Tropa de Elite: o avesso do avesso

Os objetivos da produção de drogas são acumular capitais e produzir lucros. O espaço de sua produção não são as favelas e nem seus proprietários habitam lá. Onde ela é produzida? Quem são os produtores? Onde residem? Por Ana Lúcia da Silva (*).

“Homem de preto,
Qual é sua missão?
É invadir favela
E deixar corpo no chão”

Tropa de Elite, o mais badalado filme produzido nos últimos anos no Brasil, pretende retratar uma guerra: a guerra entre o Bope (Batalhão de Operações Especiais) e os traficantes. Qual o objetivo da guerra? “Salvar a cidade do Rio de Janeiro”, como afirma o capitão Nascimento, narrador do filme. “Se o Bope não existisse os traficantes há muito tempo já teriam tomado conta da cidade”, diz ele.

Que guerra é esta?

É uma guerra da qual os objetivos e os responsáveis não são personagens do filme.

Na realidade, Tropa de Elite retrata o espaço e a vida das vítimas da guerra. E quais são elas?

* Os trabalhadores que moram nas favelas. O capitão Nascimento afirma que os traficantes, vítimas das ações do Bope, moram nas favelas e controlam a maioria delas. Isto implica, na versão do filme, que os trabalhadores que habitam nas favelas são coniventes e protegem os traficantes, por medo ou por acomodação. Por isto, o Bope as invade com uma estratégia elaborada que lhe permite avançar e matar várias pessoas, sendo todas elas consideradas traficantes. Mesmo que investigações posteriores comprovem que mataram simples trabalhadores, sem nenhum envolvimento com atividades consideradas criminosas.

* Os traficantes que são espancados, torturados, humilhados e por fim mortos. Estas ações são louvadas e julgadas necessárias. É missão: “Homem de preto, qual é sua missão? É invadir favela e deixar corpo no chão.” Nenhuma destas ações é considerada crime e desrespeito às convenções internacionais dos direitos humanos.

Em todo Estado de Direito, criminoso deve ser preso, julgado e, considerado culpado, condenado. A polícia, que é uma concessão pública, não pode fazer justiça pelas próprias mãos.

* Os policiais, da polícia tradicional ou do Bope. O próprio filme mostra que os componentes da polícia são trabalhadores com péssimos salários e condições de trabalho, que terminam se submetendo a uma engrenagem de corrupção e de descaso por parte, principalmente, dos escalões superiores da hierarquia militar que, no caso, representam o Estado. Muitos, para sobreviverem, corrompem-se das mais variadas formas, inclusive chantageando os traficantes e com eles fazendo acordos e tornando-se, conseqüentemente, bandidos fardados. Ora, como poderiam os que se tornaram bandidos fardados guerrear contra bandidos civis? Esta seria uma guerra impossível. Por isto, criou-se o Bope, que aparece como uma resposta à ineficiência e corrupção da “polícia convencional” e aos políticos que a alimentam.

Essa elite de policiais é apresentada como constituída por homens de caráter, incorruptíveis, que sacrificam a vida pessoal e familiar, cujo lema é “faca na caveira e nada na carteira”. Eles passam por uma rigorosa seleção e são “formados na base da porrada, para resistirem às piores provações e até humilhações”. Esta pedagogia da violência é valorizada, julgada eficaz, necessária e se expressa nos cantos de guerra do Bope “Tropa de Elite, Osso duro de roer, Pega um, pega geral.Também vai pegar você!” Mas como é possível que, de algo tão corrompido, saia algo tão incorruptível?

* Os consumidores de droga: sejam os moradores das favelas, seja a juventude rica que estuda na PUC. No filme, principalmente estes são considerados culpados pela existência do tráfico, conseqüentemente da guerra. Em uma cena o capitão Nascimento pergunta a um jovem, apontando para um traficante morto, quem matou este cara? E afirma: “Quem matou esse cara aqui foi você. Seu veado, seu maconheiro, é você quem financia essa merda. A gente sobe aqui pra desfazer a merda que vocês fazem”. Ou seja, os usuários são os responsáveis pela existência do comércio de drogas.

