Santidade: Privilégio de uns ou vocação de todos?

No início dos anos 70, ainda recém-casado com Elena, costumávamos ir até o sítio de seus pais, Sítio Quandus, próximo à vila de Xucuru, município de Belo Jardim – PE. Leitor voraz, em semelhantes ocasiões, costumava me munir de alguns livros e revistas, para ler em tempos propícios. De preferência, em cima de uma grande e alta pedra no Sítio dos Quandus. Desta vez, me fiz acompanhar, entre outros textos, um número da revista Concilium, na qual se achava um belo artigo de autoria de Eduardo Hoornaert, cujo título se aproximava dos termos acima mencionados.

Sempre me/nos incomodava e incomoda a versão mais comum de santidade como um privilégio de pouca gente, enquanto no texto neotestamentários (cf. Ef 4, por exemplo) e nos documentos conciliares, em especial a Lumen Gentium, a constituição conciliar sobre a Igreja, particularmente em seus números 39-42, este aspecto vem bastante claro: a santidade não deve ser tratada como um privilégio de poucos.

Mais uma vez, no dia 1º de novembro (a ser celebrado em menos de duas semanas), a Liturgia da Igreja Católica dedica este dia à rememoração e homenagem aos Santos e Santas de todos os tempos. Uma ocasião propícia para revisitarmos esta vocação. Motivos não nos faltam, inclusive, pelo fato de uma tendência preocupante, entre os católicos, de se atribuir a santidade apenas a figuras – em sua enorme maioria masculinas – a quem recebeu a canonização, após a beatificação. Em outras palavras, santos e santas são aqueles que são canonizados, isto é, que foram apontados pela hierarquia eclesiástica como merecedores da veneração nos altares.

Por outro lado, sabe-se que o processo de beatificação, primeiro passo para a obtenção da canonização, constitui um processo que envolve procedimentos questionáveis. Principalmente, o reconhecimento de algum milagre feito pela aquela figura. Tal procedimento causa mais confusão do que esclarecimento, à medida que, com base nas escrituras e nos próprios textos do Concílio Vaticano II, percebemos que a ênfase é na santidade enquanto uma resposta à vocação, um chamamento a todos e não um privilégio para honrar um pequeno grupo.

Com certeza, somos gratificados por termos uma lista dos santos e santas, tantas figuras veneráveis, cujo testemunho profético, de mártires, de confessores e confessoras, nos reanima a fé e representa um legado vivo para servir como orientação para o Seguimento de Jesus. Isto ocorre em relação a tantas figuras queridas, tais como Maria Madalena, Estêvão, João Crisóstomo, Francisco de Assis, Clara, Oscar Romero, para citar apenas estas figuras. Ao mesmo tempo, não podemos esquecer que, devido aos limites humanos, somos instados a duvidar dos critérios que permitiram a canonização de parte expressiva de figuras humanas, cujas trajetórias de vida não sinalizam, de modo convincente para os caminhos do Seguimento de Jesus. Com efeito, parte expressiva de canonizados e canonizadas tem pouco a ver com os ensinamentos e a prática de Jesus de Nazaré.

Em nossos dias, ainda o processo de canonização segue permeado de muitos questionamentos. Não raro, nos vemos em um frenesi de esforços de santificação de figuras – grande parte do clero ou de religiosos e religiosas – cujo testemunho tem muito a ver com causas etéreas, abstratas com uma espiritualização excessiva da vida cristã, que pouco tem a ver com o legado de Jesus de Nazaré, de seus discípulos e discípulas, das primeiras comunidades cristãs, de gente que testemunhou, por vezes com a própria vida, sua fé, a serviço da causa do Reino de Deus e de sua Justiça. Ainda que muitos dos canonizados tenham esta marca, não podemos ignorar que a enorme maioria é elevada à santidade, em razão de seus vínculos com a hierarquia e com um estilo de vida separado do mundo, desconhecendo que os discípulos e discípulas de Jesus são chamados, não a se separarem ou a condenarem o mundo, mas a nele viverem e darem testemunho, em busca de sua salvação, e não de sua condenação.

Ao comemorarmos, mais uma vez, o Dia de Todos os Santos e Santas, somos chamados a reavaliar nossa resposta à vocação à santidade, bem como os esforços vigentes que são feitos para a elevação aos altares de figuras pouco comprometidas com o Reino de Deus, e sua Justiça, e com muita frequência, em razão de um espiritualismo excessivo, que não tem base no Evangelho.

Neste sentido, ao mesmo tempo que seguimos alimentados pelo exemplo profético de personagens como Pedro Valdo, Marguerite Porete, Jan Huss, Thomas Müntzer, As Beguinas, José Antônio Ibiapina, Alberto Hurtado, Oscar Proaño, Antônio Conselheiro, Gandhi, Martin Luther King, Hélder Câmara, José Comblin, Dorothy Stang, Paulo Evaristo Arns, Antônio Batista Fragoso, Almeidinha, Elvira Paes, Elizabeth Teixeira, Margarida Alves, Margarida Lucena, Agostinha, Zarita Siebra, Jacinta, Genevieve, Roberto, Vicente, Luiz, Neuza, Soledade, Nilza, João, Urbano, Júlio Lancellotti, Ítalo, sem mencionar a imensidão de pessoas anônimas do povo dos pobres, cujo testemunho profético não cessam de alimentar nossa fé.

João Pessoa, 19 de outubro de 2021.

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