Os desafios da educação popular no atual contexto brasileiro

“A humanidade só levanta problemas que é capaz de resolver.” Karl Marx

 

“Nenhuma realidade é assim mesmo. Toda realidade está submetida à possibilidade de nossa intervenção nela.” Paulo Freire

 

Cumprimento freireanamente a todos, a todas, que nos acompanham nesta sessão inicial da XVII Jornada Paulo Freire, organizada conjuntamente pela Cátedra Paulo Freire na Amazônia, no estado do Pará, organizada pela Profa. Dra. Ivanilde Apoluceno de Oliveira e Núcleo de Pesquisa em Educação Popular, coordenado pelo Prof. Dr. Sérgio Roberto Moraes Correa. Valho-me desta ocasião, também, para me congratular com o povo Paraense por haver-se irmanado desde as eleições de 2018, ao povo nordestino, no protagonismo-cidadão, em socorro do gemido da terra e do clamor dos pobres. Sintam-se todos e todas abraçados e abraçadas.

 

O tema que nos foi proposto para esta Jornada é “OS DESAFIOS DA EDUCAÇÃO POPULAR NO ATUAL CONTEXTO BRASILEIRO”. Em busca de uma exposição didática sobre o tema, cuido de propor o itinerário:

 

Uma introdução contextualizando sobre o tema

 

Nº1: Nosso horizonte de Esperança/Esperançar

  • Qual modo de produção?

  • Qual modo de consumo?

  • Qual modo de gestão societal?

Nº2: Exercitando a memória história do oprimidos

  • As lutas coletivas de nossas gentes

  • Biografias que nos inspiram

 

O lugar da Mística revolucionária

Nº3: Práxis revolucionária em nosso cotidiano

  • No plano organizativo

  • No plano da formação contínua

  • No plano da luta permanente

 

Considerações sinópticas

 

TRAÇOS DA ATUAL CONJUNTURA BRASILEIRA À LUZ DA EDUCAÇÃO POPULAR

 

A despeito de avanços pontuais, aqui e ali, seguimos mergulhados em profunda e prolongada crise multifacetada, seja no Brasil, seja em escala mundial, substancialmente produzida pelo caráter que o Capitalismo hoje assume pela financeirização da economia, organicamente conectada com os demais setores do Capital e seu Estado.

 

Desde o golpe de 2016 preparado cerca de 3 anos antes, o Brasil vem enfrentando tempos tenebrosos, sucessivas crises de enorme alcance devastador. Crise multifacetadas. A pandemia da COVID-19, cuja gestão desastrada custou um número excessivo de vítimas fatais e sequeladas, acena fortemente para o caráter do golpe de 2016, cujo o alcance extremado o Brasil experimentou como desgoverno atual. Igualmente, no âmbito socioambiental, os estragos foram e continuam sendo profundos, cuja a recuperação impõe a resistência prolongada de gerações. No plano econômico a consequência mais amarga se pode medir pelos auto índices de desemprego estrutural, fruto das contra-reformas trabalhista e previdenciária, culminando com escandaloso índice de mais de 30 milhões de pessoas passando fome. No plano político,tivemos que enfrentar uma sucessão escandalosa de crimes de gestão. No terreno da cultura, reinou o negacionismo alimentado pelo fundamentalismo religioso a impulsionar atitudes de estupidez coletiva refletida em inúmeros exemplos cotidianos de racismo estrutural, de misoginia, de LGBTQIA+fobia, xenofobia, aporofobia, atitudes também de ecocidas…

 

NOSSO HORIZONTE DE ESPERANÇA/ESPERANÇAR

Passando para os três tópicos, cada um deles também compreendendo três subtópicos eu cuido de externar a sequência.

