
No “Caminho do Samaritano”, poderemos nos deparar com:
O Ferido (o outro, o sofredor, o caído, o estranho…);
Os Assaltantes (os maus, violentos, ambiciosos…);
Os Indiferentes (individualistas, egoístas…).
*E o Samaritano, quem é mesmo?
Um especialista em leis interpela Jesus a respeito da vida eterna. A resposta de Jesus é uma síntese do AMOR, como prática concreta de vida:
“Ame o Senhor, seu Deus, com todo o seu coração (sentimento), com toda a sua alma (espiritualidade – transcendência), com toda a sua força (corporeidade – imanência) e com toda a sua mente (intelecto), e ao seu próximo como a si mesmo.” (Lc 10, 27). O especialista, na verdade, já sabia de tudo isso, era um estudioso da Palavra, um teólogo, quem sabe…, mas não basta “saber”, é preciso amar concretamente! Querendo se justificar, o especialista em leis pergunta a Jesus: “E quem é o meu próximo?” (Lc 10, 29).
Jesus ensinava-lhes muitas coisas com parábolas (Mc 4, 2), uma forma indireta (ética e literária) de falar sobre assuntos delicados e exigentes. “Para a multidão (e pessoas que ainda não eram seus seguidores), Jesus só falava com parábolas, mas, quando estava sozinho com os discípulos, Ele explicava tudo” (Mc 4, 10-12). Portanto, à pergunta do especialista em leis, o Mestre Jesus de Nazaré responde com esta belíssima parábola que, inclusive, compõe todo o segundo capítulo da encíclica “Fratelli Tutti” (Todos Irmãos), do Papa Francisco, a respeito da fraternidade e amizade social.
Toda esta história, contada por Jesus e meditada até os nossos dias, revela que “O Amor é Compaixão e Cuidado”, é “Presença” e manifesta-se em gestos concretos de solidariedade e fraternidade. Conhecida como a “Parábola do Bom Samaritano”, começa chamando a nossa atenção para uma palavra: BOM. Quem é Bom?… Segundo o próprio Jesus, “Só Deus é bom, e ninguém mais” (Lc 18, 19). Mas como assim? Jesus não era bom? Claro que sim! Ele não aceita este título, pois a bondade não se manifesta nos próprios méritos, mas somente por participação na bondade divina. Jesus, o AMOR em pessoa, nos ensina a expressar esse amor através da BONDADE. Foi assim que Ele o fez, pois “O AMOR É MISSÃO – JESUS É MISSÃO”.
Ainda a respeito do termo BOM, dizer que a parábola é do “bom samaritano”, supõe-se que os outros samaritanos não o sejam. Isto não revelaria, também, por parte dos judeus, um certo preconceito com os samaritanos?… Mas, preconceitos à parte, fiquemos com o Verdadeiro e Bom Samaritano: Jesus Cristo, que nos ensina a “Amar ao próximo como a si mesmo” (Mt 22, 39). Eis a história que nos conta:
“Um homem ia descendo de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos de assaltantes, que lhe arrancaram tudo e o espancaram. Depois foram embora, e o deixaram quase morto.” (Lc 10, 30). O artigo indefinido “Um” antecede a palavra “homem”, podendo significar qualquer um irmão caído, qualquer pessoa que sofre, que está precisando de ajuda. Seria “o outro”, muitas vezes um “estranho”, migrante, abandonado, desconhecido, desprezado, marginalizado, oprimido, escravizado etc. Alguém frágil e vulnerável, uma pessoa ferida, machucada. Quem são estes feridos de hoje? Eu me faço próximo deles, sem levar em conta as barreiras de etnia, religião, classe social?…
A palavra “assaltantes” aparece no plural. Interessante que, para se fazer o mal, geralmente se chama outra pessoa, às vezes, se forma até uma quadrilha! Os maus, violentos, ambiciosos e sem compaixão não ilustram bem esta categoria? Quem seriam os assaltantes de hoje?… Os que fazem falcatruas, desvios de verbas, exploração dos trabalhadores, tráfico de drogas, pessoas e órgãos? Ou a gente acha que assaltante é somente aquele que rouba um celular, um carro ou uma moto?
