Quando o vai e vem do mercado destrói uma paixão

RETRATOO futebol de antigamente movia multidões. Era uma paixão arrebatadora que cada brasileiro tinha pelo seu time. As conversas, em qualquer idade ou meio que fosse, tinham que passar pelos comentários e gozações futebolísticas. Aquilo fazia parte do bom convívio entre os brasileiros. Bom, não quero começar comparando o futebol de ontem com o de hoje, quero contar a história do Barbosa.
Barbosa era camelô ali na Rua do Catete. Na verdade, poucos sabiam que seu nome era Barbosa, ou melhor, seu segundo nome, porque o primeiro nem eu sei. Aquele homem baixo, inchado de cachaça, era conhecido no bairro como Mengão. Ou seja, o sujeito, para grande massa que o cumprimentava, dia após dia, não tinha identidade própria.
A profissão de camelô não era bem uma escolha, foi o que lhe restou de opção depois de tantas demissões. O motivo das dispensas era sempre o mesmo: viajava o Brasil atrás do Flamengo, faltando ao trabalho. Quando tudo ia muito bem e todo mundo achava que o sujeito ia completar um ano de carteira assinada, o time do coração chegava a uma decisão fora do estado e o dia de trabalho era substituído por uma fanática caravana.
Nas orações de fim de ano, na praia do Flamengo, preparava o barco para Iemanjá todo pintado de vermelho e preto. Junto ao barco iam os pedidos para o ano seguinte: que a diretoria mantivesse o elenco, que a estrela do juvenil despontasse no profissional e principalmente, que o título perdido no ano anterior viesse no ano que estava por chegar.
Camisa do clube tinha aos montes. Barbosa só andava fantasiado de Flamengo. Era um personagem do bairro, e era aquilo que o fazia se sentir importante.
Até que os rumos do futebol começaram a mudar. Mesmo com a elitização dos estádios, que excluiu praticamente todos os companheiros de arquibancada, Barbosa resistia. Fazia milagres para conseguir acompanhar o time: trabalhava mais, comia menos, sacrificava o passeio de fim de semana com a mulher. O fato de Barbosa continuar frequentando o estádio, com ingressos tão caros, foi motivo de desconfiança até de parte dos companheiros. Ouviu-se, em bocas miúdas o seguinte comentário: “aqueles carregadores de celular que o Mengão vende é disfarce. O homem deve tá é mexendo com parada errada”.
Acontece que não foi somente a elitização dos estádios que mudou o futebol.
Todo início de ano, quando se abria o mercado da bola, supostas contratações surgiam nos jornais: “Vem ai o craque uruguaio, Hernandez Guerreiro”.
Barbosa comemorava como ninguém. Besta que era saia pelas ruas do Catete gozando os torcedores rivais, já se apropriando da suposta contratação. E elas realmente aconteciam.
Na estreia, sempre com estádio cheio, Barbosa era um dos muitos que festejavam a chegada do novo ídolo. O grande problema era que para contratar um craque, diversas promessas da base tinham que ser vendidas. Mas Barbosa não se rendia e justificava: “É triste, mas infelizmente o clube precisa de caixa.”.
Mesmo com muitas dívidas na praça, Barbosa pouco se importava com a sua situação precária. Preocupava-se mais com a saúde financeira do clube do que com a sua. O que realmente importava era o time que estava sendo montado para a temporada: Hernandez Guerreiro no ataque, Assunção no meio e a volta do já veterano Paulo Barreira na zaga.
A temporada começava devagar. Lá pelo terceiro mês em atividade é que o time começava mostrar evolução. Com algumas jogadas ensaiadas e uma sintonia crescente entre os craques, a torcida já começava a sentir cheiro de título.
O que Barbosa não contava era com mais uma abertura do mercado no meio do ano. O craque Hernandez Guerreiro recebia uma proposta irrecusável de um time europeu. Outros mais, indispensáveis ao time eram vendidos. O clube, ludibriando os milhares de torcedores, justificava que a ida dos craques era importante para manter as contas em dia e prometia para o ano seguinte um time forte e competitivo.
A verdade que o mercado era devastador e não dava trégua. De tempo em tempo vários nomes vinham e muitos outros iam. Ninguém mais criava identidade com o clube, ninguém se emocionava com um gol, com a vitória. Título era coisa dos milhares de Barbosas. O que os jogadores e os diretores queriam eram alavancar as finanças e promoções individuais. E para isso, compra e venda eram fundamentais.
Nosso Barbosa foi esmorecendo com tudo isso. As idas ao estádio foram ficando reduzidas. Passou a falar menos de futebol, o que o fazia ficar sem assunto. Mas sem o futebol, o que seria de Barbosa? Afinal de contas, era conhecido regionalmente pelo clube que torcia.
Aí veio a solução: ali perto do trabalho, nos campos do aterro, tinha um time que vinha se destacando pelas jogadas criativas e pelo empenho coletivo. Tinha até alguns vizinhos que jogavam pelo time. E foi nessa que Barbosa embarcou. Passou a depositar suas paixões e frustrações no Fla-Bandeja, time de garçons que jogava toda terça-feira nos campos do aterro. E, agora, Barbosa destacava-se ainda mais: era o primeiro e único torcedor daquele time que jogava com raça, amor e paixão e nunca por dinheiro.

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