 

Primeiro a partir do horizonte de esperança que buscamos manter sempre aceso. Horizonte de esperança em relação ao processo de construção de uma nova sociedade. Este tópico primeiro compõe-se de três momentos. Um primeiro momento diz respeito a que antes de qualquer coisa, diante da complexa conjuntura que a gente tratou de esboçar no início, a gente trate primeiramente de ver qual é o tipo de sociedade que a gente deseja construir. Este é o horizonte de esperança que somos chamados historicamente a manter sempre aceso, como condição sem a qual a gente não consegue viabilizar os outros passos que aqui nos referilharmos mais abaixo. Então se trata, de entendermos que tipo de sociedade desejamos construir, qual é o tipo de modo de produção, modo de consumo, tipo de gestão societal que desejamos ir construir nesta direção de manter sempre acesso o horizonte de esperança. É assim que vamos buscar desenvolver este primeiro ítem, baseado no horizonte de esperança do qual nós partimos.

 

Modo de produção – que modo de produção?

 

Nós sempre partimos desta constatação: quais são nossas motivações, de mulheres, de homens, de cidadãos, de cristãos para quem são, e do dia-a-dia, militantes do dia-a-dia saber qual é o tipo de sociedade que desejamos construir? Sem fazer isso, a gente não consegue os objetivos que a gente busca aqui colocar nos ítens seguintes. Neste sentido costumo lembrar de uma frase extraída de um filme que fez a geração de militantes da minha época, dos anos 70. Trata-se de um filme chamado “Queimadas”. O filme conta a história de libertação de uma ilha do Caribe, quem sabe se não pode ser o próprio Haiti, que buscou enfrentar o desafio da colonização primeiramente portuguesa, e depois inglesa. E um desses atores, uma dessas personagens, chamada “José Dolores”, costumava dizer esta frase que eu sempre retive em todos os momentos em que eu discuti este filme conjuntamente, a frase era “ é melhor saber para onde ir sem saber como, do que saber como e não saber pra onde ir”. José Dolores, a personagem protagonista desta frase e dos processos de libertação daquela ilha do Caribe, frente primeiramente a Portugal, depois a Inglaterra. Este filme marca esta geração, no sentido de estarmos sempre alerta para saber para onde nós queremos rumar, sem a gente ter essa perspectiva deste horizonte, a gente incorre em fracassos tremendos. Por isso que é importante neste primeiro momento a gente refrescar a cabeça e o compromisso em que tipo de sociedade nós queremos construir. Qual é o tipo de modo de produção? É este modo de produção que nos satisfaz? Claro que não. O modo de produção capitalista visa ao lucro. Ao lucro a custo da miséria de milhões e bilhões da humanidade, nos dias presentes. Haja vista, no caso do Brasil, o tanto de alimentos de que o Brasil é produtor em âmbito internacional, vivendo ao mesmo tempo sua população desnutrida e passando fome. Não são 2 ou 3 pessoas, mas 33 milhões de pessoas passando fome. Como se pode entender que este modelo de produção sirva para os interesse dos conjuntos de brasileiros e brasileiras. Ou seja, como o tipo de produção é importante… produzir o que? Para o agronegócio, por exemplo? Produzir alimentos da agricultura familiar, da qual nós retiramos 70% dos alimentos que vão à mesa ddo povo brasileiro? Ou a gente continuar do jeito que está? É saber portanto que quando falamos de modo de produção, que a gente busca superar para introduzir e ir construindo um modo de produção alternativo se trata da gente buscar examinar as múltiplas possibilidades que a gente tem aí, de saber o que a gente produz, é alimento de commodities, por exemplo? é alimento apenas para servir a engordar os porcos em outros países ou a gente prioriza a alimentação dos nossos? Ou a gente trata de priorizar a produção de alimentos orgânicos, de alimentos que não envenenem os nossos rios, o nosso subsolo, os solos, os nossos vegetais, os nossos animais e, também, os nossos humanos? Trata-se, portanto, de definir o modo de produção que a gente busca ir construindo, de maneira a ir superando o grande desafio que nos impõe o sistema capitalista em sua atual fase, que é a fase de financeirização da economia. A este respeito são muitas as contribuições, por exemplo – de tanta gente, aqui eu vou citar apenas uma pessoa que é o Ladislaw Dowber. Ele tem um site impressionante, em harmonia, em contato com outros países. É um grande pesquisador da PUC – SP e que disponibiliza seus textos, seus áudios para milhares de pessoas. É importante ver na contribuição de Ladislau Dowber, um grande economista, que se ocupa de saber quais são as alternativas que a gente tem para vencer a financeirização da economia. Esse é o primeiro desafio que a gente encontra, o de buscar superar o modo de produção capitalista, procurando definir de maneira conjunta, coletiva, pela base o que é que nós devemos produzir, para quem, como devemos produzir, quem ganha, quem perde com essa produção, definir portanto um novo modo de produção anticapitalista. Ao