O que foi que nós perdemos?

Um breve texto de Gustavo Barreto, teve a virtude de suscitar em mim algumas reflexões. Trata-se de um poema, intitulado Onde foi que nos perdemos?, que pode ser lido nesta mesma edição da revista. O poema tem a condição de despertar em nós, alguma sensibilidade adormecida, uma parte da nossa humanidade que se perdeu, que ficou muito longe.

O poema de Gustavo Barreto chama a atenção para a perda de algo que nem sempre nos damos conta que foi perdido: nós mesmos, essa parte nossa que morre cada vez que nego um abraço, cada vez que me distancio de alguém para apenas usá-lo ou usá-la. E isto ocorre dia após dia, vem acontecendo há muitos anos.

Este breve poema me tocou fundo. A mecanização da vida em volta. A tecnificação dos seres humanos. E não são “os outros” os que se tecnificaram. Sem me dar conta, algo de mim também foi se distanciando, foi ficando cada vez mais longe.

Creio que tenha sido ontem que lera este poeminha, curto mas muito tocante, que me está trazendo mais de volta para mim mesmo, para o presente, para o contato humano. Perguntei-me várias vezes por que é que me senti tocado pelas palavras de Gustavo Barreto. As respostas são várias, não uma só.

Senti-me de volta para a minha juventude, quando tudo era tão intenso, tudo importava demais. Lembrei o quanto me importava o contato com as pessoas mais simples, nos meus tempos de estudante.

Como valorizava a fala, os sentimentos, as histórias de vida de pessoas que não eram intelectuais nem profissionais nem militantes ou crentes.

Uma das respostas que me veio à mente, foi: o medo. O medo me põe na defensiva, faz com que me esconda, com que desconfie. Mas o medo do outro é medo de mim mesmo. Isto não é novidade. Por qué temo o contato com alguém? Porque temo a mim mesmo. E por que temo a mim mesmo? Porque aprendi a me condenar. Mas se não me condeno, se me quero, se me amo, então o outro não é uma ameaça. O outro é muito parecido comigo, conquanto seja extraordinariamente diferente.

Hoje de manhã, talvez por influência deste poema, talvez por circunstâncias de perda de uma pessoa muito querida, a sensibilidade me levou a sair deste distanciamento. Fui despachar umas cartas na agência de correios da universidade, e tratei de tratar o funcionário que me atendia, como um ser humano. Não apenas usá-lo para que as cartas ingressassem no espaço da empresa dos correios, com destino a algumas pessoas muito queridas que moram na Argentina.

O funcionário me disse que eu teria que esperar, que estava abrindo o sistema. O computador. Tudo bem, eu disse, já estou esperando. Conversamos sobre o calor, os tempos atuais, a insegurança. Nada demais. Mas voltei para casa com uma alegria antiga, revivida.

Antes, estivera no sindicato, a pegar umas senhas para o lançamento do meu livro Déjalo Ser – Diario de un despertar, que será no dia 14 de dezembro, na sede social do sindicato. Lembrei que a funcionária que me atendia tinha me dado caixas, com muita alegria e dedicação, quando mudei para o apartamento onde moro. Não a usei apenas para receber as senhas. Isto me fez bem. O poema também.

O livro Déjalo Ser-Diario de un Despertar, pode ser lido neste link:
https://docs.google.com/file/d/0B4KS2GvQoLgHdTNiVzA1d2QxYm8/edit?pli=1

Deixe uma resposta