“Por acaso, um sacerdote estava descendo por aquele caminho; quando viu o homem, passou adiante, pelo outro lado. O mesmo aconteceu com um levita: chegou ao lugar, viu e passou adiante, pelo outro lado.” (Lc 10, 31-32). O “outro lado” é o lado da indiferença (indiferentismo), da omissão, do comodismo. É o descarte, ou até mesmo o desprezo pelo outro; eu não me importo com ele, ou ela, pois não servem aos meus interesses. Eu estou focado em mim, na minha família, na minha empresa, no meu estudo (egocentrismo), e o que acontece ao meu redor, caso não me atinja, não é da minha conta. Infelizmente, muitos pensam assim, até mesmo pessoas de quem não se espera tal atitude: sacerdotes, levitas, religiosos, consagrados etc. Ambos, sacerdotes e levitas, viram o ferido na estrada, porém, não basta “ver”, é preciso “enxergar” com a alma e o coração, sentir compaixão; não apenas piedade, ou “pena”! Já dizia Jessé em sua música “Paraíso das Hienas”: “Só ter piedade de nós não vale a pena!”. E nós, sentimos pena de quem? Diante de quem passamos ao largo? Também somos indiferentes a tudo isso? Quem são os indiferentes de hoje?
A história começa a mudar de figura quando “Um samaritano, que estava viajando, chegou perto dele, viu e teve compaixão” (Lc 10, 33). Ver + enxergar = compadecer-se! No entanto, isto só acontece se tivermos a coragem de “chegar perto”, chegar perto do “leproso” da nossa sociedade de hoje: drogado, prostituído, pobre, negro, analfabeto, migrante, homossexual, indígena, morador de rua, enfim, todos os caídos ao longo do caminho. O artigo indefinido “Um” também indica que este “samaritano” poderia ser qualquer um de nós, que estamos viajando (peregrinos) nesta estrada da vida, que muitas vezes também somos discriminados – lembremos que os judeus não davam nada pelos samaritanos – e foi exatamente desta pessoa, de quem não se esperava nada, que veio o socorro, uma vez que se fez “próximo” do irmão caído. “Aproximou-se dele e fez curativos, derramando óleo e vinho nas feridas. Depois colocou o homem em seu próprio animal, e o levou a uma pensão, onde cuidou dele” (Lc 10, 34). Compaixão + Cuidado = Amor. A compaixão gera o cuidado: eis a resposta para os nossos dias!
Para fazer os curativos (cuidar de alguém ferido e machucado), primeiro contamos com os recursos próprios e imediatos, é aquilo que está ao nosso alcance, pois trata-se de uma emergência: é o óleo, o vinho, o próprio animal, as moedas etc. Entretanto, sempre iremos precisar de outros recursos (a pensão, o abrigo, as instituições) e da ajuda de outras pessoas (o dono da pensão, os amigos, os voluntários etc.) que nos darão o suporte necessário, por isso é preciso envolver mais e mais gente na história: “Tome conta dele. Quando eu voltar, vou pagar o que ele tiver gasto a mais” (Lc 10, 35). Quem ama, cuida! A compaixão requer cuidados, e eles são constantes; não é apenas uma “esmola”, muitas vezes, dada às pressas para se livrar do pedinte. Cuidado é diferente de pena, pois nela não há o “envolvimento” do ser humano com “o outro”; o cuidado é constante, requer envolvimento, presença, proximidade. Entretanto, tudo isto vai depender da maneira como “enxergo” o mundo, pois não basta apenas “ver”, afinal, o sacerdote e o levita também viram a mesma cena que o samaritano, mas não se fizeram “próximos”. Este caminho do samaritano também é o nosso: uma hora ferido; outra, indiferente; algumas vezes, omisso; felizmente, ajudando!
No final da parábola, Jesus pergunta ao especialista em leis qual dos três foi o próximo do homem caído. A resposta imediata também é a nossa: “Aquele que praticou misericórdia para com ele” (misericórdia, e não sacrifício). “Vá e faça a mesma coisa” (Lc 10, 37) é a exortação de Jesus ao especialista e a todos nós! Quanto a mim, o que faço para me tornar próximo do outro? Quem é o meu próximo hoje?
“Ama ao próximo como a ti mesmo!”
(Mc 12, 31)
Pery_Açu
“Peregrina da Esperança”
“Irmã do Fraterno Amor”
Bananeiras, 18 de outubro de 2021
Vera Periassu – poeta, cordelista e educadora popular
veraperiassu@gmail.com