mesmo tempo outra pergunta nos interessa aqui. É saber se basta a gente se comprometer com um novo modo de produção sem tocarmos também na importância que tem o consumo também. Trata-se de aliarmos também a este novo modo de produção anticapitalista o nosso compromisso em produzir um novo modo de consumo. Todo mundo sabe que seria impossível para a Mãe Terra suportar um consumo elevadíssimo como acontece, por exemplo, nos Estados Unidos, se a gente entendesse que nós iríamos conduzir nessa direção, de um consumo exorbitante, a Mãe Terra deveria ter, sei lá, dez vezes mais o tamanho e a natureza que tem. De modo que a gente é chamado a construir um novo modo de consumo também, tanto do ponto de vista das políticas públicas quanto do ponto de vista individual, de darmos exemplo neste sentido. Nesta direção, por exemplo, o famoso paradigma Buen Vivir nos ajuda muito a avançar, a nos converter para uma convivência fraterna e harmoniosa com a Mãe Natureza e com seus viventes. De modo que, resumindo, não basta nos preocuparmos apenas com um novo modo de produção. Isso, por si, é muito importante, mas não basta. Temos que associar a esse novo de produção um novo modo de consumo, definindo que tipo de consumo nós vamos fazer para a sociedade e como a gente pode se controlar contra o consumismo, que é uma doença perversa do capitalismo que afeta e adoece a humanidade e adoece também o planeta. Um novo modo de consumo vem juntar-se à luta por um novo modo de produção, de maneira que os povos indígenas,os povos ribeirinhos, das florestas e das matas, os camponeses trabalhadores e trabalhadoras do campo e da cidade tenham consciência que é preciso entender a sabedoria da mãe natureza, como ela faz para assegurar o bem da Terra. Nós somos chamados também a compartilhar desta missão de responsabilidade em relação aos destinos da Mãe Natureza e da Terra. Um novo modo de consumo nos ajuda certamente nessa direção. Então aqui fizemos em três ítens de componentes deste primeiro tópico. O primeiro tópico, como sabem, é a questão do novo modo de produção, do novo modo de consumo e de um novo modo de organização de gestão societal. Então, a gente vai observar que no terceiro ponto há necessidade de irmos encontrando um novo jeito de definir a gestão societal diferentemente dos marcos do capitalismo. Isto significa dizer para nós que a gente é chamado a repartir a gestão. Não deixar na mão dos grandes empresários, principalmente, dos grandes conglomerados estrangeiros tão bem estudados, entre outros, por Dowber. Eu gostaria que as pessoas conhecessem mais as propostas de Dowber sobre este ponto. Isto significa dizer que nós somos chamados a perseguir e a implantar um novo modo de gestão societal, não podemos nem devemos entregar todas as fichas sob responsabilidade do Estado. O Estado é uma entidade, como nós sabemos, desde a Idade Antiga – eu me refiro à Roma Antiga, me refiro as lutas sociais da Roma Antiga, da Idade Média, da Idade Moderna, da Idade contemporânea – o Estado sempre foi e continua sendo um pilar decisivo junto com o Mercado capitalista de definição de não somente de modo de produção, de modo de consumo como também da gestão societal. É muito importante a gente se abrir para esse novo modo de gestão societal, procurando não entregar as fichas da gente na responsabilidade do Estado, mas sim procurar exercer uma autonomia frente ao Estado e frente ao Mercado capitalista, haja vista os rumores indevidos do tal “Mercado” frente ao reto pronunciamento de Lula na COP27. Neste sentido, com tristeza que constato que nos anos 80 nós tínhamos essa consciência mais clara, de desconfiança do Estado. A medida que a gente foi optando pela linha eleitoral, a gente foi perdendo de vista os riscos enormes que o Estado nos proporciona ainda hoje, e o resultado disso é o abandono das bases; dos conselhos; dos centros; das organizações coletivas que tínhamos, que do ponto de vista estatístico foi um sucesso, isso é verdade, a gente passou a ter cada dia mais candidatos eleitos, no âmbito municipal, estadual, regional, nacional. Quanto a isso não podemos nos queixar. Mas qual é o saldo que a gente recolhe deste avanço estritamente eleitoral? Não é um saldo positivo, se a gente percebe bem o quanto deixou de contribuir com as bases, de contribuir enraizadamente nas comunidades rurais, nas comunidades urbanas, nas favelas, nas periferias urbanas. Quanto isso deixou de aprofundar essa relação orgânica dos militantes com essas bases sociais? Isso implicou numa sangria muito grande, do qual a gente hoje tem um balanço muito desfavorável. Não fosse isso, por exemplo, como a gente explica isso nos dias de hoje que seja a direita e não a esquerda que tenha a capacidade de mobilizar gente? Mesmo que a direita o faça com base no derrame de dinheiro que as grandes empresas utilizam, é verdade, mas se a gente, do ponto de vista dos trabalhadores e trabalhadoras, a gente tivesse minimamente organizado, quem tomaria a iniciativa seria a gente e não a direita.

