Sem Rumo Certo

Imagem retirada do Google

Naquela parada de ônibus, ouvia-se o barulhinho da chuva, todo mundo encolhidinho, um frio danado, ninguém conversava. Cadê coragem? De repente, o silêncio era invadido por aquela estrondosa conversa:

– E aí, “véi”, tudo em cima?

– Aí, mano, o ônibus tá demorando, tá ligado?

– É, meu, tanta chuva! Já tô ficando todo encharcado, véi, tá ligado? Tô gelado igual sorvete, véi!

– Assim, meu, nem dá vontade de ir pra escola, tá ligado? E por falar em escola, véi, eu detesto! Pense numa coisa que odeio! Na boa, se eu pudesse, acabava com todas escola, tá ligado? De bom, só tem as “mina” e as merenda, isso quando tem.

– Falar a verdade, mano, na boa, eu também. Esse papo de escola me tira do sério, tá ligado? Essas escola são um tormento pra nós, heim, meu?

– Véi, eu também não suporto, cara! E a mãe o tempo todo buzinando, pegando no meu pé, me azucrinando, tá ligado? Aquela coroa enche o meu saco. Tua mãe também te enche as “paciença”, com esse negócio de escola, meu?

– Véi, falar a verdade, todas mãe é igual, tá ligado? Na boa, só muda “mermo” os endereço.

– Ô meu, me diga “mermo” pra que esse negócio de escola? Heim, meu? Se a gente “veve” bem assim, tá ligado? Nosso futuro, heim mano, a gente já sabe: pá! pá! pá! Pôu! Né mermo, véi?

– É isso aí, meu!

– Ei, Véi, o ônibus tá chegando, tá ligado?

– Tô ligado, mano! Vumbora nós tudo!

E, embaixo da minha sobrinha, eu nem falava, só pensava: “É, meus irmãos, que vocês “vevem”, mas não existem para muita gente, disso ninguém tem a menor dúvida; mas é impressionante o quanto “estão desligados”! Desligados da vida, do mundo, de uma boa educação, desta sociedade que também os desliga e exclui.

Senti compaixão desses e de tantos jovens nas ruas do nosso país. Vítimas da exclusão social e, sendo negros e pobres, a situação se complica ainda mais. Não existem para muitos, às vezes, nem para eles mesmos. Vivem perdidos, sem rumo, sem perspectivas de vida digna. E numa sociedade onde todos precisam “se ligar”, compreendo que a nossa responsabilidade só vai aumentando, dia após dia, e cada vez mais.

PerYaçu

Bananeiras-PB: novembro de 2016

Veraperiassu

Escrito por Vera Periassu veraperiassu@gmail.com
Educadora popular, cordelista e escritora

Fonte: Blog Medium, 7/9/ 2024

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