Cineasta Silvio Tendler lança o livro “Quatro baianos porretas”

Castro Alves, Milton Santos, Glauber Rocha e Carlos Marighella. Um poeta, um cientista, um cineasta e um guerrilheiro. Existe conexão entre esses importantes nomes da história brasileira, além de terem a Bahia como estado natal? Silvio Tendler, um dos grandes documentaristas do país que lançou recentemente “Utopia e Barbárie” (2010) acredita que sim. Conhecido como “o cineasta dos sonhos interrompidos”, dentre a sua extensa produção cinematográfica de cerca de 40 filmes entre curtas, médias e longas-metragens, Tendler dirigiu em diferentes momentos documentários que retratam a vida desses quatro baianos ilustres, ou porretas, como os caracteriza o próprio cineasta: “Castro Alves: o retrato falado do poeta” (1999), “Marighella: retrato falado do guerrilheiro” (2000), “Glauber, o filme: labirinto do Brasil” (2003), “Encontro com Milton Santos: o mundo global visto do lado de cá” (2007).
Não por acaso, agora o diretor está lançando um livro reunindo os roteiros integrais desses quatro filmes: “A matriz é Castro Alves. Glauber, Milton e Marighella eram castroalvistas. Todos admiradores do poeta, seus versos românticos e a verve revolucionária. Cada um deles foi Castro Alves, seja no cinema, na política ou na geografia, todos geniais”, explica Tendler. O livro, “Quatro baianos porretas”, está sendo lançado pela Editora Garamond e Editora PUC-RIO, junto com os quatro DVDs.
Castro Alves salta do século XIX em reconstrução documental. Pela ausência de imagens, Tendler lhe deu vida em um manifesto. Em “Marighella”, é a força libertária resistindo aos anos de chumbo que nos chama a refletir. Entre a realidade e o universo onírico, Glauber Rocha impôs aos brasileiros que era a hora e a vez do Terceiro Mundo. Este é o mesmo pensar de “Encontro com Milton Santos”. No momento em que o mundo aclamava a globalização neoliberal, Santos não se opôs pela negação, mas pela elaboração crítica sob os olhos de um mundo de exclusão.
O cineasta revela que na publicação do roteiro desses filmes vai um bom pedaço de sua vida, seus sonhos. “Eles representam o que sinto de uma vida revolucionária no mais amplo sentido do termo, seja no território de ação como a arte, a política ou a ciência e também nas atitudes de vida que os quatro sempre tiveram”, relata.
Ao final do livro, em uma longa entrevista que Tendler concede a Miguel Pereira, quando questionado a respeito do compromisso político do documentarista, diz que não é algo que ele obrigatoriamente tem que ter, mas que no seu trabalho não consegue ver a arte dissociada da política. “Gosto de interferir no mundo em que vivo. Contando histórias, formo consciências e como cineasta exerço minha cidadania. Meus modelos são artistas militantes, Boal e Thiago de Mello, por exemplo. Meu cinema é assim”, salienta para a Caros Amigos. Lembra também do conceito de “câmera militante” do documentarista Carlos Pronzato, “viajante solitário munido de uma pequena câmera, viaja buscando histórias como um navegador que vai desbravando territórios até então desconhecidos. Revelador no mais amplo sentido do termo, Pronzato é um companheiro da utopia”, conta.
No prefácio do livro, Orlando Senna brinca que muitas das ideias audiovisuais de Tendler ficam um tempo em maturação e quando menos se espera são lançadas, como julga ter acontecido com “Utopia e Barbárie”. Cita que um dos projetos que está em planejamento é o “Santiago de las Américas”, a respeito do cineasta cubano Santiago Álvarez. Se será seu próximo filme, no entanto, permaneceremos na curiosidade apesar de Silvio Tendler ter afirmado que pretende terminar o filme logo, “sem dúvidas”, mas faz uma confissão ao não elencar quais serão os próximos projetos: “Atualmente são tantos que me recuso a nomear todos para não correr o risco de ser chamado de mentiroso. Sonhador, sim”.
(*) Matéria publicada originalmente na página da Caros Amigos.

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