 

Então, eu volto a dizer que aqui nós contemplamos três dimensões neste tópico:

 

1 – Novo modo de produção, consumo e gestão societal.

 

A primeira dimensão é o nosso compromisso com a construção de um novo modo de produção, dinamicamente articulado com um novo modo de consumo, e também articulado, por sua vez, a um novo modo de gestão societal, que significa decidir pelas bases, decidir tendo aqueles que compõe os conselhos, as células, os ciclos culturais, os núcleos ou que outros nomes tenham, contribuir com eles as decisões tomadas pelas base, que sejam levadas também a outras instâncias, em âmbito estadual, regional, nacional ou internacional.

 

Quando a gente perdeu esse ritmo, a gente certamente passou a acumular uma série de erros históricos lamentáveis. Este item acende qual horizonte apostamos, qual o horizonte que devemos apegar, que apostamos e que vai nos ajudar a transpor as amarras desta barbárie capitalista.

 

Isto me faz lembrar, entre outras coisas, de um filme dos anos 70, que caracterizou muito as gerações de militantes do meu tempo, que era chamado “Queimada!”, “Burn!” em inglês, onde conta a história do levante de um povo de uma ilha (fictícia, mas inspirada no Haiti), contra a invasão portuguesa e depois contra a invasão inglesa. Há uma tentativa de populares, que animados por essa figura chamada José Dolores, de enfrentar essa realidade. Tem uma frase que ele sempre repetia que era “É melhor saber para onde ir sem saber como do que saber como e não saber para onde ir”. Este filme eu tive a ocasião de trabalhar, de refletir com os estudantes, em muitas salas de aula na FAFICA e em Arcoverde. Ele teve um grande alcance didático na compreensão do processo de colonização, de dominação. Então gostaria de dizer esta parte: é preciso saber para onde estamos indo, isto significa dizer manter sempre vivo o horizonte de nossa luta, o horizonte de nosso plano, perspectivas, esperanças.

 

O segundo tópico eu gostaria de desenvolver com vocês tem a ver com o exercício da memória histórica dos oprimidos. Este é o segundo tópico.

 

