Os dilemas de Israel

Por Abdel Latif Hasan Abdel Latif, palestino, médico (*)

Israel foi criado há um pouco mais de 62 anos. Um projeto colonialista europeu no coração do mundo árabe que enfrenta semelhantes dilemas que outros colonialistas em outras experiências enfrentaram.

Israel deve sua existência, desde a criação até hoje, ao apoio incondicional das forças imperialistas – desde o falido império britânico até o atual império ianque.

Os ingleses, durante seu “mandato” na Palestina – 30 anos de ocupação militar -, de1918 a 1948, preparam o terreno para a construção do Estado judeu naquela região.

A imigração de centenas de milhares de colonos judeus da Europa para a Palestina foi possível apenas com a ajuda do governo britânico.

A criação e treinamento dos grupos militares sionistas – Haganah, Irgun, Stern – foi obra do governo de ocupação militar inglesa.

Ao mesmo tempo, os imperialistas ingleses destruíram qualquer possibilidade de os palestinos criarem instituições nacionais, matando e encarcerando suas lideranças.

Quando o governo britânico declarou sua intenção de abandonar a Palestina em 1947, as condições eram propícias não apenas para a criação de Israel, mas também para a destruição da sociedade palestina e suas estruturas.

Durante os últimos sessenta anos, a situação pouco mudou: dependência total do Estado judeu do apoio imperialista de britânico a ianque; tentativas sionistas sucessivas de impor uma solução final dos palestinos.

De fato, Israel se transformou em uma potência militar, econômica e tecnológica no Oriente Médio. Possui forças armadas capazes de enfrentar os exércitos regulares dos países árabes vizinhos.

Apesar da sua inequívoca superioridade militar, Israel não conseguiu se transformar em um país normal.

A anormalidade daquele Estado às anormalidades de todo e qualquer projeto colonialista, independentemente das justificativas, apoio recebido ou do sucesso alcançado.

Essas anomalias colonialistas terão implicações decisivas na política israelense e são, ao mesmo tempo, os dilemas que o governo e a sociedade israelense enfrentam hoje.

São eles:

1º) A crise de identidade

Israel, geograficamente, situa-se no Oriente Médio, mas não conseguiu e não deseja se transformar em um Estado da região.

Ainda nos anos 20 do século passado, um líder sionista declarou: “Nós, judeus, não temos nada em comum com aquilo que chamam de Oriente e agradecemos Deus por isso”.

De fato, o sionismo é uma ramificação ou implantação da “civilização” ocidental no Oriente.

Theodor Herzl, fundador do sionismo político, classificou seu futuro Estado na Palestina, como “parte do ocidente civilizado no coração da Ásia atrasada, posto avançado da civilização e progresso contra a barbárie”.

O que Israel conseguiu com sua criação patológica foi transformar os judeus, que eram considerados estrangeiros e orientais na Europa, em ocidentais europeus no Oriente Médio.

Essa entidade esquizofrênica adotou as mesmas características do nazismo: concepção da pureza e mito da superioridade racial.

Ao ignorar os fatos da História e Geografia, criou-se necessariamente uma identidade exclusivista, que não consegue pertencer ao espaço geográfico onde se situa e é incapaz de se adaptar às realidades políticas e culturais da região.

Exemplo disso é a reação israelense à iniciativa de paz da Liga Árabe em 2002. Os regimes árabes se declararam prontos não apenas para assinar um acordo de paz total com Israel, como também ofereceram a normalização das relações políticas e econômicas com aquele país, em troca da devolução dos territórios árabes ocupados em 1967 e a criação de um Estado Palestino ao lado de Israel.

Israel descartou prontamente a oferta árabe.

A razão é óbvia: nenhum acordo individual ou coletivo com os árabes traria a segurança verdadeira a um Estado que se considera tão acima, tão superior e tão diferente dos seus vizinhos.

A visão dos líderes de Israel em relação aos árabes não mudou durante todos esses anos.

Para os sionistas, os árabes são bárbaros, não civilizados, terroristas e sub-humanos.

Mesmo quando um “moderado” como Shimon Peres tenta desenhar um novo Oriente Médio, o cenário sugerido por ele é o mesmo: superioridade israelense absoluta e total subjugação dos árabes. Peres quer alcançar seus objetivos colonialistas por meios econômicos, uma vez que a força militar não conseguiu a rendição total dos árabes em geral e dos palestinos em particular.

