Pra não dizer que não falei de moribundos

moribundosQUEM FICA VIVO ENCONTRA infalivelmente no que morre a razão que o levou a morrer, um motivo, uma deficiência da qual ele próprio carece. “De que morreu?” “De câncer no pulmão”. “Fumava muito, não?” “Não”. “Não pode ser”. “Pois fique sabendo, ainda que você não fume, do mesmo jeito um bruto câncer pode atacar teu pulmão e tchau…” (Imagem da Internet: http//blogcanoro.com.br)
Feliz é o filósofo argentino José Pablo Feinmann que se diverte ficcionando sobre a (im)possibilidade de não conceder audiência à Inominada e sobre a derrota de quem morre e a superioridade de quem vive.
O que diria nosso bravo deputado Chico Pinto, baiano ex-prefeito cassado de Feira de Santana-Bahia, opositor destemido da ditadura militar? Perto de morrer, ao conversar sobre temas como morte e ateísmo, comentava sabiamente: não posso discorrer muito à vontade sobre isso pois brevemente estarei por lá me batendo com o Homem.
Meu amigo Rui Viana, parceiro de juventude e de brilho nos campos de futebol da Chapada (interior da Bahia), espírita praticante, não perde a chance de me alfinetar:
– Meu amigo aqui diz que é ateu. Quero ver quando ele estiver pra morrer…
A verdade é que chega uma fase da vida em que, na roda de amigos, nos bares e botecos, não falamos mais de trabalho, futebol, aventuras, mulher, daquela “última e definitiva paixão” e, nem tampouco, de política – das misérias do capitalismo e suas desigualdades sociais obscenas, da corrupção de empresários, políticos, jornalistas, juízes…, e nem das belas utopias da já distante juventude…
Não, infelizmente. Falamos agora – demais! – dos índices de colesterol, pressão e diabetes, das dores na coluna, da demência precoce que atacou um irmão, dum tiro que um assaltante acertou no pescoço de outro irmão, do câncer de um, da depressão de outro, da prostatite, da advertência do médico para que se pare de beber e de fumar…
– Mas, doutor, meu irmão, praticamente da minha idade, não bebia nem fumava e hoje tá fudido.
E aquele parceiro de copo (Juraci Viana – Cici, Medonho, também da Chapada) a me dizer: “Já pensou se fosse um de nós? Todo mundo ia dizer que era a cachaça…”
E o exercício forçado e disfarçado do “ideal” uma vez manifestado pelo grande surrealista Buñuel em sua fascinante autobiografia (‘Meu último suspiro’): a libertação da tirania do sexo.
E a doçura da criança a recitar:
“A morte
A morte é feia e preta/ninguém se livra dela/livro-me eu porque tenho um tostãozinho/compro uma panela/me meto dentro dela/e a morte ao passar dirá:/aqui não tem ninguém/adeusinho” (desculpe o “feia e preta”, antigamente a cultura racista podia se explicitar sem peias).
Pra desanuviar, lembro o Dr. Pereira, personagem do filme ‘Páginas da Revolução’ (assisti com este título, se não me engano, se passava em Portugal durante a ditadura de Salazar):
Dr. Pereira era editor de Cultura de um jornal e vivia azucrinando o juízo do diretor pra contratar um jovem redator. Queria preparar, com a devida antecedência, uns necrológios, pois sua editoria não podia ser pega desprevenida quando do desenlace de artistas/escritores/poetas pátrios, tantos já notoriamente a chegar à hora.
Topou um dia o diretor num bar/restaurante e não perdeu a oportunidade. Foi lá com a costumeira cortesia e renovou seu pleito, já com um tom de certa angústia: mas respeitosamente, “senhor diretor…”
Acontece que nosso diretor estava a se divertir muito bem acompanhado por uma bonita moça e não aguentou tal “assédio”. Com aquele ar cínico peculiar dos importantes executivos, replicou:
– Mas, doutor Pereira, eu estou aqui em companhia de uma rapariga jovem e sensível, e o senhor vem me falar de moribundos!?
E, finalmente, como disse na abertura, feliz é o filósofo argentino José Pablo Feinmann…
Traduzo: Quem morre, é derrotado. Sempre quem permanece vivo se sente superior. “Se matou, idiota. Bem que eu avisei: não fume tanto.” Quem fica vivo encontra infalivelmente no que morre a razão que o levou a morrer, um motivo, uma deficiência da qual ele próprio carece. “Fumava muito”. “Bebia como um louco”. “Era um drogado”. “Se arrebentava todo. Não se pode fazer isso. No final o corpo te trai”. Ou também: “De que morreu?” “De câncer no pulmão”. “Fumava muito, não?” “Não”. “Não pode ser”. “Pois fique sabendo, ainda que você não fume, do mesmo jeito um bruto câncer pode atacar teu pulmão e tchau…” Ninguém se esconde da Morte. Está dentro de nós. Está num dos becos interiores de nosso corpo traidor. Qualquer dia, uma coisinha qualquer insignificante lhe anuncia a pane, o coração não trabalha mais, não te bombeia, ou trabalha demais e te enche de células defeituosas, más, que te invadem e te dominam… (extraído de ‘Peronismo – Filosofía política de una persistencia argentina’, volume 2, página 763).
Feinmann está falando de Perón, que voltou à Argentina já moribundo após 18 anos de exílio forçado, foi eleito presidente em 1973 e morreu menos de um ano depois, deixando o país nas mãos do “bruxo” sanguinário López Rega (El Brujo), que – dizem e o filósofo demonstra acreditar – massageava a próstata do general.
E Feinmann, exercitando seu lado ficcionista, especulava então sobre a (im)possibilidade do poderoso general/presidente abrir uma vaga na sua concorrida agenda para conceder uma audiência à Morte.
(Mas eu desisti de localizar esta parte no livro: afinal, são 1.600 páginas, 2 volumes. E o artigo já cresceu em demasia…)
PS 1: Escrevi pensando especialmente no meu irmão Stimison e meu primo Eudaldo. Vivemos juntos o deslumbramento da adolescência – compartilhamos, por exemplo, as emoções da primeira namorada – e agora, meio distantes, enfrentamos os medos do murchar da vida.
PS 2: Filosoficamente:
A serenidade diante da morte é uma mentira, que me perdoem meus amigos e amigas espíritas (a imagem acima é uma concessão às teorias da imortalidade da alma);
Para compensar:
A morte não existe para quem morre (frase atribuída à filósofa francesa Simone de Beauvoir, conforme li ou ouvi por aí).
(*) Artigo publicado originalmente no DiaeNoitenoAr.

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