
Donald Trump ressuscitou a fantasia militar da “guerra de videogame”, travada principalmente por meio de poder aéreo letal e de alta tecnologia, com poucas baixas americanas. Mas seu governo pode ter subestimado a realidade ao tentar substituí-la pelo mundo virtual – acarretando numa derrota histórica.
Poucas horas após os ataques de 11 de setembro de 2001, especialistas se apressaram em explicar seu significado. “Talvez”, escreveu Naomi Klein dias depois, “o 11 de setembro marque o fim da vergonhosa era da guerra de videogame”. Com isso, ela se referia, para o público estadunidense, ao entretenimento — familiar desde a Guerra do Golfo de 1991 — de assistir bombas de precisão pulverizarem alvos distantes sem os detalhes de grandes derramamentos de sangue.
Os estadunidenses agora sabem o que a guerra de videogame, fomentada por uma mídia nacionalista, escondia: a devastação, especialmente para os civis, quando uma terrível violência se abate sobre eles. Esse sofrimento, na opinião de Klein, era o objetivo do terror: “A era da guerra de videogame, na qual os EUA estão sempre no controle, gerou uma fúria cega em muitas partes do mundo, uma fúria contra a persistente assimetria do sofrimento. […] Os vingadores perversos não fazem outra exigência senão a de que os cidadãos estadunidenses compartilhem sua dor.”
Apesar das promessas de uma vitória rápida, as guerras do Afeganistão e do Iraque mostraram para os estadunidenses o inferno real e sangrento da guerra. Ambas terminaram quando o país já havia presenciado caos, perdas e instabilidade suficientes. Depois disso, a “síndrome do Iraque” limitou a agressividade dos EUA, ao mesmo tempo que incentivou avanços em assassinatos remotos por meio de drones. Isso foi no passado.
Agora, o ataque de Donald Trump ao Irã trouxe de volta a guerra de videogame com uma vingança assustadora. Há a pueril mistura feita pelo Pentágono de imagens reais de bombardeios com cenas de Call of Duty. Mais do que isso, Trump ressuscitou a fantasia militar que está no cerne da guerra de videogame: um conflito armado com (quase) zero baixas, tornado possível por avanços tecnológicos, principalmente no poderio aéreo letal. Igualmente importante é sua premissa política: a de que os estadunidenses dificilmente se oporão, ou mesmo se importarão muito, com qualquer guerra, desde que a vitória seja certa e os custos sejam baixos.
O governo Trump dispensou em grande parte os rituais sombrios pelos quais a nação caminha para grandes guerras. Acabaram-se os meses de propaganda e campanhas de pressão para exagerar a ameaça e demonizar o inimigo; para angariar apoio no Congresso e nas Nações Unidas; e para inflamar o país num frenesi de excepcionalismo, mobilizado para dar ao mundo uma lição sobre a benevolência e a determinação estadunidenses. Implícita nessas medidas está a presunção de Trump de que pode fazer guerra sem prestação de contas, restrições ou mesmo consentimento fabricado.
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Quase não se sente que a Guerra do Irã está
acontecendo, exceto pela TV ou pelas redes
sociais. Isso é proposital.
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Trump conseguiu apenas uma pantomima relutante de diplomacia de comandante-em-chefe. Suas explicações contraditórias sobre o porquê da guerra estar acontecendo soam tímidas. Ele recita uma retórica de salvação mundial — Irã, “a hora da sua liberdade está próxima” — como se estivesse citando falas de um filme antigo. O verdadeiro zelo do governo reside em seus memes e provocações ameaçadoras, despojando a morte tanto de gravidade quanto de dignidade. Entre seus perpetradores, a guerra de videogame é, de fato, tratada como um jogo.
Até mesmo a mídia parece distante. Onde está a cobertura intensa e os âncoras famosos correndo para a região, com capacetes de kevlar a tiracolo? As perguntas incisivas para os assessores do Pentágono e os embates com o próprio Trump? Até agora, a guerra é apenas mais uma história, não uma obsessão nacional.
