
Sthefany Brito aponta como a estratégia reativa de Washington tem sido adotada para frear ascensão chinesa.
Lucas Estanislau, Rodrigo Durão e Tabitha Ramalho / Brasil de Fato – O Estrangeiro,
Os Estados Unidos se colocaram em um comportamento de “desespero” devido às estratégias utilizadas para travar uma batalha econômica e política contra a China e que foi falha. Em entrevista ao o podcast O Estrangeiro, do Brasil de Fato, a coordenadora da Secretaria da Assembleia Internacional dos Povos, Sthefany Brito, e o correspondente internacional do BdF Mauro Ramos analisaram a crescente fragilidade do império estadunidense no ano de 2025.
“A reunião da Organização de Cooperação de Shanghai (OCS) foi um golpe forte, pela a aliança com países fora da Ásia, inclusive alguns que são parceiros dos EUA. Por conta disso, Washington se sente ameaçado pela possibilidade de Pequim avançar em ‘territórios’ que são seus parceiros tradicionais. Num segundo ponto, o banco de desenvolvimento da OCS anuncia a possibilidade de ter o comércio em outra moeda que não seja o dólar, causando uma preocupação para a crise norte-americana que se apoia na estabilidade a partir da dependência de outros países em sua moeda”, explica.
Na avaliação da especialista, também é observado que os caminhos que a China está começando a traçar para superar o dólar como moeda internacional se tornam um “golpe muito duro” para os Estados Unidos. “E certamente o segundo elemento que coloca nessa posição de fragilidade é a participação do Modi [primeiro-ministro da Índia] na reunião da OCS, que sinaliza que, apesar de ser um parceiro importante dos EUA, terá uma política exterior que não será ditada por Washington”, acrescenta.
Dessa maneira, esses fatores – somados à inconsistência do processo de paz na Ucrânia e às declarações do secretário de Estado Marco Rubio, que vê a esquerda latino-americana como ameaça – são situações que explicam a estratégia da Doutrina Monroe para “os EUA enfrentarem seu enfraquecimento”.
Ramos complementa a análise de Brito pontuando que nesse segundo governo de Donald Trump, China já estava mais preparada politicamente, mais desenvolvida em tecnologia e economicamente em outros setores, como o das terras raras. Com o tarifaço do republicano, Pequim foi o país que respondeu com mais veemência e tarifas na mesma medida. “As reuniões que foram feitas entre Xi Jinping e Trump, foram quase sempre a pedido de Washington”.
“A China este ano mostrou os limites do império norte-americano, não em nível mundial, devido a grande presença militar estadunidense e através da força do dólar. Mas, em relação à China, ficou completamente evidente as limitações dos EUA para impor políticas”, defende.
O correspondente do BdF acrescenta que o mundo estava “um pouco distraído” e não percebeu a capacidade chinesa: “não só de ter acesso à quantidade de minerais referente às terras raras em seu território, como também ter dominado a tecnologia de processamento industrial das terras raras”. Ou seja, isso significa o “enforcamento da indústria de semicondutores nos EUA”, conclui Ramos.
O retorno da Doutrina Monroe
O tema que escalou, principalmente no segundo semestre de 2025, foram as ofensivas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na América do Sul, com o foco maior na Venezuela e o governo de Nicolás Maduro. Além de sancionar Caracas e confiscar petroleiros, na mais recente ofensiva a Casa Branca anunciou o bloqueio total contra os navios petroleiros que saem ou entram na Venezuela.
Mauro Ramos explica que a partir do documento de Estratégia de Segurança apresentado pela Casa Branca é perceptível declarações com implicações diretas para o Hemisfério Sul, ainda que sem mencionar nominalmente a América Latina, ao citar que “os EUA devem desenvolver parcerias regionais através de um processo interinstitucional com agências de inteligência para identificar pontos de recursos estratégicos”.
Uma diferença em relação a documentos anteriores é a mudança do foco do “terrorismo”. Antes dirigido ao Estado Islâmico (Isis) ou à Al Qaeda, o termo agora se volta para a América Latina, com ênfase no “narcoterrorismo”.
“Isso é um sinal de mudança, o documento de estratégia de segurança dos EUA deixa, pela primeira vez em mais de 20 anos, de falar sobre a guerra ao terror e de mencionar o Oriente Médio, passando a focar quase em termos de guerra econômica na América Latina e na China”, destaca Ramos mostrando uma grande mudança ideológica no tom.
Para o especialista, trata-se claramente de “uma intensificação e reivindicação” da Doutrina Monroe na América do Sul. “A primazia que os EUA querem colocar na região está diretamente vinculado à China, que mesmo sem ser mencionada no documento, Pequim, ainda que não mencionada nominalmente, é posta como um grande competidor que, a partir de fora do hemisfério, realiza incursões para desfavorecer Washington economicamente no presente e prejudicá-lo no futuro”, conclui.
O podcast O Estrangeiro vai ao ar toda quarta-feira, às 11h, no Spotify e no YouTube.
Editado por: Maria Teresa Cruz
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