Quem é negro no Brasil?

Letícia Parks | Revista Casa Marx Edição 31-08-2025

Introdução à edição da Revista Casa Marx

Nos últimos dias vimos o debate sobre o conceito de parditude crescer entre intelectuais negros e negras, para além da já suscitada discussão que toma as redes sociais. A atriz Camila Pitanga viralizou afirmando que é “negra e não mulata” no programa “Mano a Mano” do rapper Mano Brown, defendendo seu direito à autodeclaração e como se vê enquanto mulher negra. Desde a semana passada, nos propusemos a debater o tema da parditude, criticando este conceito como uma proposta política antirracista reformista que atenua as contradições sociais da miscigenação desde uma perspecitiva biologizante da identidade, ao mesmo tempo que serve à hegemonia burguesa, por não ter como o objetivo a unidade entre negros de pele clara e retintos.

Como uma forma de seguir este debate, estamos reproduzindo o artigo nesta edição, “Quem é negro do Brasil?” de Letícia Parks do livro Mulheres Negras e Marxismo publicado em 2021. Nele o tema da identidade negra e da miscigenação são debatidos a fim de mostrar como o objetivo de apagar a identidade negra levado à frente pela classe dominante no Brasil sempre foi um tema central para a dominação de classe. Combinado a isso, a democracia racial surgiu como um desdobramento dessas inúmeras tentativas de construção de uma suposta identidade nacional “harmoniosa”, enquanto o negro era o que mais sofria com a repressão policial e o trabalho precário.

Letícia Parks, se apoia no legado deixado pela 3ª geração do movimento negro que levou à frente a batalha pela unidade entre os negros contra a violência racista da ditadura militar. Nos apoiamos nessa tradição para combater todas as tentativas da burguesia brasileira de separar a identidade negra da classe trabalhadora, para que não sirva como uma fortaleza no enfrentamento cotidiano do racismo e do capitalismo. A defesa do antirracismo socialista e revolucionário aparece como uma arma de combate dos trabalhadores e das trabalhadoras, resgatando o legado do marxismo revolucionário e da questão negra, como forma de preparar a luta contra o racismo numa perspectiva anti-imperialista, sem conciliação com a burguesia e pela unidade de todos os setores oprimidos.

Essas reflexões políticas e estratégicas são essenciais para os debates que estão surgindo hoje acerca da identidade negra, autodeclaração e miscigenação no Brasil. Indo além, elas também fornecem bases teóricas para refutar o conceito de parditude, pois mostram como esses tipo de teorização nega a relação da identidade negra e da luta de classes e a afirmação do negros como sujeito de sua própria história, elementos fundamentais da luta antirracista e anticapitalista.

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Eu cansei de ter que sempre falar de coisas ruins que aconteceram comigo pra legitimar minha negritude pra sociedade. No fim das contas eu passo pelos mesmos abusos, meu corpo é objetificado da mesma forma, eu sou estereotipada igual

Ana125

O Brasil tem uma das histórias mais macabras da formação da identidade nacional, da qual o racismo em distintas versões compõe esse cenário. Se postular como país independente não se deu junto com a abolição, pelo contrário. A burguesia brasileira sustenta décadas de sua independência convivendo com o trabalho escravo e aumentando o seu pavor de que a brutalidade lançada contra as massas negras se tornasse uma revolta definitiva contra a opressão racial.

A identidade negra está intrinsecamente ligada à luta de classes. Seja no Brasil ou em qualquer outro país com população negra. Neste país de uma burguesia profundamente racista, a identidade nacional se articula com a negra de distintas maneiras, em distintos momentos. Neste artigo, vamos tratar brevemente de alguns desses momentos na tentativa de refletir sobre a pergunta: quem é negro no Brasil?