A crise da identidade que Israel enfrenta é um obstáculo no caminho da estabilidade da região.

A sobrevivência do Estado judeu na sua forma atual continua a depender do subdesenvolvimento e da divisão dos árabes. Isso porque, conforme a lógica colonialista de Israel, com os não civilizados, não há paz e o triunfo total da civilização israelense contra o atraso e estagnação árabes, não são apenas a garantia da estabilidade, mas também o fator decisivo para forjar uma identidade falsa e sem raízes na História e na Geografia da região.

Israel tem que escolher entre manter sua função como instrumento imperialista na região, trabalhando com alguns regimes árabes arcaicos e corruptos, para manter os povos árabes divididos, alienados e explorados ou então se transformar em uma sociedade aberta, respeitando as normas de convivência pacífica com seus vizinhos.

A História mostra que quando os projetos colonialistas mudam de função deixam de existir.

2º) As sombras dos nativos

O maior dilema que Israel enfrenta hoje são as vítimas da colonização sionista da Palestina: os nativos da terra, os palestinos.

Inicialmente foram ignorados. Eram os “presentes ausentes”. Para os sionistas, a Palestina era terra vazia, apesar pátria milenar de centenas de milhares de árabes palestinos. Queriam-na e fantasiavam a “terra sem povo” para o “povo sem terra”.

Os palestinos resistiram heroicamente à ocupação de sua pátria, apesar do desequilíbrio total das forças e do cenário regional e internacional desfavorável.

Com a criação de Israel em 1948, mais de 800 mil palestinos foram expulsos de suas terras e destruídas suas 535 aldeias e cidades.

Em 1967, Israel ocupou o que restou da Palestina e prosseguiu-se a limpeza étnica começada em 1948.

A despeito das práticas para eliminação da identidade palestina, os palestinos não desapareceram.

As “profecias” dos falsos profetas sionistas sobre os palestinos não se concretizaram. Pregavam aqueles guias sionistas que “os velhos morrerão e os jovens esquecerão”.

A memória dos palestinos, nativos daquela terra, remonta mais de cinco mil anos e continua viva.

Os jovens palestinos, pedras vivas, assim como seus antepassados, estão determinados cada vez mais a recuperar sua pátria, sua dignidade e devolver para aquela terra amada sua missão histórica: ser pátria livre para homens livres e encontro das religiões.

Os palestinos são o maior dilema enfrentado por Israel.

Israel pode acusá-las falsamente de terrorismo ou fanatismo, mas tem que lidar com eles.

A limpeza étnica em grande escala ou genocídio não são mais meios aceitáveis para lidar com o povo indígena, que luta incansável e imperturbavelmente pela sua liberdade e pela sua pátria.
As vítimas do sionismo, ignoradas e massacradas, voltaram para exigir o mínimo de Justiça: uma parte da sua pátria histórica e o reconhecimento do crime cometido contra esse povo e a História.

Israel pode tudo contra sua supremacia militar, menos calar os gritos da liberdade de um povo que se recusa a morrer.

3º As metas não alcançadas

As justificativas sionistas para a criação de um Estado judeu na Palestina eram várias:

a) uma resposta ao anti-semitismo

Segundo os sionistas, a criação de um Estado judeu na Palestina causaria o desaparecimento ou ao menos o declínio de anti-semitismo no mundo, já que alegavam que a causa do anti-semitismo era a presença de minorias judaicas no mundo, sem Estado nacional.

Ao contrário do que os sionistas previam, a criação de Israel não modificou a situação dos judeus no mundo.

Há mais judeus fora da Palestina, do que dentro.

As políticas de Israel causam indignação e condenações mundiais.

A perseguição, a matança de civis árabes, a ocupação e a opressão brutal contra os palestinos, o desrespeito ao Direito Internacional e às instituições e suas resoluções, são motivo de críticas diárias a Israel.

Esse Estado não apenas falhou em eliminar o anti-semitismo, mas tornou-se a sua principal causa.

b) ser porto seguro para judeus perseguidos:

Israel é, de fato, o único lugar não seguro para os judeus hoje.