2- O exercício da memória histórica do oprimidos

Então, este tópico se compõe de três subitens, aos quais me referirei adiante. Quando se trata de exercitar a memória histórica significa dizer que para os “debaixo”, – os Trabalhadores, Trabalhadoras -oprimidos e oprimidas- , ao exercitar essa memória coletiva de suas lutas, internacionais, latinoamericanas, nacionais, regionais. Isto tem uma força relevante de animação para continuar forte na própria luta também. A memória histórica dos oprimidos, faz com que, uma vez exercitada adequadamente, essa memória história ajude a renovação dos compromissos de mudanças sociais, no sentido de fazer com que como é que nossas gentes europeias, africanas, asiáticas, da oceania, como é que essas bases conseguiram enfrentar essa barbárie do colonialismo e de outras manifestações impostas pelos setores dominantes do capitalismo. Então, nesse sentido, trata-se de ir refrescando a memória perigosa, essa memória subversiva. Não se trata, portanto, de nos limitarmos a um exercício de saudosismo, mas ao contrário, de trazermos de volta à conjuntura presente de volta os nossos compromissos com as mudanças efetivas com que nós somos chamadas a realizar. Esta memória histórica funciona como um animo, uma motivação a mais, uma força que ajuda a gente primeiro a compreender os desafios da realidade de hoje, segundo a enfrentar criticamente e de maneira corajosa esses desafios no presente também. É importante que a gente destaque esse lado de que o exercício da memória histórica ajude a gente nessa direção. Ao mesmo tempo, é importante frisar que a memória histórica não se dá estritamente no plano coletivo, de massas, por exemplo as grandes revoluções, grandes lutas, a Comuna de Paris, por exemplo. Mas também no âmbito pessoal, no âmbito da elaboração da cabeça, do coração, de revolucionários de vida exemplar. Então, estudar, por exemplo, suas biografias. Estudar suas biografias representa um passo importante para os jovens de hoje e de amanhã, a saberem como essas figuras, mulheres e homens, se comportaram diante dos desafios de seu tempo, e como foram capazes de enfrentá-los de algum modo. Nós então recolhemos deles, e delas, lições para os dias de hoje. Não no sentido de pretender reedita-los, porque elas são importantes para o contexto em que eles e elas viveram. Mas evidentemente que hoje estamos diante de velhos e novos desafios, e hoje nosso compromisso é de entender o caráter desses novos desafios e saber como proceder diante deles, colhendo indicações importantes dessas lutas do passado, mas sempre evitando reeditados mecanicamente, pois trata-se de entender hoje esses desafios. É importante cultivar a memória histórica dos oprimidos, associando sempre a questão da mística revolucionária. Os militantes e as militantes, ao recordarem esses grandes lances de enfrentamento da realidade passada, também se sentem tocados em renovarem seus compromisso no presente. Há aí atravessando suas lutas, seus compromissos, há uma mística revolucionária, que os anima, que nos dá força rumo nesta direção. Então é muito importante relacionar a mística revolucionária ao exercício da memória histórica dos oprimidos nesta perspectiva internacional, latinoamericana, e também brasileira. É muito importante a gente centrar força em relação a mística revolucionária com o exercício da memória histórica dos oprimidos. Outro tópico que eu gostaria de me ater, trata-se da práxis revolucionária no cotidiano.

 

3- Práxis revolucionária no/do cotidiano.

 

Quando a gente fala em práxis revolucionária a gente está apontando a tarefa dos novos militantes, homens e mulheres, de hoje, no sentido de entenderem bem sua realidade, de maneira crítica e autocrítica compreenderem o passado, as lutas do presente, como condição para enfrentarem de maneira eficaz os desafios de hoje. Então, neste caso, exercitar a práxis revolucionária no cotidiano significa, entre outras coisas, unir o passado, recordar essas lutas históricas do passado, essas lutas populares em âmbito internacional, latinoamericano, brasileiro… associar essa luta com os desafios de hoje, não no sentido de recolher eventuais missões que sirvam para serem reproduzidas. Mas se trata de recolher elementos de encorajamento e de novo fôlego para o assumir sua tarefa no contexto presente. Não pretendendo, como dito, reeditar as lições do passado, até porque os desafios do presente são de outra ordem. Mas, para receber os influxos encorajadores que caracterizaram esses militantes e essas militantes lá atrás que hoje ressoam forte na nossa luta do cotidiano. Trata, sim, de recolher elementos dessas lutas históricas, de libertação como elementos que nos ajudem hoje a reforçar o nosso ânimo, a reforçar o nosso compromisso revolucionário frente aos desafios de hoje. Então é muito importante incentivar a memória histórica nessa direção.

  • Como fazer para a gente atualizar esse compromisso revolucionário?

