Pisar, sim, mas só quem está no chão

Gustavo Barreto

Sem meias palavras, tratam-se de atos de covardia o que fizeram jornalistas, editores e agregados que se sujeitam a explorar imagens de sofrimento das vítimas do vôo 3054 da TAM. Falo por experiência própria, por já ter perdido um amigo em uma situação adversa e inusitada, e também pelo senso ético que apreendi durante o curso de comunicação que fiz e durante a prática da profissão.

Em primeiro lugar: atitude criminosa da imprensa, tipificada pela legislação vigente, ao utilizar imagens indevidamente, sem autorização prévia das pessoas. Mas não haverá denúncias quanto a este crime, porque a cabeça de uma pessoa está a mil, com sentimentos intensos, singulares e insuportáveis. Alguém se pergunta o que acontece neste momento de dor e perda? São pessoas em crise profunda, em choque profundo.

E como a imprensa os recebe? Respeito e ponderação? Não, filmam tudo e tornam público – de forma criminosa, insisto. Em nome da suposta “denúncia” de quem quer que seja, parentes das vítimas ficam à mercê da insensibilidade plena e irrestrita.

Previsível, numa sociedade que paga por uma imprensa que praticamente não faz autocrítica e não possui o menor nexo causal para abordar assuntos pertinentes à vida – vide cobertura da crise aérea que falha quanto ao critério da segurança das vidas humanas, conforme abordado aqui.

Exemplar, tal como todos os impérios, a atitude de pisar em muitos, sim. Mas só naqueles que estão no chão, sem qualquer chance de defesa e à mercê do processo decisório.

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