Serra 2010: um necrológio antecipado

O tedioso debate eleitoral da rede Record foi apenas mais um prego no caixão das aspirações presidenciais de José Serra.

Lutando por pequenas vantagens que não seriam suficientes para alterar o quadro cada dia mais consolidado — como a tentativa de demonstrar que não é o único privatizador, com insistência tão exagerada que irritou o mais paciente dos telespectadores –, ele só conseguiu mostrar-se de novo impotente para sobrepujar nitidamente sua adversária.

Ora, sabe-se desde o início da campanha que, sem a nocautear, Serra jamais contrabalançaria a enorme popularidade do patrono de Dilma Rousseff.

Vitória apertada por pontos, o máximo que se pode atribuir-lhe, nunca bastou. São necessárias razões fortíssimas para o eleitorado trocar o certo pelo duvidoso. Em dúvida, pro continuidade

Então, a penúltima refrega só fez aumentar a saturação de quem a acompanhou e nada forneceu de bombástico que possa ser utilizado no horário eleitoral.

Bem vistas as coisas, Dilma foi até mais eficiente em encurralar o antagonista, nos quesitos  geração de empregos (alguém deveria, contudo, dar-lhe o toque de que o Governo Lula, ao criar o  TRIPLO de postos de trabalho do Governo FHC, produziu  DUAS VEZES MAIS empregos, e não três…) e promessa quebrada (de cumprir até o último dia seu mandato de prefeito).

Serra ainda ensaiou tímidas refutações no primeiro tópico e fugiu do segundo assunto como o diabo da cruz.

Só que, com isto, deixou uma considerável nódoa em sua biografia. Cansa de afirmar que sua trajetória fala por si, mas nada tem a declarar sobre o fato de ter assumido publicamente um compromisso solene e não o haver honrado, colocando as conveniências políticas acima da palavra empenhada.

Como eu também estou saturado, tomarei emprestado do colunista Fernando de Barros e Silva o necrológio da candidatura de Serra, que pode ser feito com cinco dias de antecedência, sem risco nenhum de erro, porque a fatura já está liquidada:

“Este (…) segundo turno (…) já acabou. Por exaustão. Por carência de ideias. Por excesso de chatice. Pelas falsas polêmicas…

“Acabou, antes de mais nada, porque Dilma Rousseff deve ser eleita no domingo, a não ser que José Serra produza em cinco dias o milagre que não foi capaz de fazer desde que se lançou, em abril.

“Tem-se, hoje, a impressão de que o tucano não encontrou o tom da campanha e esgotou suas armas. Quais foram elas? Um capacete na cabeça e um crucifixo na mão.

“A insistência no tema do aborto, com o trololó religioso que durou semanas, e a valorização estridente da agressão de que foi vítima no Rio são sintomas de um candidato sem foco, desesperadamente em busca de algo em que se agarrar.

“Só isso explica, também, o acesso populista do tucano austero, que promete elevar o salário mínimo a R$ 600, aumentar em 10% o valor da aposentadoria e pagar 13º para os beneficiários do Bolsa Família. Serra quis parecer o Lula do Lula.

“Mobilizando a agenda conservadora ou mimetizando a pauta petista, o tucano apostou sempre e tão somente em si mesmo, na sua capacidade de fazer, mandar, decidir.

“Pode soar estranho, porque se trata de um personagem doente de tão racional, mas Serra é um candidato com forte traço messiânico.

“Mas o que ou quem ele quer salvar? Os pobres? A democracia? Os valores da família? A nossa fé? Apesar de ser mais aparelhado do que sua adversária, o tucano se desvirtuou no processo eleitoral, sem, no entanto, conseguir romper o encanto do lulismo nem propor uma discussão séria do país, que fosse além da sua obsessão pessoal”.

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