Eu traria à tona a importância da gente fazer a leitura concreta da realidade objetiva de hoje. Disso, a gente não pode se afastar jamais. Exercitar junto às bases, aos movimentos sociais, às associações, às cooperativas, ao próprio mundo sindical, em seus núcleos, em suas células, em seus conselhos populares e outros círculos de cultura. Incentivar aí, que a gente procure alimentar sempre esse compromisso de fazer a ponte entre os acontecimentos de ontem e os acontecimentos de amanhã. Nós aqui tratamos de rememorar os acontecimentos sociais, as lutas passadas, as lutas políticas, as vitórias e derrotas das quais aprendemos a retirar lições. Então, o compromisso revolucionário hoje significa isso: fazer a ponte entre esse passado e o futuro que nós almejamos construir; significa que a gente trate de recolher dessas lições nos comprometer a ir transformando na perspectiva do horizonte que nós traçamos, do horizonte de realidade, societal, de um novo modo de consumo, de um novo modo de gestão societal. Trata-se, portanto, de fazer a ponte entre o passado e o futuro.

  • Em que medida os compromissos revolucionários do presente nos ajudam nessa direção?

Primeiro nos ajuda a partir do momento em que a gente não abre mão de fazer de maneira contínua a análise crítica da realidade objetiva, de fazer a leitura de mundo, como diz Paulo Freire e buscar compreender a complexidade que caracteriza essa realidade social, mas ao mesmo tempo sabendo que quem quiser chegar mais perto dessa objetividade complexa tem também de tomar a direção de ver o ritmo que ela impõe, que seria de acompanhá-la em seu movimento. A realidade complexa está sempre em movimento, está sempre se transformando.  Aqueles e aquelas que buscam acompanhar esse ritmo chegam mais perto do entendimento dessa realidade. Esse é um desafio para nós. Buscar acompanhar em movimento também  essa realidade social de maneira autocrítica e crítica como nos é devido. Então, a gente trata de fazer primeiro essa análise de conjuntura que, uma vez, realizada nos núcleos, nos conselhos populares, nos círculos de cultura, e outros, a gente vai captando diferentes ângulos dessa realidade complexa. Entendendo-a melhor a gente passa a se organizar melhor para enfrentá-la. A leitura da realidade é o primeiro passo que a gente aconselha nesta direção. É buscar exercitar a leitura crítica e autocrítica da realidade social de modo a saber como ela se comporta, e sabendo como ela se comporta, organizar nossa intervenção.

  • Quais são nossas tarefas diante disso?

 

Uma primeira tarefa diz respeito ao processo organizativo, ou seja, da gente instalar e manter um novo modo de organização pela base e com a base. Esse novo modo por exemplo implica em retomarmos, em novo estilo, nossas lutas nas periferias urbanas, no meio rural, em toda parte, nos vários ciclos de cultura, nos núcleos, nas outras ocasiões retomarmos essa prática e a gente fazer essa leitura conjunta dessa realidade. Essa leitura conjunta implica, por exemplo, a gente ter clareza de como deve ser esse processo organizativo. Depois o processo formativo, depois o processo de luta, embora estejam sempre associados dinamicamente.

 

Processo organizativo

 

Em relação ao processo organizativo, o novo que a gente é chamado para pôr em prática, é o retorno a essas bases rurais e urbanas, das quais a gente esteve bem mais próximo nos anos 80, por exemplo, mas não só, retomar essa aproximação com essas bases, tanto formar ciclos de cultura, de conselhos populares, ou de núcleos, células, etc. Retomar esse modo de organização significa, fazer com que as pessoas entendam que não basta fundar, criar uma célula, um núcleo, um conselho popular, é preciso manter, manter permanentemente. Para isso precisamos de reuniões periódicas, quinzenais ou mensais que ajudem as pessoas a irem crescendo no entendimento nesse processo organizativo.