Isso não quer dizer que a guerra seja desprovida de propósito dentro dos padrões consagrados de agressão dos EUA. Sua origem provavelmente reside em uma combinação de acertos de contas históricos; oportunidade estratégica, dado o isolamento regional e os conflitos internos do Irã; pressão israelense; política de não proliferação nuclear; ambição neoconservadora; a busca incessante por petróleo; e a vontade de dominação de Trump como um fim em si mesmo. O império nunca dorme. Ainda assim, a nação parece alheia ao conflito, visto até o momento apenas como um espetáculo distante, manipulado por telas.
Como perder uma guerra de videogame
Tudo isso pode mudar, lenta ou rapidamente. O governo Trump pode ter calculado mal a facilidade com que se pode chegar àquilo que é considerado uma vitória.
Em uma perspectiva de longo prazo, a guerra de videogame 2.0 de Trump provavelmente reacenderá a indignação global contra a arrogância estadunidense e uma crescente “assimetria do sofrimento”. (O governo iraniano relata mais de 1.400 civis mortos e danos a quase 43.000 estruturas civis.) Já ocorreram pelo menos três supostos ataques terroristas domésticos, para os quais a guerra pode ter sido o estopim. Quem sabe o que inimigos rancorosos e ressentidos poderão fazer um dia.
A renúncia de Joe Kent, nomeado por Trump e importante autoridade antiterrorista, é reveladora. Em uma notável crítica ao presidente, sua carta de renúncia afirmou que “o Irã não representa uma ameaça iminente à nossa nação”. A guerra, e não o Irã em si, coloca vidas estadunidenses em risco.
Trump logo se deparou com um regime tenaz, especialista em guerra híbrida e irregular. Os avanços tecnológicos têm dois lados: sistemas de defesa antimíssil caros e bombas de precisão lançadas por aeronaves multimilionárias, bem como drones baratos e barcos torpedeiros capazes de prejudicar o comércio global. Com aliados em toda a região, o Irã encontrou uma maneira de aumentar o custo do conflito para os Estados Unidos em termos de recursos financeiros, se não em vidas.
Os custos recaem sobre o orçamento nacional, as empresas privadas e o consumidor individual. Os preços da gasolina, e não os sacos para cadáveres estadunidenses, podem ser decisivos, e o Irã sabe disso. Uma armadilha da guerra de videogame é a indiferença geral do público em relação a ela. Poucos estão interessados em seu sucesso e dispostos a fazer sacrifícios coletivos caso algo dê errado.
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“Um dos problemas da guerra de videogame é a
indiferença geral do público em relação a ela.”
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A presença de tropas estadunidenses em solo iraquiano, mesmo para contra-ataques direcionados, aumenta exponencialmente os riscos militares, humanos e políticos. Com uma invasão em larga escala que derrube o regime, os Estados Unidos redescobririam o que aprenderam no Iraque: que mesmo um povo oprimido, bombardeado por seus “libertadores”, não aceita bem uma ocupação militar. Tal ocupação, sem dúvida, brutalizaria civis e fomentaria tanto uma insurgência quanto conflitos internos letais.
É também uma guerra em múltiplos teatros de operações, com uma gama vertiginosa de atores, cada um com suas próprias prioridades. Nenhuma coalizão lhes proporciona um propósito comum. Uma abordagem focada em um único alvo não funciona em um campo de batalha tão congestionado. Nada indica que o governo Trump tenha refletido seriamente sobre as complexas dependências, vulnerabilidades, rivalidades e capacidades de seus potenciais aliados. Como consequência, Trump está implorando aos países da OTAN e até mesmo à China que policiem rotas marítimas vitais com seus navios de guerra. Até agora, ninguém se manifestou.
A cada dia, estrangeiros em pânico buscam uma saída do caos. Estadunidenses, e o restante do mundo, assistem ao desenrolar do que há muito temiam: um conflito desenfreado por todo o Oriente Médio. Eventualmente, imagens comoventes de civis mortos no Irã chegarão à imprensa ocidental, alterando o panorama emocional. Mais estadunidenses morrerão.