Racismo e identidade nacional

No Brasil do século XIX, a emancipação política de Portugal esteve diretamente relacionada à busca de uma identidade nacional que pudesse definir “o que é ser brasileiro?”. Como um conceito construído historicamente, a ideia de uma identidade que definisse o que é ser brasileiro sempre foi pautada pelos interesses da classe dominante. É nesse marco que se fazia candente uma importante contradição: as ideias liberais burguesas, que fizeram parte da nascente burguesia brasileira não se encaixavam à independência do país, não se encaixavam muito bem em um país escravocrata, baseado no latifúndio. Dessa forma, o lugar das amplas massas negras escravizadas era um tema fundamental para a definição de uma identidade nacional brasileira, especialmente no pós-abolição.

O racismo e as teorias raciais que floresceram naquele século, tiveram bastante influência sobre como a nascente burguesia iria moldar a ideia do que é ser brasileiro, o seu ideal de nação. Como aponta a professora Lilia Schwarcz em Nem preto, nem branco: muito pelo contrário, a busca de uma identidade nacional sempre foi marcada pela ausência, pela representação do que não somos. E nesse processo de afirmação de uma identidade, sempre muito conflitante, a miscigenação foi tomada por vários teóricos como o grande diferencial do Brasil.

No pós-abolição, existiu um grande debate com visões divergentes sobre a presença do povo negro e seus reflexos na sociedade brasileira. Uma visão era a que considerava a mestiçagem como algo negativo, que levaria à falência da nação. Um dos seus grandes expoentes era o médico baiano Nina Rodrigues, que baseando-se nas teorias eugenistas da época, defendia a ideia de que a mistura das as raças humanas levaria a uma degenerescência coletiva, já que considerava o negro numa fase de desenvolvimento humano anterior ao branco. Chegou a propor leis mais brandas para os negros porque comparava sua consciência a de uma criança. Outro expoente dessa visão é Euclides da Cunha, que em sua grande obra Os Sertões, oscilava entre considerar o mestiço um forte ou um desequilibrado, mas terminava por defender que a mestiçagem extremada era um retrocesso para a formação da sociedade brasileira.

A outra visão, denominada romântica, é a representada pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), um “laboratório ideológico” do Império, que idealizava os “bons nativos”, inspirados na teoria do filósofo Rousseau, para defender a ideia de que nosso país se assemelhava a um grande e caudaloso rio onde se misturavam brancos, pretos e amarelos, de forma harmoniosa e sem conflitos. Como se não houvesse uma história de 400 anos de luta e resistência contra a escravização colonial.

Posteriormente, nos anos 1930, o mestiço se transformou num ícone nacional. Se antes a miscigenação era vista como um problema e era necessário buscar o branqueamento da “nação”, agora a miscigenação é valorizada como uma marca do que define ser brasileiro. Um

processo de valorização de uma cultura diversa, enquanto na prática negros, indígenas e seus descendentes continuavam sendo alvos do preconceito. É dessa visão que se gesta o mito da democracia racial.

Como explica Lélia Gonzalez:

No lastro do todo das questões raciais que estão colocadas, o que se percebe é que estamos num país em que as classes dominantes, os donos do poder e os intelectuais a serviço dessas classes, de fato, não abrem mão de uma nacionalidade brasileira; nacionalidade esta que implicará efetivamente a incorporação da cultura negra. Quando se analisa José Bonifácio, patriarca da Independência, que luta pela abolição do tráfico negreiro, constata-se, por exemplo, que seu ideal de nação partia da perspectiva de uma nação homogênea, e a heterogeneidade, a diferença que estava tão presente, para ele era justamente o negro, a presença negra. Então não é por acaso que se vai constatar no século passado, por exemplo, esse tipo de projeto de construção de uma identidade nacional que se forma, de condes, barões etc. a partir da Independência, de um modo geral nos remetem a nomes indígenas, todos, na costa brasileira. Já não havia ninguém para contar a história, ou alguns desses indígenas tinham sido expulsos para as regiões mais inóspitas do interior do país. E é um processo complexo a busca de legitimação de uma identidade a partir de uma ancestralidade indígena, justamente porque esse índio não está mais aí.126