Mas, afinal, que guerra é esta? Quais seus reais objetivos e o espaço onde se desenrola?

Todos sabemos que uma mercadoria para ser vendida tem que ser produzida. Inclusive, o grau de desenvolvimento de um país é determinado, principalmente, pelo tamanho e volume de seu parque industrial. A produção das chamadas drogas ilícitas é um processo industrial complexo. Pelo volume, envolve plantações em grande escala, indústria de refino, armazenamento, transporte. Sendo ilícita, a produção, transporte e armazenamento exigem segurança em todas as etapas (de homens, indústria de armas, subornos, serviço de inteligência), variados transportes terrestres e aéreos, fronteiras, complexa logística de distribuição. Estimula, inclusive, uma crescente e complexa rede privada de segurança, por onde, em 2005, circularam 11,8 bilhões de reais. Sem produção não há consumo. Esta sofisticada e complexa produção é uma enorme fonte de lucros e de acumulação de capital.

Portanto, os objetivos da produção de drogas são acumular capitais e produzir lucros. O espaço de sua produção não são as favelas e nem seus proprietários habitam lá. Onde ela é produzida? Quem são os produtores? Onde residem? Com a palavra os serviços de inteligência do país. Sobre estes personagens centrais para a existência das drogas, o filme não diz uma palavra.

A produção e comercialização das drogas envolvem bilhões de reais ou dólares. É óbvio que este dinheiro não é guardado nas favelas, nas mãos dos traficantes que lá habitam. É lógico que circula no sistema financeiro, que, provavelmente, é o que mais lucra com este comércio e o que enfrenta os menores riscos. O dinheiro é depositado em nome dos próprios produtores da drogas? Em nome de laranjas? Com a palavra o Banco Central.

Este personagem sequer é mencionado no filme.

Esta engrenagem responsável pela indústria da droga funciona a pleno vapor pela omissão, quando não pela conivência do Estado. Personagem também ausente do filme. Esporadicamente aparecem notícias de envolvimento de membros do poder executivo, legislativo e judiciário com a indústria de drogas. Uma investigação aprofundada descobriria os reais responsáveis pela indústria da droga, suas articulações e principais beneficiários. Mas isto destruiria uma poderosa indústria produtora de lucros, poder e prestígio. Por isto, cria-se uma guerra contra os traficantes, transformando as vítimas em personagens centrais, no filme e na vida real. Mas o filme, ao lado de toda a divulgação que a mídia dá sobre a violência urbana, contribui para fortalecer algumas idéias do senso comum que contribuem para a manutenção e reprodução desta poderosa máquina de lucros.

* Miséria e violência tornam-se sinônimos e as favelas são o espaço de sua reprodução. Inúmeras pesquisas apontam que, apesar de milhões de trabalhadores habitarem em favelas, principalmente nas grandes cidades, a porcentagem dos que se dedicam as chamadas atividades criminosas gira em torno de 3%. E que a violência maior no cotidiano das favelas não vem do tráfico, mas expressam a violência das tensões do mundo contemporâneo, tensões que explodem nas brigas de rua, de vizinhos, entre amigos, nos campos de futebol etc.

* O tráfico de drogas é o maior responsável por esta violência. No entanto, dados de pesquisa publicados na revista Carta Capital desmentem esta versão e mostram que, entre os motivos para assassinato, 13% tem origem no tráfico.

Este senso comum que norteia principalmente o ideário da classe média esconde o fundamental: a monstruosa concentração de renda no Brasil é que abre espaço para a cultura da violência. Numa sociedade em que as pessoas valem pelo que consomem, a juventude das favelas assimila o incentivo ao consumo de roupas, carros, jóias, shows, baladas, bebidas, que simbolizam bem estar, prestígio, status, poder. Sem outras oportunidades sociais, buscam no tráfico os recursos que lhes permitem tornarem-se “consumidores” socialmente valorizados em suas comunidades. Pode-se concluir que a solução do problema do tráfico não é policial, mas política e passa pelas reformas: tributária, agrária, urbana, política, cultural e financeira.

(*) Ana Lúcia da Silva é historiadora. Publicado também no Jornal O Popular (GO).

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