Cannes 2009: uma introdução

Por Raquel Gandra (*), direto de Cannes

Festival de Cannes, um dos mais importantes festivais do mundo, que reconheceu obras prima do nosso cinema como Vidas Secas e Terra em Transe, mantem esse ano seu interesse pelo cinema brasileiro através de filmes de Heitor Dhalia (A Deriva) e do querido Eduardo Valente (No meu Lugar) e comemora seu 62o aniversário.

Festeja-se igualmente os 50 anos passados da primeira exibição do longa de estréia de um polêmico crítico do cinema francês e defensor da política de autores nos anos 50. François Truffaut pisou no tapete vermelho e foi um dos que, ao lado de Jean Cocteau, presidente do júri naquele ano, levantou o jovem ator Jean Pierre Léaud após arrebatar o Prêmio da Mis-en-scène, em 1959.

Marco do início da Nouvelle Vague, reconhecedor de talentos do Cinema Novo e ponto de partida para o reconhecimento internacional de cineastas como Ingmar Bergman, o Festival de Cannes tem muitas histórias pra contar.

Este ano é a primeira vez que esta que vos fala tem a oportunidade de presenciar tal evento. Visualmente, Cannes parece uma mistura de Copacabana, Ipanema e Los Angeles. De manhã a cidade ainda está acordando, vemos as lojas de marca, a praia invadida por barracas brancas que ao longo da noite abrigaram festas particulares, o tapete vermelho se preparando pra mais um novo dia e as filas de espera se formando.

Quando vai chegando o meio da tarde, as ruas vão se fechando, os grandes carros desfilam lentamente, impedidos pelo fluxo de passantes tentando se apertar na calçada, as roupas vão ficando cada vez mais elegantes e a multidão se junta para ver as celebridades passarem.

A impressão é de deslumbre, a atmosfera é de sonho. Ver Quentin Tarantino de costas ou Ang Lee com a equipe de seu novo filme posando para as fotos é incrível.

Mas não se enganem, Cannes não se resume ao mundo de fantasia e ilusão. As longas filas no sol, as muitas regras em relação aos diferentes crachás na “cadeia alimentar” por uma entrada, o mau humor de certos funcionários e a rejeição em diversas sessões nos lembram a pôr os pés no chão.

Devemos lembrar também que, mais do que tudo, o Festival de Cannes é um dos maiores mercados de filmes do mundo. Daqui, muitos deles vão fazer carreira por aí afora, que comédias, dramas e até filmes bizarros russos sobre nazismo (Hitler goes Kaput) são comprados para serem distribuídos. É algo muito específico para a imprensa, os compradores e os artistas. Todos que não se incluem nessas categorias acabam sendo deixados de lado, de quina, bem na esquina, lá no fundo. Mas no final acaba dando tudo certo.

Pretendo fazer uma reportagem em partes. Esta primeira como uma introdução ao Festival como evento em geral. A seguir, pretendo falar um pouco sobre os filmes, as reações e um pouco do meu diário como espectadora (des)privilegiada.

(*) Raquel Gandra é editora de artes, cinema e assuntos fins da Revista Consciência.Net.

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