E como se faz essa organização? Essa organização se faz pela base. E de que modo? vencendo a tentação, ainda hoje muito presente, fazer com que meia dúzia de sabedores, de intelectuais se aproximem dessas comunidades, desses conselhos, para dizerem como elas devem fazer, como elas devem agir.  Então esse é um procedimento que a gente deve combater radicalmente porque não é assim que a gente organiza desde a base. A organização desde a base primeiro respeita o protagonismo de todos, primeiro parte de ouvir, da escuta das pessoas ali reunidas, cada qual dizendo sua história de vida, dizendo o modo como entende o mundo, fazendo o diálogo acontecer. Então, não se trata portanto de cumprir uma palavra de ordem do coordenador ou mesmo dos coordenadores, trata-se sim que os próprios militantes dos núcleos, dos conselhos, dos círculos de cultura vão trazendo sua própria contribuição. À medida que vão lendo a realidade, vão criticando a realidade, vão exercendo também a sua autocrítica, elas e eles vão compreendendo melhor o que se passa naquela realidade local, mas sempre fazendo a ligação do que se passa em âmbito internacional, em âmbito nacional. É preciso fazer esse nexo que é a análise de conjuntura é a leitura de realidade que as ajuda muito nessa direção.  Então, o processo organizativo tem que ser pelas bases, tem que ser protagonizado pelas bases.

Na parte da coordenação, nunca deve ser uma coordenação monopolizada por alguém, nunca deve ser uma pessoa que se reúna com os grupos para ditar como deve o grupo se comportar, mas deve ser uma coordenação colegiada, com pessoas locais, com pessoas das bases também fazendo esse exercício de leitura da realidade. É muito importante fazer com que a coordenação do núcleo, do conselho e outras atividades sejam protagonizadas por todos da base. A tarefa de escuta é uma obrigação, sem a qual  a gente não vai além. Então esse é um jeito novo de organizar a base, a partir de uma coordenação colegiada. Nesse sentido, é importante a gente entender que uma vez cumprido o prazo de atuação dessa coordenação colegiada, quem sabe 2 anos, 3 anos, os coordenadores, as coordenadoras voltam para suas bases e quem é da base vem ajudar no processo de coordenação colegiada. Isso é muito importante exigir, sem o que a gente corre o risco da manipulação feita por coordenadores que têm oportunidade de formação política e depois passa seu ideário direto para a base no sentido mais interativo do que de consulta e de ouvir. É claro que isso não tem que se fazer de maneira repentina, pode até acontecer que para dar oportunidade a que o pessoal de base vai entendendo melhor o manejo  daquela atuação, alguns de base venham a ter um tempo por volta de um ano pro exemplo para aprenderem a gerir o negócio em relação à base.   Mas, evidentemente sendo garantido que os coordenadores voltem para a base e os que estão na base possa exercitar a coordenação colegiada.

Outro fundamento que eu friso muito nas minhas falas, nas minhas discussões, nos meus escritos, é o que eu entendo pelo caráter revolucionário de alternância de cargo ou função. Em que consiste esse mecanismo de alternância de cargo ou função? Consiste na prática de que a ninguém seja permitido ocupar cargo ou função de maneira longa, de maneira prolongada, mas findo o seu prazo seja outro que venha ocupar. É um mecanismo revolucionário porque faz com que se combata a tendência de viciamento por parte dos coordenadores que se eternizam nas coordenações, e dão lugar a que novos coordenadores provenientes da base assumam esse novo protagonismo. Portanto, eu considero fundamental a prática desse mecanismo de alternância de cargos e funções. Isso quanto ao lado dos deveres e das tarefas organizativas.

 

Processo formativo

 

