Perfume

iStock – pcatalin

Noravides era uma mulher que não tinha uma beleza de chamar a atenção, mas possuía luz própria, charme, elegância e boa educação.

A todos tratava com cordialidade, não fazendo discriminação entre o rico e o pobretão.

Quando passava, deixava o balanço dos seus passos na imaginação daqueles que a observava e o seu perfume entre as partículas do vento a soprar.

Bom dia, boa tarde, boa noite, obrigada, por favor, faziam parte do seu modo de todos tratar.

Dirigia cedo para o trabalho, após aquele banho caprichado, com a roupa arrumada e o cabelo ajeitado, ora preso, ora nos ombros meio cacheados.

Lá vinha ela subindo as escadas e adentrando na repartição. Alguns da janela já admiravam, lá vem a loura com seu vestido marcado, meia fina, bolsa, sapato alto e o cabelo arrumado.

No elevador, quem dentro estava, sentia bem próximo o perfume da mulher aromatizada e o seu cheiro ali ficava.

A fragrância vinha da nuca, debaixo dos cabelos aloirados; era ela a mais cheirosa, assim era o comentário.

Mas seu companheiro nunca apreciou as qualidades e o perfume da mulher que o amava, não sei se por arrogância, ciúme ou por não saber falar, nada dizia, preferia ignorar. Mas ela percebia que nas outras ele tudo via, cortejava-as e ainda sorria para agradar.

Cansada de ser ignorada, um dia ela foi embora, pegou algumas peças e partiu. Ele, sem nunca esperar que o deixasse, não acreditou no que viu.

Sem palavras, ternura, amor, Noravides assim se sentiu. Foi embora e nunca mais voltou, o seu aroma no ar para sempre naquela casa deixou.

Seu companheiro agora sobrevive com o perfume nas paredes, na cama vazia, nos vestidos deixados, nos retratos apagados, foi se embora a mulher que ele não soube respeitar, admirar, muito menos amar……

Ana Amelia Guimarães meliaguima@gmail.com

5 comentários sobre “Perfume”

  1. Que texto tocante, Ana Amélia. A história de Noravides é um retrato delicado e profundo da força silenciosa de uma mulher que, mesmo sem os holofotes da beleza convencional, irradiava presença, dignidade e afeto. A forma como você descreve o perfume que permanece no ar, mesmo após sua partida, é poética como se a essência dela tivesse se tornado parte da própria memória da casa. Bravo!!!

  2. Que texto tocante, Ana Amélia. A história de Noravides é um retrato delicado e profundo da força silenciosa de uma mulher que, mesmo sem os holofotes da beleza convencional, irradiava presença, dignidade e afeto. A forma como você descreve o perfume que permanece no ar, mesmo após sua partida, é poética como se a essência dela tivesse se tornado parte da própria memória da casa. Parabéns!

  3. Assim como no filme ” Perfume de Mulher ” emoções foram despertadas em momentos mais inesperados…

    Uma mulher que através de seu perfume escondia sentimentos e desejos não correspondidos, e que ao mesmo tempo esse perfume espalhava um grito de alerta e socorro.

    Noravides não percebia o que estava a seu lado e deixou escapar o que havia de melhor em sua vida.: uma mulher sensível, educada, comprometida e fiel a seus valores, decidida e guerreira.

  4. Texto bonito e forte, querida amiga!
    Infelizmente o caso de Noravides se repete muito! Já vi muitas histórias assim. Me pergunto o que se passa em homens assim. Talvez um bom divâ pudesse ajudá-los a receber amor e atenção e perceberem que retribuir é maravilhoso. O amor compartilhado é uma delícia que alguns não sabem aproveitar.
    Espero que Noravides tenha encontrado um amor de verdade! Beijos!

  5. Gratidão pelos comentários das amigas Anna Lucia, Lourdes e Celeste, mulheres fortes que perceberam a dor e o abandono de Noravides pelo homem que partilhava a vida com ela e de muitas outras mulheres que vivem ou viveram essa indiferença.

Deixe uma resposta