Quando há outras alternativas, os judeus preferem emigrar para os Estados Unidos, Canadá, África do Sul, Alemanha, a ir para Israel.

Na Alemanha hoje, berço do nazismo, há cincoenta mil judeus, inclusive sobreviventes dos dramas da segunda guerra mundial.

Nos Estados Unidos, há mais judeus que em Israel.

Poucos deles pensam em abandonar seus lares e imigrar para a terra prometida pelos sionistas.

Os dois únicos segmentos da população em Israel que crescem hoje são os palestinos e os judeus ortodoxos.

Os dois grupos representam ameaças diferentes para o futuro de Israel: os palestinos, porque são considerados inimigos e sua simples existência ameaça o caráter judeu do Estado e os judeus ortodoxos, porque são economicamente improdutivos, não servem no exército e procuram transformar Israel em Estado religioso e teocrático.

c) Israel como centro espiritual para os judeus e luz para as nações.

A entidade que o sionismo criou na Palestina jamais poderia ser classificada como centro espiritual, tampouco luz.

A sociedade israelense é uma sociedade corrupta, dividida, violenta e racista e a maior sociedade dependente de dinheiro externo do mundo.

Israel, a despeito de suas pequenas dimensões, se comparado à média dos países do mundo, recebe doação de quinze milhões de dólares por dia, apenas dos Estados Unidos, mais do que todo o continente africano junto.

Em Israel, não há casamento civil, apenas religioso.

Conforme as leis religiosas, não pode ser da mulher a iniciativa da separação e assim, as mulheres ficam à mercê da vontade de seus maridos requererem a separação.

Os judeus da Etiópia são proibidos de doar sangue, sob a justificativa oficial de que possam transmitir doenças, mas a realidade é que são considerados menos judeus que os brancos.

Em Israel, há quinhentos mil imigrantes russos, que a ortodoxia religiosa não considera como verdadeiros judeus.
Ser judeu em Israel tem implicações políticas, religiosas, econômicas e sociais e é uma situação de privilégios, assim como a dos brancos na África do Sul.

Os jornais israelenses publicam diariamente as notícias da corrupção da classe política e a violência na sociedade. São guerras de ortodoxos contra judeus não praticantes, que violam o descanso dos sábados.

Há notícias de corrupção endêmica dos rabinos influentes.

O ex-presidente de Israel, Moshe Katzav, assumiu a presidência depois de Haim Weizmann, que renunciou após acusações de corrupção. Katzav também foi obrigado a renunciar após acusações de estupro por várias mulheres judias.

O ex-chefe do Estado Maior israelense, Yitzhak Mordechai foi condenado por crimes sexuais.

O ex-Ministro da Justiça Haim Ramon renunciou após a acusação de estupro de uma judia, ocorrido no primeiro dia da invasão ao Líbano em 2006.

O ex-primeiro ministro Ehud Olmert está sendo acusado de corrupção e a imprensa israelense sinaliza que seu futuro político está acabado.

O ex-primeiro ministro Ariel Sharon só escapou da prisão por corrupção,porque sofreu um derrame que o deixou em coma profunda. Seu filho não teve a mesma sorte: foi preso por receber propinas.

O atual primeiro ministro Netaniahu e vários dos seus ministros estão sendo investigados por corrupção, lavagem de dinheiro e ligação com o crime organizado.

No mundo inteiro, inclusive no Brasil, há notícias sobre agentes israelenses no tráfico de drogas, armas e órgãos, muitos deles membros da órgãos da inteligência e serviços de segurança israelenses.

O produto mais vendido de Israel é tecnologia de repressão e sofrimento.

Um país, cujo presidente é estuprador e seus ministros e demais lideranças, inclusive religiosas, são ou corruptos ou traficantes ou maníacos sexuais, só pode ser considerado TREVAS, não luz.

4º Entre falsos mitos e duras realidades

Os mitos e as mitologias existem na criação e manutenção de Estados e povos.

A memória coletiva de um povo é construída sobre um passado glorioso, imaginável ou “verdadeiro” e para alcançar um futuro melhor.

Mas em nenhum lugar do mundo, a mitologia se transformou não apenas em uma ideologia, mas também em garantia para a existência, como em Israel.

