Um só Rebanho, Um só Pastor, Jo 10-16

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Elas (as ovelhas) ouvirão a minha voz,
e haverá um só rebanho e um só Pastor.”

As palavras REBANHO e PASTOR são mencionadas várias vezes na Sagrada Escritura. Do Primeiro ao Segundo Testamento, há citações a esse respeito. Muitos textos são referentes à vida no campo, às lavouras, às sementes, aos roçados e terrenos, aos rebanhos e pastores. Inclusive o anúncio da chegada do Messias Jesus é feito aos pastores nos arredores de Belém. O próprio Mestre convive com essas realidades e, em seus discursos e parábolas, está sempre fazendo referência à vida simples dos agricultores, pastores e pescadores. Em uma de suas falas, chega a afirmar: “Eu sou o Bom Pastor, o bom pastor dá a vida por suas ovelhas” (Jo 10, 11).

Se tomarmos a palavra pastor, literalmente, estaremos nos referindo ao indivíduo que cuida (vigia) os animais no pasto, ou seja, pastoreia um rebanho; num sentido mais figurado e transcendente, falaremos de um guia espiritual, de alguém que cuida e zela para que as pessoas não se desviem do caminho do bem, da verdade e da justiça. Neste sentido, as pessoas também são associadas a um rebanho, cujo guia é um Pastor.

Biblicamente falando, os seguidores de Jesus Cristo, o Bom Pastor, são comparados a um rebanho de ovelhas – ovelhas e não cabritos. Mas, por que “ovelhas”?… A partir daí, surge uma série de indagações: Por que será que o rebanho é de ovelhas, e não de cabritos?… Para que Jesus pede a Pedro que “apascente” suas ovelhas, as quais conhece pelo nome? Por que não basta apenas “pastorear”? Por que este rebanho, tão querido por Deus, não é uma “manada”, ou um “gado” qualquer?…

Quando se segue algo ou alguém (na política, nas redes sociais, e mesmo na religião) sem conhecimento de causa, por uma influência ou propaganda qualquer, sem refletir, sem pensar, enlouquecida e apaixonadamente, corre-se o risco do fanatismo. O fanatismo, verdadeira idolatria, já levou a muitas guerras e conflitos, a muito ódio e violência. Neste caso, pode-se agir como “gado”, “embarcando em canoas furadas”, “mergulhando de cabeça” em situações extremamente perigosas, pois não se reflete, não se investiga nada, não se aprofunda nenhuma ideia, passando a se associar a outros que também não pensam. Aí está o perigo das “massas”, gerando um efeito “manada”, ou seja, multidões alienadas, vulneráveis a todo tipo de enrolação, fragilizadas diante das falsas notícias (fake news) e de todo tipo de mentira. Esta alienação da consciência, este “entorpecimento” deixa a pessoa fora de si, como uma droga que é ingerida dia após dia. Isto vai gerando a perda da singularidade, melhor dizendo, vai-se perdendo o que se tem de melhor, a própria identidade. Esta é a vida de “gado”: o estar fora de si mesmo, alheio à própria vida, contentando-se com um mundo de falsas aparências, ilusões e superficialidade, conforme canta Zé Ramalho: “Ê, ê, ô, vida de gado, povo marcado ê, povo feliz.”

Felizmente, JESUS CRISTO nunca precisou de “fanáticos”; precisa de SEGUIDORES. Nunca chamou alguém para ser escravo, alienado, subserviente, submisso, chama para ser AMIGO, servidor, fraterno, solidário, IRMÃO e colaborador na Causa do Reino de Deus, cujo Projeto é de Vida Digna, Amor Fraterno, Justiça e Paz para todos. Um verdadeiro Seguidor de Jesus Cristo não se reconhece pela aparência, pela palavra ou discurso bonito, tampouco pela “placa da igreja”, conforme dizia uma querida irmã. Ser Igreja do Deus vivo não é uma questão de paredes, espaços físicos e templos; é algo que ocorre no coração, verdadeiro templo do Espírito Santo, que nos santifica no mais profundo do nosso ser, em nosso âmago ou essência, humana e divina ao mesmo tempo. Este seguimento ocorre a partir de um chamado do próprio Mestre Jesus, que diz: “Não foram vocês que me escolheram, mas fui Eu que os escolhi” (Jo 15, 16). A ATITUDE (não apenas palavra) comum a este Rebanho do Bom Pastor é o AMOR, pois quem ama vem de Deus, e é de Deus. “Se vocês tiverem amor uns para com os outros, todos reconhecerão que vocês são meus discípulos.” (Jo 13, 35). “Ovelhas mansinhas” até certo ponto: humildes e dóceis quanto ao amor, ao bem e à verdade; mas ousadas e destemidas na luta contra todo tipo de mal. Ovelhas destemidas e corajosas; sem máscaras de lobos enganadores.