Dizer não à guerra
Aopinião pública estadunidense, por ampla maioria, não quer essa guerra. Existem oportunidades extraordinárias para mobilizar esforços para pôr fim a ela e enfraquecer Trump. No entanto, o sentimento anti-guerra não se traduziu em um movimento anti-guerra visível.
Essa situação pode mudar. A história dos protestos pós-11 de setembro, sobre a qual escrevo em Our Grief Is Not a Cry for War [Nossa Dor Não É um Clamor por Guerra], mostra como as pessoas comuns — mesmo diante de grandes adversidades — podem se mobilizar contra a guerra.
Horrorizada pelos ataques de 11 de setembro, uma pequena, porém aguerrida minoria de estadunidenses temia o iminente ataque dos EUA. A Coalizão Act Now to Stop War and End Racism [Aja Agora para Parar a Guerra e Acabar com o Racismo] (ANSWER) formou-se rapidamente para se opor à guerra iminente. A partir dos escombros de uma mobilização global por justiça que acabou sendo cancelada, o grupo organizou um protesto contra a guerra com a participação de cerca de vinte mil pessoas em Washington, D.C., no final de setembro, antes mesmo do início da invasão do Afeganistão. Quando a invasão começou, em 7 de outubro, dez mil pessoas se manifestaram pela paz na cidade de Nova York.

Semanas após o início da guerra, Medea Benjamin, cofundadora do Code Pink, e outros estadunidenses correram para a região para documentar os danos causados aos civis. Ativistas, incluindo familiares das vítimas do 11 de setembro, pressionaram com sucesso o governo dos EUA por indenizações para as vítimas afegãs. Tudo isso aconteceu em um momento em que grande parte do país fervilhava de medo e raiva, e até mesmo a dissidência moderada era tachada de traição.
A lenta preparação de George W. Bush para a invasão do Iraque deu tempo para que as forças pacifistas ganhassem força. Do verão de 2002 até o início da guerra, em março de 2003, milhões de estadunidenses participaram de milhares de manifestações contra a guerra. Em outubro de 2002, uma nova coalizão, Unidos pela Paz e Justiça, foi formada. Reunindo centenas de grupos, ela planejou intensamente um dia de protesto global.
Sob o lema “O Mundo Diz Não à Guerra!”, entre quinze e trinta milhões de pessoas se manifestaram em 15 de fevereiro de 2003, em setenta e dois países. Quatrocentas mil pessoas compareceram em Nova York, nas escadarias da sede das Nações Unidas. Os protestos daquele dia seguem sendo os maiores da história da humanidade. Embora não tenham impedido a guerra, isolaram Bush no cenário mundial e dificultaram o conflito.
Os anos amargos do conflito foram marcados por protestos incessantes contra a guerra. Isso incluiu um testemunho pela paz no próprio Iraque, a indignação pública das famílias enlutadas pelos soldados mortos, depoimentos impactantes de veteranos pacifistas recém-chegados do combate, deserções de denunciantes em todo o governo e atos corajosos de desobediência civil. Frequentemente ignorado pela mídia e pela classe política, o movimento ajudou a mudar a opinião pública contra a guerra e a acelerar seu fim. O desprezo bipartidário por “guerras estúpidas” é, em parte, um legado do movimento.
Dizer não à guerra, novamente
Sem dúvida, os protestos contra a guerra — de vigílias a ligações telefônicas para o Congresso — ainda existem hoje. Grupos importantes do movimento pós-11 de setembro, como Veteranos pela Paz e Código Rosa, permanecem ativos. (Em um protesto comovente, participantes de uma vigília exibiram sapatos infantis em frente à famosa Biblioteca Pública de Nova York para representar os mais de 170 mortos no ataque aéreo estadunidense a uma escola para meninas no Irã.) Delegações em defesa da paz certamente visitarão o Irã para avaliar a destruição.
Mas esses protestos estão longe da frequência e da escala do ativismo pós-11 de setembro. Não há uma nova e ousada coalizão contra a guerra, nem, até o momento, nenhuma manifestação de massa marcante que atraia a atenção da mídia. Muitas razões explicam essa relativa tranquilidade. O movimento pacifista, como quase todos, foi pego de surpresa pela decisão unilateral e descarada de Trump de iniciar uma guerra. A competição por ações humanitárias é acirrada em um momento em que o governo Trump despeja uma torrente de maldades. Os dissidentes correm de uma emergência moral para outra e lutam contra a fadiga da indignação.