Exatamente naquele Estado, os mitos fundadores da falsa memória coletiva estão sendo desmascarados, um a um, de uma forma rápida e definitiva.

Começando pelo próprio sionismo, mostrado pelos defensores de Israel, como um movimento de libertação nacional dos judeus e para os judeus.

O sionismo hoje, na consciência mundial, não passa de um movimento colonialista, criado pelo imperialismo para dominar o mundo e o petróleo árabe.

Em 1975, a ONU classificou o sionismo como um movimento racista, fazendo parte do arsenal colonial europeu de dominação e discriminação e ocupação.

Cada vez mais judeus em Israel e no mundo percebem o perigo que o sionismo, como ideologia exclusivista, representa, não apenas para os palestinos, mas também para os judeus no mundo.

O sionismo nada mais é do que a tradição dos princípios nazistas sobre pureza e supremacia racial, além da incapacidade de assimilação dos judeus.

Para os sionistas, assim como para os nazistas, os judeus são estrangeiros nas terras onde vivem. Ambas as doutrinas proíbem os casamentos de judeus com não-judeus.

Em Israel, assim como na Alemanha nazista, há “leis de Nuremberg”, proibindo os casamentos mistos.

Os mitos sobre a criação do Estado judeu estão sendo questionados por historiadores inclusive israelenses.

Até os mitos da antiga história estão sendo derrubados pelos próprios arqueólogos israelenses que sustentam que não há nenhuma prova ou mesmo evidência da existência de um passado israelita na Palestina. Sequer o lendário templo de Salomão, os arqueólogos isralenses acreditam ter existido em Jerusalém.

A chamada Guerra de independência de 1948 é hoje vista , ao contrário da propaganda sionista, como uma seqüência de massacres e atrocidades cometidas a sangue frio por sionistas com intenção única de expulsar os nativos e tomar suas riquezas, para criar um Estado exclusivamente judeu, goym reim (sem goym, sem não judeus).

O mito de Israel como Estado frágil, o Davi constantemente ameaçado por seus vizinhos, está dando lugar para o verdadeiro significado de Israel – uma muralha de aço, um Estado militarizado, expansionista, com armas nucleares, que não define suas fronteiras, sem Constituição, racista e que não respeita os princípios internacionais de isonomia.

O mito da única democracia do Oriente Médio e do país que quer a paz entre vizinhos guerreiros, está caindo também. A verdadeira face de Israel é de um Estado opressor, que vive em guerra permanente por opção e desrespeita diariamente as normas, leis e princípios que a humanidade elaborou durante sua longa existência e luta pela igualdade, fraternidade e dignidade humanas.

Israel é um Estado que sempre necessitou e necessita de mentiras diárias para justificar suas políticas.

Quando os ativistas internacionais que tentam levar ajuda humanitária para o gueto de Gaza, são chamados por Israel de agentes do “Jihad” internacional, anti-semitas ou terroristas, que procuram destruir o Estado de Israel, há algo profundamente patológico naquele Estado.

Quando os judeus de consciência como Richard Falk, representante dos direitos humanos na Palestina ou Richard Goldstone, relator da ONU sobre os crimes de guerra em Gaza, ou muitos outros judeus, são acusados de anti-semitismo, porque não concordam com as políticas suicidas de Israel, esse país está perdendo a alma do Judaísmo ou o que restou dela.

Um filósofo judeu, Moshe Menuhim, previu que Israel seria o túmulo do Judaísmo.

Israel está caminhando a largos passos para isso.

Um historiador israelense escreveu que é impossível construir uma entidade coletiva sobre uma mentira e apesar de tantas mentiras, massacres, crimes, o que Israel de fato conseguiu foi se transformar em um grande gueto, o sonho do anti-semitismo colocado em prática.

O colonialismo na sua versão sionista não conseguirá apagar a chama, a luz e a alma da Palestina.

A Palestina ou Fênix (um dos nomes antigos da Palestina – Fênix ou Canaã) renascerá novamente – pátria livre de um povo livre e a saga do sionismo em nada será diferente do seu criador, o colonialismo europeu.

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(*) Abdel Latif Hasan Abdel Latif, palestino, médico. Original no www.palestinalivre.org

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