É muito importante não confundir algumas “Manadas Fanáticas e Fundamentalistas” com o verdadeiro “Rebanho do Senhor Jesus”; uma coisa não tem nada a ver com a outra! Quando Jesus pede a Pedro para “apascentar” suas ovelhas, e não apenas “pastorear”, leva a um sentido mais profundo, pois “nutrir espiritualmente” o Rebanho vai além de vigiar ou doutrinar. Para a Ovelha, que costuma ser dócil, amável e obediente à voz do Pastor, diferentemente do Cabrito (mais rebelde e arisco), não basta apenas ter bons pastos, boa comida, água em abundância. Ela precisa sentir-se em profunda COMUNHÃO com o BOM PASTOR e com as outras ovelhas, suas IRMÃS, mesmo que estejam em apriscos diferentes. “Tenho também outras ovelhas que não são deste curral. Também a elas Eu devo conduzir; elas ouvirão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só Pastor” (Jo 10, 16).

Quando não priorizamos o DIÁLOGO fraterno e a ESCUTA amorosa, poderemos cair na tentação de achar que somos os únicos “donos da verdade”, que somente nós temos a razão e que os outros estão redondamente enganados. Não “abrir o leque” para ENXERGAR com o coração, não ouvir e aprender com o diferente, achando que só o nosso grupinho (espécie de gueto) está certo, pode nos levar à violência e até mesmo à arrogância. Lembremos da reação de Jesus diante dos seus discípulos, Tiago e João, quando passavam por uma região de samaritanos: “Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu para acabar com eles? Jesus, porém, voltou-se e os repreendeu” (Lc 9, 54-55). E ainda, quando João diz a Jesus: “Mestre, vimos um homem que expulsa demônios em teu nome. Mas nós lhe proibimos, porque ele não nos segue”. Jesus disse: “Não lhe proíbam, pois ninguém faz um milagre em meu nome e depois pode falar mal de mim. Quem não está contra nós, está a nosso favor.” (Mc 9, 38-40).

Quem, com a alma e o coração, adere realmente ao Projeto do Reino de Deus-Pai, compreende quando Jesus nos fala que “HAVERÁ UM SÓ REBANHO E UM SÓ PASTOR”, e vai colaborando para que isso aconteça no nosso dia a dia. Este rebanho não se trata de uma multidão qualquer, caminhando às cegas; trata-se da “multidão dos fiéis” que, a exemplo dos primeiros cristãos, é “um só coração e uma só alma.” (At 4, 32). É o povo de Deus reunido em Comunidades que, na sua Diversidade étnica, cultural, religiosa, política etc., mantém a Unidade através do Espírito Santo, o Espírito doador de todos os Dons necessários ao bem de todos.

Quem age contrariamente ao Projeto da Vida Digna para todos, anunciado por Jesus, colabora para dispersar o rebanho, gerando contendas, aprofundando as divisões, discussões e murmurações tolas, sendo também repreendido por Ele, quando nos diz: “Aquele que não está Comigo, está contra Mim; e aquele que comigo não ajunta, espalha.” (Mt 12, 30).

Confiantes na Palavra de Jesus, que ora ao Pai por nossa Unidade quando diz “Para que eles sejam um, assim como nós somos um” (Jo 17, 11b), continuemos UNIDOS pela construção deste Reino de Paz e Amor, como pessoas de Boa Vontade que não desanimam, mesmo diante de atropelos, empecilhos e momentos difíceis que vivenciamos. Que venhamos por quaisquer lados ou estradas, não importa. O importante mesmo é a consciência de estarmos seguindo Àquele que é o verdadeiro “Caminho, Verdade e Vida”: JESUS CRISTO, o nosso BOM PASTOR. Que neste seguimento, tenhamos sempre a Esperança renovada, a Alegria verdadeira, a Fé e a Caridade, a fim de mantermos a UNIDADE na DIVERSIDADE, permanecendo firmes neste imenso e constante PENTECOSTES, rumo ao novo céu e à nova terra!

Vem, Santo Espírito, vem nos iluminar!”

PerYaçu

Peregrina da Esperança

Bananeiras-PB, 03 de junho de 2022

Vera Periassu (PerYaçu) é Educadora Popular, professora aposentada da UFPB(Campus III). Escreve Poesias, Contos, Crônicas e também Cordel.

E-mail: veraperiassu@gmail.com

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