Todas essas teorias se davam, é claro, a partir das contradições da luta de classes e das necessidades da classe dominante de atenuar os conflitos para manter sua dominação. O que significava tentar apagar da história a luta e resistência do povo negro, apagar o peso da identidade negra na própria conformação do que seria vendido como a ideia de uma identidade nacional. A retórica da democracia racial, que por um lado reivindica a presença negra na cultura nacional para com a outra mão tirar ou negar direitos, reparação ou outras medidas que reconheceriam a violência da formação história do país, não consegue ser resolvida através exclusivamente da garantia de direitos, um recurso comum ao se denunciar a tese como mito. A exigência de uma “verdadeira” democracia racial perpassou os escritos de muitos intelectuais pioneiros nessa denúncia. A luta por direitos elementares é fundamental como parte de um enfrentamento mais profundo com a ordem social que legitima essa ideologia. As formas de democracia possível em um país estruturalmente dominado pelos interesses do imperialismo variam no seu grau de autoritarismo, mas não conseguem se desvincular do racismo como ferramenta de divisão de uma classe trabalhadora profundamente explorada.

Um negro vem vindo, é branco! Só bem perto fica negro, Passa e torna a ficar branco127

Durante [um] tempo eu fiquei confusa com o preto e o pardo, e agora que eu estudei e percebi que sou preta […] tem aqueles que ainda usam a paleta de cores para determinar o racismo que sofremos. Negro/Preto não é aquele que bate exatamente com o estriótipo

Sah

Os institutos de pesquisa brasileiros oficiais – como o IBGE – nunca reconheceram a existência da identidade negra. Somos obrigados na autoidentificação a escolher entre os termos “preto” e “pardo”. Além dessa confusão semântica, outras se incluem no doloroso drama da identidade: forçados pela ideia de que branquear é moralmente melhor, uma enorme massa negra no curso da história nacional buscaram incorporar uma autoidentificação que aproximasse de uma declaração de si como branco, ainda que vivenciando o racismo. Explica Kabengele Munanga:

Parece simples definir quem é negro no Brasil. Mas, num país que desenvolveu o desejo de branqueamento, não é fácil apresentar uma definição de quem é negro ou não. Há pessoas negras que introjetaram o ideal de branqueamento e não se consideram como negras. Assim, a questão da identidade do negro é um processo doloroso. Os conceitos de negro e de branco têm um fundamento etno-semântico, político e ideológico, mas não um conteúdo biológico. Politicamente, os que atuam nos movimentos negros organizados qualificam como negra qualquer pessoa que tenha essa aparência128.

Nesse sentido, a reivindicação do branqueamento – a ideia que percorreu o século XX no Brasil que estimulava a vinda de europeus para tornar o país branco – por parte da burguesia nacional levou a que se dificultasse o processo de reconhecimento de si como negro. Nomear-se negro, mais do que ser uma identidade por décadas inexistente nos centros de identificação, nos institutos de pesquisa, é também um ato que perpassa processos individuais particularmente complexos. É possível que alcançar esse reconhecimento de si como parte desse grupo exija, por vezes, a subversão de um sentido comum de que ser é negro é moralmente ruim.

Ou seja, em primeiro lugar de reconhecer o direito a autodeclaração de todo indivíduo que se reconheça como negro e queria afirmar essa identidade, num país marcado pelo racismo e o mito da democracia racial. Nesse sentido nos afastamos totalmente das ideias coloristas que buscam definir os contornos da opressão racista diferenciando as tonalidades da pele dos negros, como se a diferença entre elas gerasse algum benefício para os negros de pela mais clara. Foi apenas em 2010 que, com a publicação do Estatuto da Igualdade Racial, se reconheceram pretos e pardos como negros, mas isso não fez com que esses setores estivessem separados estatisticamente frente ao racismo.

Como demonstra a jornalista Bianca Santana em seu artigo, Nossa negritude de pele branca não será negociada129:

Segundo dados divulgados pelo IBGE em 2017, enquanto o rendimento médio real de um trabalhador branco era de R$ 2.660 e dos pretos era R$ 1.461, o do pardo era R$ 1.480. Percebem a vantagem social? Do mesmo modo, enquanto o desemprego entre brancos era de 9,5%, dentre os pretos era de 14,4%, dentre os pardos era 14,1%. Sei que os dados cansam. Apresento só mais alguns. Dentre as empregadas domésticas, 50% são pardas (as quais somam 40% do total de mulheres), 13% pretas (quando são 8% do total de mulheres), 35% brancas (47% das mulheres).