Primeiro, de que formação se trata? Trata-se de uma formação permanente. Isso significa quer dizer que não pode e não deve confundir-se com uma formação escolar, desde a creche até a pós-graduação. É preciso ser uma formação continuada. Como sabem, nós passamos relativamente pouco tempo na escola, 10 anos, 12 anos… Mas, a escola termina seu período, então é preciso que essa formação continue para além da escola. Não se trata de a gente desprestigiar a formação escolar, pelo contrário, eu não tenho o que me queixar de ter nela vivido em torno de 25 anos.  No entanto, é importante ter em mente que não se trata da formação escolar. Isso porque, a formação escolar, tanto a formação das escolas públicas, quanto das escolas particulares, a organização da educação, ela é controlada diretamente pelo Estado, e a gente sabe quem é o Estado. E um braço forte, o esteio, uma pilastra mestra do sistema capitalista, ao lado do Mercado burguês. De modo que, sendo o Estado que organiza toda a educação escolar, evidentemente os movimentos sociais que fiquem atrelados a essa forma de organização vão ter problemas mais cedo ou mais tarde como já tiveram. Foi com tristeza, por exemplo, que eu recebi o distanciamento de algumas lideranças dos movimentos sociais populares de suas respectivas bases e ascenderem aos espaços governamentais. Acho que isso não ajuda ao processo de autonomia, do exercício de autonomia dos movimentos sociais. Não se trata de ser alguém isolado. Não: conversa com todo mundo.  Uma coisa é conversar com todo mundo, outra é aceitar cargos do aparato estatal. Aí é uma diferença grande e perigosa. Primeiro ponto que gostaria de destacar é esse: a educação popular tem que ter esse alcance formativo permanente, invés de ficar contente apenas com a formação ministrada pelo Estado, pela escola, a gente trata de estar todo dia em processo de formação até o final da vida. Essa é a educação popular que os movimentos populares são chamados a exercitarem e a transmitirem também. E a educação popular na perspectiva freiriana, de não se conterem com a formação escolar. Nessa direção é interessante saber que essa educação protagonizada pelos movimentos sociais populares, do campo e da cidade têm uma necessidade de uma continuidade permanente, de não ser oferecido algum elemento aqui e depois descontinuado acolá. Tem que ser uma programação permanente de formação dessa educação popular e também desse processo organizativo. É preciso que a educação popular tenha esse compromisso de fazer acontecer as reivindicações tomadas pela base, pelos núcleos, pelos conselhos populares, pelos círculos de cultura, e assim por diante, no sentido de fazer com que o que seja aí estudado de maneira permanente a partir de elementos que vão sendo oferecidos por forças sociais importantes, por exemplo, com a entrega de revistas, como teoria e debate, jornais como Companheiro, Em tempo, e outros. A gente deve ter isso presente continuamente para ser o mecanismo de formação permanente desses grupos. A formação política se dá pelo acompanhamento do que anda se passando em âmbito Latino Americano, em âmbito mundial, em âmbito brasileiro e em âmbito também de nossa região Norte, Nordeste e assim por diante. Então é preciso levar a sério esse desafio que é buscar formar a consciência crítica daqueles participantes no sentido deles terem presentes quais são os desafios reais diante dos quais estamos e como se organizar para enfrentá-los de maneira exitosa.

 

Processo de mobilização

 

A mobilização não pode ser algo que aconteça de maneira periódica, quase inexistente, tem que estar presente também. A mobilização constitui um ponto dessa formação dessa educação popular que faz com que aqueles e aquelas que participam tanto do processo organizativo, quanto do processo formativo assumam o compromisso de lutarem, de se viabilizarem, de mostrarem atentos e militantes nas ruas. Essa história de achar que a direita tem o monopólio das ruas, chega a ser um escândalo para nós. A direita nunca foi um setor que motivasse as movimentações de rua, ainda que haja derrame de dinheiro venha a ser feito. No entanto, isso é tarefa só das lutas populares. Daí a importância da gente ligar tanto o processo organizativo, quanto o processo formativo ao processo de luta, de luta permanente no dia-a-dia enfrentando os desafios que estão ao nosso alcance.

 

* Texto-base, gravado em áudio, que inspirou a exposição compartilhada – junto com a Professora Georgina Cordeiro, a Professora Ivanilde Apoluceno de Oliveira, da Cátedra Paulo Freire da Amazônia, do Estado do Pará, e o Professor Reinaldo Fleuri, da UFSC, mediado pelo Professor Sulivan de Souza, quando da Sessão de abertura da XVII Jornada Paulo Freire, promovida pela Universidade Estadual do Pará (UEPA). O presente texto reflete seus traços de oralidade, comportando, inclusive, repetições, pelas quais me escuso perante os leitores e leitoras. O autor agradece a Luciana Calado Deplagne, a Heloíse Calado, a Gabriel Calado e a Eliana Calado pela cuidadosa transcrição.

 

João Pessoa, 16 de novembro de 2022.

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