A própria guerra e a imagem que ela projeta também têm limitado a indignação. Travada principalmente por mar e ar, a guerra ceifou apenas algumas vidas de soldados estadunidenses, cujas mortes sempre geram preocupação pública. Poucas imagens do sofrimento iraniano vieram à tona além da escola para meninas. Até agora, a guerra de videogame está cumprindo parcialmente seu propósito de neutralizar a oposição. E os estadunidenses provavelmente sofrem da Síndrome da Resignação de Trump — a sensação desgastante de que Trump fará o que quiser, independentemente de leis, normas, censura judicial e até mesmo da opinião pública. É tentador simplesmente assistir ao desmoronamento desastroso da guerra de Trump e torcer para que ele pague um alto preço com seu capital político.
Contudo, vale a pena resistir a essa tentação. Primeiro, ninguém quer mais caos e morte. A guerra deve ser encerrada pela pressão pública — e não simplesmente implodir — dessa forma, vidas serão salvas. Segundo, a guerra é a expressão máxima do autoritarismo de Trump e de seu amor sociopático pela dominação, pela violência e pelo assassinato daqueles que ele considera inferiores. (Ele se gabou de ser uma “grande honra” matar iranianos.) O protesto contra a guerra é um pilar vital em um projeto antifascista mais amplo.
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“Não há uma nova e ousada coligação anti-
guerra, nem, até o momento, nenhuma
manifestação de massa marcante que atraia a
atenção da mídia. Muitas razões explicam essa
relativa tranquilidade.”
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Em terceiro lugar, resistir à guerra é resistir à oligarquia e promover uma economia justa. O Pentágono fez o pedido exorbitante de 200 bilhões de dólares para financiar a guerra, além dos quase 1 trilhão de dólares direcionados a gastos militares em 2025. Os contribuintes terão que arcar com essa nova conta, enquanto os super-ricos desfrutam de bilhões em isenção de impostos graças ao “Grande e Belo Projeto de Lei” de Trump. É um retrato sombrio de um império em decadência, marcado por crescentes divisões de classe e guerras estrangeiras indiscriminadas.
Além disso, precedentes recentes mostram que a indignação pública, baseada em princípios, pode fazer Trump recuar. Os grandes protestos e os terríveis assassinatos em Minneapolis galvanizaram a nação na resistência às ações letais do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE). Pelo menos por enquanto, os cercos relâmpago vistos em Minneapolis, Chicago e Los Angeles foram suspensos.
A própria ideia de guerras totalmente autoritárias, travadas contra o Irã e sob ameaça em relação a Cuba, deve ser rejeitada. Um movimento contra a guerra poderia liderar esse processo. Por fim, protestos contra a guerra — especialmente se acolherem republicanos — poderiam ajudar a fragmentar o movimento MAGA (ou pelo menos a desarticular alguns de seus apoiadores no Partido Republicano) e diminuir seu poder em um mundo pós-Trump. Não é cedo demais para esse mundo, e será melhor se movimentos sociais progressistas prepararem o terreno para ele.
Resta saber se surgirá um movimento robusto contra a guerra, com protestos em massa e ações diretas. O sentimento de sobrecarga, a resignação e as imagens idealizadas da guerra representam obstáculos poderosos a serem superados. Apesar dos sinais preocupantes, a guerra pode terminar relativamente em breve, com custos politicamente administráveis em termos de vidas e recursos financeiros, e um resultado que Trump poderá reivindicar como uma vitória.
Há muitas coisas incertas no cenário atual, exceto o que está em jogo: vida e morte, e a sobrevivência de um mínimo que seja da democracia estadunidense.
Jeremy Varon
é professor de história na New School. Ele é o autor de “Our Grief Is Not a Cry for War: The Movement to Stop the War on Terror” (Nossa Dor Não É um Clamor por Guerra: O Movimento para Acabar com a Guerra ao Terror).