Esses dados mostram o que muita gente expressa nas redes sociais, como o depoimento incluído acima. A pele clara não elimina o racismo, apenas dificulta a identidade. E aí estão os números: pretos e pardos – categorias “fabricadas” pelos institutos de pesquisa – vivem as mesmas marcas sociais do racismo. Essa divisão fabricada tem história.

Muitos de vocês já devem ter ouvido falar do Haiti. Esse país foi palco da primeira revolução negra no mundo, colocando em questionamento quando aconteceu a ideologia burguesa e a escravocrata ao mesmo tempo. Exigia-se liberdade, igualdade e fraternidade incorporando o discurso iluminista e ao mesmo tempo se separando dele, já que a revolução no outro continente não havia impedido que a escravidão seguisse viva nas colônias. A vitória do povo haitiano percorreu as Américas, instalando medo de rebeliões nas elites e desejo de revolta nas mentes escravas – que eram negros e indígenas.

No Brasil esse medo foi avassalador, porque a grande maioria da população aqui era negra e escravizada. Imaginem o medo da classe dominante diante da possibilidade de se repetir em nosso país o que aconteceu no Haiti, já que a composição populacional era bem parecida. Esse medo da possibilidade da luta de classes é uma das bases da tese do branqueamento pela via da imigração. Europeus chegavam ao Brasil para formar uma camada proletária ultraexplorada, porém branca. Chegaram a teorizar sobre o desaparecimento da população negra, manifestando o desejo de que em 2012130, nossa população seria composta por 80% de brancos, 20% de mestiços e nenhum negro131. Nada mais distante da realidade do país mais negro fora do continente africano.

Uma tese diferente buscou também suavizar a presença negra no Brasil. O processo real de mestiçagem que ocorreu em nosso país – que combinava métodos violentos com o desenvolvimento natural de misturas entre povos – foi utilizado para promover a ideia de que negras e negros teriam sido substituídos por um povo mestiço – nem branco nem negro – que também não seria vítima de racismo, uma ilusória e enganosa “superação das raças” que conduziria a um país sem racismo.

Essa promoção de um projeto de país que superaria as contradições raciais através seja do branqueamento, seja da formação de um povo mestiço, se expressou tanto na teoria, quanto na política e na arte. Romances como Iracema e Macunaíma, de distintas formas, saúdam a mescla superadora do povo brasileiro.

Aqui novamente retomamos o professor Kabengele Munanga:

Podemos observar que o conceito de raça tal como o empregamos hoje, nada tem de biológico. É um conceito carregado de ideologia, pois como todas as ideologias, ele esconde uma coisa não proclamada: a relação de poder e de dominação. A raça, sempre apresentada como categoria biológica, isto é natural, é de fato uma categoria etnosemântica. De outro modo, o campo semântico do conceito de raça é determinado pela estrutura global da sociedade e pelas relações de poder que a governam. Os conceitos de negro, branco e mestiço não significam a mesma coisa nos Estados Unidos, no Brasil, na África do Sul, na Inglaterra, etc. Por isso que o conteúdo dessas palavras é etno-semântico, político-ideológico e não biológico.132

O branqueamento – a forma brasileira da eugenia – e a mestiçagem como superadora do racismo são duas teses que perpassam a formação da identidade nacional brasileira e concorrem ainda hoje pela sua predominância no discurso político sobre o racismo. Tem sido corriqueiras as declarações de distintos atores do regime autoritário brasileiro, fruto do golpe institucional, que buscam fortalecer, por exemplo, a ideia de que não haveria racismo no Brasil, articulando uma resposta ao movimento internacional de luta negra que se apoia justamente na denúncia da existência do racismo e promovendo novamente através do discurso de Estado a negação do racismo tal qual se fez durante a primazia da tese da democracia racial. O General Mourão, por exemplo, frente ao assassinato de Nego Beto pelos seguranças de um Carrefour em Porto Alegre, ousou dizer que não haveria racismo no Brasil. Se sente no direito de dizer isso porque, nas palavras dele:

Eu digo para vocês o seguinte, porque eu morei nos EUA: racismo tem lá. Eu morei dois anos nos EUA, e na escola em que eu morei lá, o ‘pessoal de cor’ andava separado. Eu nunca tinha visto isso aqui no Brasil. Saí do Brasil, fui morar lá, era adolescente e fiquei impressionado com isso aí.133

No mesmo momento, Bolsonaro faria uma declaração dizendo “Como homem e como Presidente, sou daltônico: todos têm a mesma cor. Não existe uma cor de pele melhor do que as outras. Existem homens bons e homens maus”. No texto, disponibilizado em suas redes sociais no mesmo dia 20 de novembro em que Mourão se pronunciou, Bolsonaro exalta o país “miscigenado”. O militar que maneja o racismo “explícito” para negar o “velado” e o presidente que nega o racismo pela miscigenação articulam em duas frentes a recuperação das teses racistas que impactam na enorme dificuldade de perceber tanto o racismo quanto de reivindicar uma identidade negra, preparando o terreno para dividir dentro das fileiras operárias aqueles trabalhadores que clamam aos seus companheiros que somem no combate contra a opressão racial.

Referências intelectuais como Abdias do Nascimento, Lélia Gonzalez, Solando Trindade, entre outros, dedicaram uma enorme parte da sua trajetória intelectual para desmontar a farsa de que existiria democracia racial aqui, ou de que a mestiçagem teria gerado uma realidade intermediária entre negros e brancos – os pardos? – que não sofreria racismo. Recuperar esse combate passa, necessariamente, por negar teses como o colorismo, que apesar de se postularem antirracistas, tratam a realidade do racismo como uma experiência quantificável pelo tom da pele, de certa forma afirmando a tese da mestiçagem como anuladora do racismo. Esses intelectuais tinham um entendimento muito mais profundo sobre as contradições em torno da identidade racial do que qualquer teoria neoliberal poderia ter, como o colorismo atua como ferramenta de divisão entre os próprios negros. Esses intelectuais pioneiros nos debates críticos de os efeitos do racismo em negros tanto de pele clara como de pele escura.

As massas negras – que todos esses intelectuais reconheciam ser a soma do que as instituições do Estado chamavam de pretos e pardos – eram privadas da sua identidade racial, o que leva a um problema importante que é a dificuldade de se opor a um inimigo, porque ele está invisível. Por outro lado, a democracia racial sozinha é relativamente frágil como mecanismo de divisão das fileiras operárias entre negros e brancos, como foram as leis Jim Crow no EUA que diretamente impediam o convívio nos mesmos bares, restaurantes, segregava ônibus, etc. As contradições do racismo no Brasil ser mais “escondido” – muito mais antes do que agora, quando distintos institutos de pesquisa já verificaram o reconhecimento massivo da existência do racismo – é unilateral a visão que considera apenas o racismo velado como obstáculo para a conformação de uma identidade negra de massas. Com medidas de combate ideológico e político no seio da classe trabalhadora, a vanguarda consciente teria sido capaz de alastrar ódio antirracista no Brasil com certa mobilidade, ainda mais frente ao histórico de luta negra e da presença constante de eventos que reafirmam a existência do racismo no país.

Muitos desses intelectuais terminam, dessa forma, por absolver a política de conciliação de classes e a falta de uma política hegemônica por parte das direções da esquerda e do movimento operário no Brasil, principalmente o PCdoB e o PT. A luta contra a burguesia é decisiva para um antirracismo profundo. Nesse marco, temos que lutar contra todas as formas de opressão, com uma política de unidade das fileiras operárias, como quando trabalhadores efetivos da USP se lançaram como apoiadores das lutas de trabalhadoras terceirizadas da mesma universidade, ou quando distintas categorias operárias se somaram ao combate contra a violência policial racista nos EUA exigindo a expulsão dos policiais de seus sindicatos. Em meio a esse processo, o ódio contra a opressão racial da maioria da população brasileira será a maior fortaleza da classe trabalhadora brasileira, e uma injeção de ânimo nos oprimidos e explorados de todo o mundo. Uma política de unidade das fileiras operárias seria obrigada a combater todos os aspectos do “racismo velado” brasileiro, e contribuiria para o desabrochar sem receio e com toda energia a identidade negra.

