Para além do bullying

bullyingSerá mesmo que o bullying, termo da moda utilizado para designar perseguições e agressões psicológicas sofridas por crianças e adolescentes, está mesmo tão em voga que, dos anos 90 pra cá, vingar-se do cruel mundo em que vivemos, matando os colegas de escola e/ou faculdade, passou a ser mais comum?

Seria, de fato, inquestionável que, até o fim do século passado, quando a expressão cunhada por especialistas era sequer conhecida, conflitos entre jovens em escolas e faculdades tinham menor intensidade? Se afirmativo, até se poderia compreender porque respostas agressivas como as de Columbine (EUA, 1999) não ocorriam com a mesma freqüência. No entanto, tal entendimento não foi, ao que parece, constatado por estudo sociológico conhecido.

Por que será então que, justo agora, quando o Brasil demonstra todo seu poderio econômico, relativa estabilidade político-institucional e, veja só (!), até um fortalecimento da classe média, com a ascensão das classes C e D, uma tragédia do tipo se abateu sobre uma escola pública carioca? (Para os que não sabem, o carioca Wellington Menezes de Oliveira, de 24 anos, entrou, na manhã da última quinta-feira, 7/4, na Escola Municipal Tasso de Oliveira, em Realengo, Zona Oeste do Rio de Janeiro, e matou 12 crianças, ferindo outras 13, todas entre 12 e 14 anos, e se suicidou após o ataque. Wellington era ex-aluno da instituição).

Objetiva e certeiramente é impossível responder a essa questão. No entanto, acredito haver algumas razões centrais para os “novos” acontecimentos, para além da versão predominante de profissionais, como os que foram convidados a dar explicações em rede nacional para a atitude de Wellington. Isto é, há algo de ulterior (e podre, diga-se de passagem), que, possivelmente, supera e está na base mesma dessa anomalia contemporânea.

Era de se esperar que nem os psicólogos, psiquiatras e sociólogos que falaram à Grande Mídia, muito menos os âncoras e repórteres dos principais conglomerados de comunicação brasileiros, mencionassem aspectos como o da extrema agressividade contida nas veiculações publicitárias que bombardeiam os cidadãos-potenciais-consumidores de boa parte do mundo. Era também previsível que não questionassem a validade de um sistema de organização socioeconômica que faz da competição, da meritocracia individual e da busca cega pelo lucro seus principais vetores e, consequentemente, que não associassem seu modus operandi aos tiros em Columbine, Stuttgart (2009), Finlândia (2008), Virginia (EUA, 2007), entre outros, e, agora, Rio 2011.

Do mesmo modo, não pegaria bem se tais profissionais, seja os da área de saúde mental ou os das humanidades, ao invés de falarem em psicopatia ou falta de acesso à educação adequada, resolvessem dizer que “é, temos de aceitar que, com o tão esperado desenvolvimento, antigos problemas cessam, mas novas mazelas aparecem”.

Caro leitor, não se pode encarar como absoluta surpresa o que aconteceu na escola carioca. Infelizmente, a tragédia ocorrida na Zona Oeste da cidade deve ser tida como pedra fundamental, como um marco que inaugura ou, ao menos, é sintomático de uma nova fase que o país adentra.

Economia mais forte e mercado mais robusto trazem consigo não só desigualdade social, como também mais ganância, mais desejos inatingíveis, mais vontade de consumo, inveja e, finalmente, um sentimento de solidão, de isolamento e raiva por parte daqueles que não conseguem se inserir no parque de diversões da Zona Sul do Rio de janeiro, sentindo-se cada vez mais desprezados e excluídos.

Congratulações, Brasil. O país estamos de fato entrando para o time dos grandes.

5 comentários sobre “Para além do bullying”

  1. O texto é bom, mas “um sentimento de solidão, de isolamento e raiva por parte daqueles que não conseguem se inserir no parque de diversões da Zona Sul do Rio de janeiro, sentindo-se cada vez mais desprezados e excluídos” eu achei leviano. Nem como metáfora funciona muito bem…

  2. Rodolfo, entendo seu comentário perfeitamente. Relendo agora, também tenho essa sensação. Mas é difícil não ser leviano falando de assunto tão complexo num pequeno texto para a web. Acho que teria de escrever um artigo acadêmico para não soar tão ingênuo.

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  4. Finalmente, alguém consegue enxergar além do que a mídia diz e além do próprio fanatismo religioso que mascara um dos verdadeiros problemas da nossa sociedade.

    Meu questionamento, contudo, vai sobre outro trecho: “Por que será então que, justo agora, quando o Brasil demonstra todo seu poderio econômico, relativa estabilidade político-institucional (…)”.

    Não creio que o fato de que ser potência econômica ou possuir estabilidade institucional evite problemas em questões sociais. Não sei se o argumento foi retórico, mas ele me pareceu bem deslocado do contexto. Opinião minha, contudo.

    Infelizmente, nossa sociedade é muito “primitiva” quando se trata de debater tais assuntos. Até mesmo contatos que considero mais intelectualmente abertos criam que o assassino “nasceu maligno” e não foi fruto de um contexto social.

    Parece-me que ao nosso povo brasileiro, render-se ao ódio e à aversão é muito mais fácil do que analisar a situação.

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