Resenha – Looking for Eric

Por Raquel Gandra, de Cannes

O novo filme do irlandês Ken Loach, Looking for Eric, é bem distante do tom severo e histórico de seu último, The Wind that shakes the barley, vencedor da Palma de Ouro em 2006. Dessa vez, Loach resolveu ir por um lado mais cômico, ainda que tocando assuntos sérios e importantes, como família, amigos, medo e reparações.

Um carteiro cinquentão desmotivado com sua vida e com questões mal resolvidas de seu passado passa a receber conselhos de seu jogador de futebol preferido, Eric Cantona, após uma crise de depressão. Essa descrição provavelmente parece um tanto quanto estranha e abstrata. Não é necessário, porém, tentar entender como esse encontro fantástico se dá ou o quanto de realidade há nele. O importante é saber o contexto desses personagens: trabalhadores representantes de uma comunidade inglesa menos favorecida, loucos por Manchester United que se juntam entre amigos toda semana para tomar uma pint no pub.

Looking for Eric é uma comédia muito bem feita, com excelentes atuações (com destaque para Steve Evets) e ótimos personagens secundários. Vários detalhes como: os provérbios indecifráveis de Eric Cantona, inspirados numa conferência de imprensa que este deu na vida real enquanto ainda jogava ou a obsessão de Meatballs (melhor amigo do protagonista e líder do grupo) em tentar resolver todo tipo de problema através de livros que pega na biblioteca ou simplesmente a paixão doentia pelo futebol dão vida e verdade aos personagens e nos proporcionam muitas risadas.

Na conferência de imprensa, alguns comentários interessantes foram feitos. O ator Steve Evets admitiu ter desenvolvido forte paixão por futebol após as filmagens. Passei a frenquentar muito mais os jogos… Agora vejo os movimentos dos jogadores quase como um balé.

Eric falou sobre sua experiência no filme e expressou seu desejo de continuar na carreira de ator. Não cabe a mim dizer se sou um ator ou não, e sim aos espectadores. Mas se depender de minha vontade, vou seguir explorando essa nova paixão que descobri após ter perdido a que tinha pelo futebol.

Já Ken Loach comentou um pouco esse inesperado redirecionamento pelo cômico: A comédia é uma tragédia que termina bem. Com isso, mostrou um pouco seu entendimento da comédia não como um gênero menor ou menos sério, e sim apenas como outra forma de se mostrar os acontecimentos, de se narrar uma história.

E completa: Tudo que pedi aos meus atores foi verdade. Seja lá o que fizerem, façam com verdade. Às vezes esta apareceu de forma engraçada e outras de tristeza.

Pode não ser uma grande inovação técnica e estética ou um filme de grandes complexidades, mas são duas horas em que nos emocionamos, rimos, nos identificamos e nos inquietamos. Uma comédia com tons dramáticos cujos personagens nos inspiram e que figura uma bela mensagem contida nas falas de Cantona: My sweetest moment wasn’t a goal. It was a pass. – O meu melhor momento não foi um gol, mas sim um passe. E também: You always have to trust your team. – Você tem sempre que confiar na sua equipe.

A história de Eric, xará de seu ídolo, é apenas um dos possíveis caminhos para se falar sobre seu grupo, essa coletividade que no final das contas é quem fornece a força a seus membros como indivíduos.

Para os interessados, aqui vão alguns links:
http://www.lookingforericmovie.co.uk/

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