Slavoj Zizek no Brasil: “Não há uma solução simples, e a questão da ecologia é impregnada de ideologia”

Por Eduardo Sá e Lais Bellini

Slavoj Zizek durante o evento no Rio de Janeiro. Foto: Vitor Vogel/Fatos Sociais.

Pela terceira vez o filósofo esloveno Slavoj Zizek veio ao Brasil, e novamente com seu tom provocador. Após duas conferências realizadas em São Paulo e no Rio de Janeiro nesta semana, com a temática “Revolução: quando a situação é catastrófica, mas não é grave”, ele lançou dois livros em nosso país: Em defesa das causas perdidas e Primeiro como tragédia, depois como farsa, ambos pela Boitempo Editorial. Os auditórios do Sesc Pinheiros, em São Paulo, e do Cinema Odeon Petrobras, no Rio de Janeiro, ficaram pequenos para o evento, que também foi transmitido ao vivo pela internet.
Um dos expoentes do marxismo contemporâneo e psicanalista esquerdista, Zizek teve pouco tempo para falar tudo o que queria. “Há 30, 40 anos atrás os europeus vieram à America Latina pensando que os que viviam aqui eram ‘os idiotas’. A ideia na cabeça deles era: ‘vamos vender coisas para eles’. Mas hoje a América Latina confia nas suas coisas. Por essas razões tenho orgulho de estar aqui”, disse.
Os ecologistas catastróficos, a política verde e o mito da sustentabilidade
“Não acredite nas ideias de que em um 1 ou 2 anos estamos mortos”, observa Zizek, que aponta esse tipo de pensamento como uma construção de ecologistas catastróficos. Segundo ele, o debate em torno da questão ecológica está impregnado de ideologia e é preciso ficar muito atento ao que é apresentado sobre o tema. Pois muitas vezes são criadas visões que, apesar de apresentadas como soluções, funcionam de forma a evitar o confronto objetivo das ameaças ambientais.
“Temos que admitir um desequilíbrio natural, catástrofes inimagináveis já houveram. É preciso desconfiar dessa auto culpabilização, por causa dela vem uma das ideologias falsas mais perigosas. É um conjunto de princípios embebidos na nossa prática diária. Permite inventar uma série de estratégias, de práticas superticiosas que evitam enfrentar o problema real”, adverte o filósofo.
Zizek se refere ao que ele chama de “rituais obsessivos e vazios” sobre reciclagens e outras saídas fáceis que só trazem mais dinheiro ao sistema capitalista, ao invés de questionar o modelo de produção. Essa manipulação de culpa, diz ele, é uma forma moralista de inibir o enfrentamento e contribuir com essas respostas que, apesar de necessárias, estão longe de ser subversivas: “São soluções de pequeno alcance criadas pelo próprio capitalismo”, critica.  Para ele, o conceito de sustentabilidade é mito e a ecologia não deve ser vista como algo a ser resolvido simplesmente por medidas econômicas, e é nesse ponto que as catástrofes se apresentam como um problema político.
O pensador observou ainda que precisamos admitir que estamos entrando numa era antropocêntrica, porque o homem já pode afetar a terra em proporções globais. Para exemplificar, ele informou que líderes estão se encontrando para discutir intervenções na atmosfera com o objetivo de trabalhar contra o efeito estufa, por meio de enormes lentes para refletir a luz e outros mecanismos do capitalismo radical.
Nesse contexto, a mídia tem forte influência sobre o que nos é apresentado. De acordo com Zizek, a mídia americana há cerca de 4 anos falava que o aquecimento global era “coisa de comunista”,  e hoje admite o debate, mas divulga notícias por um ponto de vista mais equilibrado. Zizek trata da relação da mídia com essa chamada “política verde capitalista”, ao mencionar uma notícia que viu há 2 anos na CNN. “Eles falavam do ‘esverdeamento’ no  Canadá porque a calota polar está derretendo. E finalizavam demonstrando que em 2 ou 3 anos poderemos ter transportes de navio direto facilitando o mercado China-EUA”. Notícias como esta fazem com que questões catastróficas sejam vistas com um olhar otimista, explicou.
Nesse ponto ele lembrou dos argumentos da jornalista Naomi Klein, em seu livro A Doutrina do Choque, que mostram como foram solucionadas as catástrofes ecológicas que ocorreram nos últimos anos. No caso do tsunami no Sri Lanka, em 2004, e do furacão em Nova Orleans, em 2005, por exemplo, foram tragédias que aceleraram um novo “ímpeto de desenvolvimento capitalista”: a privatização de diversos serviços e um lucro astronômico para as empresas, sobretudo imobiliárias, em detrimento do povo local que sofreu com as calamidades. Com o desespero das pessoas em meio às desgraças, o sistema capitalista aproveita para implantar seu modelo econômico com mais facilidade e rapidez.
O despertar para novos caminhos
Zizek e Emir Sader, sociólogo brasileiro que anunciou novos debates nos próximos meses no Rio de Janeiro. Foto: Vitor Vogel/Fatos Sociais.