Somos negros, e isso é importante de dizer para que possamos nomear nosso inimigo, mas nomear nossa identidade é um passo de uma longa caminhada que também é composta pela superação da separação entre econômico, político e ideológico nas nossas lutas cotidianas, uma tarefa que precisará se contrapor com a tentativa permanente das burocracias sindicais de manter essa separação. Essa é uma luta de toda a nossa classe contra o capitalismo, pois os contornos que delimitam o grau de opressão que sofremos todos os dias, não são as diferentes tonalidades da nossa pele, mas sim a classe social a qual pertencemos.

Identidade negra e programa socialista

Galera do movimento negro, a que fala sobre panafricanismo, e etc, desconsidera seu discurso por você se basear na pauta marxista/socialista […] isso porque justificam dizendo que não há recorte de raça no socialismo e avaliam os partidos políticos de “esquerda” como brancos

Lucas

As confusões alimentadas sobre o tema da identidade alcançam o terreno da negação de teorias e estratégias porque seriam supostamente “brancas”. A partir do debate levantado neste artigo, é importante apontar duas conclusões fundamentais: a primeira, de que a identidade que um indivíduo se vincula é insuficiente para imprimir a esse mesmo indivíduo uma premissa política, importa muito o terreno desse combate que leva adiante contra o sistema de miséria que se aproveita do racismo para perpetuar a exploração; a segunda, de que se o racismo é uma ferramenta para dividir a classe trabalhadora, o povo pobre, as mulheres, os homens, a superação dessa ideologia macabra passa necessariamente pela unidade das fileiras operárias e o rechaço a qualquer divisão.

O marxismo é, nesse sentido, uma ferramenta fundamental. Em primeiro lugar porque assume como seu terreno de batalha a luta de classes, como norte, uma vida sem opressão e exploração, e como meio para isso, a revolução. Qualquer tentativa de nos separar dessa teoria só pode buscar cumprir a função de nos impedir de chegar a sínteses poderosas para as massas negras, como a de que policiais não são trabalhadores, de que não aceitaremos mais ter nosso trabalho roubado de nós todos os dias, que não viveremos mais numa sociedade em que nosso suor alimenta o luxo de alguns. É se apoiando no marxismo e na sua trajetória ao longo dos séculos XIX, XX e XXI que se pode dizer que “o trabalho de pele branca não será livre enquanto o de pele negra for marcado a ferro”134, parafraseando o Marx da década de 1860. Nos inspiramos em Leon Trótski, quando diz que “devemos buscar o caminho da consciência dos operários negros, dos operários chineses, dos operários indianos, de todos os oprimidos do oceano humano das raças não brancas, cuja palavra é decisiva para o desenvolvimento humano”135.

A luta por um antirracismo socialista e revolucionário, conectada com a massa negra e proletária do país, na batalha por construir uma sociedade que supere a divisão entre as classes e todas as opressões que sustentam essa divisão, está na ordem do dia desde os primórdios do sistema capitalista, e foram também os marxistas os primeiros a construir a tese internacional de luta negra da história no qualreconheciam o combate antirracista como uma tarefa internacional dos revolucionários que em 1922 compunham as fileiras da Internacional Comunista. Lá, diriam que “a luta internacional da raça negra é a luta contra o capitalismo e o imperialismo”136. E recuperar o marxismo como ferramenta para a construção de uma estratégia de combate no terreno da luta de classes é um dos maiores trunfos que nossa geração pode fazer, mas para isso, é preciso se separar das revisões grotescas do marxismo que na história negaram a luta negra e se solidarizaram com as burguesias nacionais. O stalinismo, em qualquer lugar do mundo, significou um retrocesso para a unificação entre a luta negra e a luta de classes, e no Brasil, contribuiu enormemente para a naturalização do mito da democracia racial. Essa tendência política que por décadas assumiu o lugar de “marxismo oficial” atuou frente à luta negra com um discurso de que a luta de classes vai emancipar os negros de forma imediata, se tornando uma via distracionista que remete a luta contra o racismo a um futuro distante. Esse discurso serviu ao mesmo tempo para justificar uma prática cotidiana não-radical, adaptada às possibilidades de conciliação com a “burguesia nacional”, sem qualquer atitude radical e independente da classe trabalhadora no combate ao racismo no conjunto da história dos distintos partidos stalinistas do mundo.

