre o poder eclesiástico e o poder secular não é algo recente, vem de séculos, expressando a consagração de um poder imperial, secular ou religioso.

Um terceiro aspecto destacado por Ivone Gebara em torno do tema, e que entendia portador de um potencial transformador deste estado de coisas, tem a ver com o trabalho de teólogas, a partir das relações do cotidiano. Com efeito, o cotidiano é impregnado de situações concretas, diante das quais a vida fala mais alto, enquanto as doutrinas passam a ter quase nenhum significado decisivo. É, pois, nas relações concretas, no chão do dia a dia, que as mulheres e também as teólogas feministas encontram suporte teórico-prática mais apropriado, para um combate eficaz, também na produção da teologia feminista. Situações concretas, por exemplo, como as enfrentados por crianças e adolescentes, vítimas de estupro, do qual decorre também engravidamento, como sucedeu ainda recentemente aquela criança levada a um hospital do Recife, e sobre quem pesou a dureza de coração de bispos e de outros integrantes da igreja católica e de outras igrejas. As relações do cotidiano se acham impregnadas de uma força vital capaz de encorajar as mulheres, inclusive as teólogas feministas, a ousarem denunciar e anunciar, sempre fiéis aos apelos da vida, até porque a vida constitui o valor maior. Mesmo diante da Bíblia, as teólogas feministas não cessam de entendê-la, não como “a” palavra única, antes, entendendo ser a vida a palavra maior, sendo sua principal referência, até porque, ao longo da história do cristianismo, as páginas da Bíblia e sua interpretação tem tido o monopólio de uma hermenêutica androcêntrica. Daí a importância , para as teólogas feministas, de exercitarem continuamente a hermenêutica, como um instrumento valioso de leitura e releitura da Bíblia e de outros textos sagrados.

 

Que ensinamentos podemos recolher da vivência desta décima edição da semana teológica Padre José comblin?

Durante estes meses de agosto setembro e outubro, as organizadoras e organizadores desta X STPJC, se tem empenhado na construção de condições que favoreçam uma reflexão e uma ação mais diretas quanto ao tema escolhido – porquê e para quê uma teologia feminista ? desde os primeiros encontros virtuais, fomos impactados pela densidade e atualidade desta questão, principalmente graças ao protagonismo das e dos participantes do processo organizativo fomos positivamente surpreendidos com com a profundidade das questões levantadas, do quê resultaram textos instigantes produzidos pelas participantes, individual e coletivamente, e compartilhados no site teologia Nordeste, despertando um interesse marcante, não só dos membros dos grupos organizadores desta décima edição da STPJC, como também da parte de leitores e leitoras que visitaram o referido site. As noites comunitárias ainda despertaram o interesse e o compromisso de algumas das participantes, na produção de pequenos vídeos, inclusive dos que foram compartilhados na sessão de encerramento, de autoria de irmã Rose Bertoldo, de Isabel feliz e irmã Silvia Rodrigues.

Textos e vídeos que nos têm ajudado a aprofundar diferentes ângulos da questão, seja em ambientes marcados mais diretamente pela questão socioambiental, das mulheres indígenas, seja no plano das protagonistas do Equilíbrio do Ser, iniciativa assumida por aquelas mulheres que lidam com a Terapia Comunitária Integrativa, seja ainda pelos embates teórico-práticos enfrentados pelas mulheres membros da Católicas pelo Direito de decidir. Os textos produzidos, por sua vez, nos instigam a um constante aprofundamento de distintos aspectos relacionados à teologia feminista, protagonizada por mulheres e, no caso, participantes da Escola de Formação Missionária de Santa Fé.

Da sessão de encerramento e, especialmente da reflexão problematizadora compartilhada por Ivone Gebara, nos fortalece o sentimento do compromisso de consolidar os grupos e coletivos feministas, bem como implicando o compromisso também dos homens, no sentido de levarem adiante e mais a fundo seu compromisso com a causa emancipadora assumida pelas mulheres, no contexto das relações sociais de gênero, dentro e fora dos espaços eclesiais.

A memória trazida pelo padre Hermínio Canova, relativa à caminhada de meio século da igreja na base, no nordeste, protagonizada por diferentes grupos, comunidades e pastorais sociais –  as CEBs, as CPIs, Os encontros de irmãos, a CPT, entre outras-, nos fortalece o compromisso de seguir adiante, na luta e na esperança de um enfrentamento exitoso dos atuais desafios sócio-eclesiais.

Há de se sublinhar a disposição, por várias vezes expressa, tanto nas noites comunitárias, quanto em outros espaços, de fortalecer os coletivos feministas, nos espaços sócio eclesiais de que participamos, num sentido não apenas do exercício da crítica, mas também da formulação de iniciativas com potencial transformador, com propósitos de alternatividade aos valores dominantes, tanto nas igrejas quanto nas macro relações sociais.

 

Pessoa, 10 de outubro de 2020

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