O esloveno não acredita que se deva criar um partido totalitário para propor um novo modelo de desenvolvimento, mas um partido em mudança. “A democracia social pra mim é o que pode fazer isto. Não podemos sonhar em abolir o Estado. O problema da nossa forma de ver o mundo é que não podemos contar com o que nós, marxistas, considerávamos: que a história está do nosso lado. Há uma necessidade e devemos ao menos saber que existe a possibilidade de assumir o poder mantendo-se longe do Estado”, diz.
Um problema apontado pelo escritor é que existe certo cinismo em relação ao que é dito ou não dito por autoridades e pela mídia. Ele lembrou do discurso apresentado à época pelos Estados Unidos, ao invadirem o Iraque, um país então desconhecido, em busca de armas que não existiam. E reforçou seu argumento com o recente discurso de Barack Obama sobre a Palestina, pedindo a Israel que volte às fronteiras estabelecidas em 1967, apesar de nada ser feito na prática: “Já era o discurso oficial, mas eles nunca intervêm. Essas grandes frases, a forma como operam no dia a dia prático, vêm com muita coisa implícita”, protesta.
“Hoje a ideologia é triunfante porque ela se apresenta como não ideologia, o neoliberalismo se apresenta assim. Não deixem o inimigo achar que ele é o que ele diz ser”, complementou Slavoj. Para fazer um enfrentamento a esse cenário, o intelectual propôs uma mobilização global fora do mercado e das regras que temos estabelecidas. “Não vamos, lógico, provocar um suicídio, temos que aceitar a democracia. Há problemas locais, mas estamos falando de catástrofes enormes. Devemos nos concentrar mais no problema e oferecer alternativas de como organizar a produção. Capitalismo não é só exploração, é forma eficiente de organizar produção”, afirmou.
“Tudo o que enfrentamos hoje é um problema comunista, comum”, advertiu: Ecologia, biogenética, propriedade intelectual, são alguns deles. O grande problema do capitalismo, para ele, é não lidar em grande prazo com a propriedade intelectual. “Como o Bill Gates se tornou o que é? Não fez lucro, não estava extra-explorando. Tem a ver com o aluguel, ele fez a privatização do espaço público. Marx falava do espaço coletivo, de práticas de conhecimento”, disse.
ZIzek finalizou citando Herbert Marcuse, da Escola de Frankfurt, no que diz respeito à liberdade. “Primeiro se liberta pra conseguir a liberação, essa é nossa tarefa. Hoje, talvez, nós intelectuais não conseguimos propor uma solução imediata, mas precisamos de uma mudança no espaço inteiro”.  Na sua visão, o papel do intelectual hoje é abrir às pessoas mais possibilidades, mostrar que alternativas são viáveis, e permitir que elas enxerguem os problemas mais adequadamente. Para ele, é só questão de tempo a ruína do capitalismo, pois o sistema global hoje parece invencível mas na verdade é frágil.
“Temos que mudar essa ordem louca de prioridade, não conseguimos enxergar o fim do capitalismo, simplesmente não conseguimos imaginar uma proibição. Podemos redefinir os problemas, ao invés de apresentar uma solução. A universidade nesse sentido é importante para acabar com esse sentimento eterno de culpa, às vezes imposto pela mídia. Temos que pensar, o nosso dever não é solucionar problemas definidos pelos outros. O pensamento livre é uma arma incrível, se não você já está fazendo o jogo do poder”, concluiu.
(*) Eduardo Sá é jornalista e editor do Fazendo Media, e Laís Bellini é estudante do 4º período de jornalismo na Unesp-Bauru.

3 comentários sobre “Slavoj Zizek no Brasil: “Não há uma solução simples, e a questão da ecologia é impregnada de ideologia””

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  2. que sujeito mais ididota. Ecologia, biogenética, propriedade intelectual, blá blá blá; o comunismo não tem mais freguesia então essa babaca tem que arranjar alguma estorinha né?

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