Por isso, a teoria-programa da nossa época só poderia ser a teoria da revolução permanente, que reúne as principais sínteses de Leon Trótski na batalha pelos princípios marxistas frente às experiências revolucionárias do século XX. Nessa teoria, Trótski explica que qualquer demanda democrática – como é a luta contra o racismo – encontra seus limites dentro da democracia burguesa, e que, portanto, só pode caber à luta independente da classe trabalhadora o combate contra o racismo, o patriarcado, e em defesa de qualquer direito democrático mínimo ou radical. Confiamos que a classe trabalhadora, negra e branca, é a única que ao se unificar, levantando com um só punho os combates de cada povo oprimido como seu, pode levar adiante a mais decidida batalha antirracista e anticapitalista abrindo o caminho para construção de uma nova sociedade, em que não existam mais as divisões que hoje são impostas pela burguesia. Fomos internacionalmente submetidos pela nossa origem nacional ou pela cor da nossa pele, e é por isso que contraditoriamente, a força do nosso combate se soma e se fortalece também na arena internacional, onde a identidade negra se conecta com a identidade de todos os povos oprimidos na luta contra o capitalismo e o imperialismo.

NOTAS

125. Neste artigo foram incluídos depoimentos transmitidos por redes sociais às organizadoras. Os nomes foram preservados para proteger a identidade dessas pessoas.

126. Democracia racial: uma militância, p. 310. Disponível em: Lélia Gonzalez: por um feminismo afro latino americano. Zahar: 2020.

127. Mario de Andrade, Garoa do meu São Paulo, em Lira Paulistana, São Paulo, Livraria Martins Editora, 1946, p. 12.

128. Kabengele Munanga, A difícil tarefa de definir quem é negro no Brasil. Disponível em: <http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40142004000100005> Acesso em 6 fev. 2021.

129. Bianca Santana, “Nossa negritude de pele clara não será negociada”, em jornal UOL. Publicado em 28 jul 2020. Disponível em <https://www.uol.com. br/ecoa/colunas/bianca-santana/2020/07/28/nossa-negritude-de-pele-clara-nao-  sera-negociada.htm>. Acesso em 11 fev 2021.

130. Em discurso de 1912, Gobineau, um importante defensor da tese do branqueamento, faz esse prognóstico em um discurso.

131. Lilia Schwarcz, Nem preto, nem branco: muito pelo contrário, São Paulo: Claro Enigma, 2013.

132. Kabengele Munanga, “Uma abordagem conceitual das noções de raça, racismo, identidade e etnia”, Palestra do 3º Seminário Nacional Relações Raciais e Educação-PENESB-RJ, 05/11/03.

133. Guilherme Mazui, “‘No Brasil não existe racismo’, diz Mourão sobre assassinato de homem negro em supermercado”, G1, Brasília, 20/11/2020.

134. Karl Marx, O capital, livro I, São Paulo: Boitempo, 2011, p. 372.

135. Leon Trótski, “Mais perto dos proletários de raça ‘não branca’!”, em Marcello Pablito, Daniel Alfonso e Letícia Parks, A revolução e o negro, Edições Iskra, 2019, p. 159-161.

136. III Internacional Comunista, “A questão negra: Resoluções do IV Congresso da III Internacional Comunista – 1922”; idem, p. 44.

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