Para Émile Durkheim, cada sociedade tem, em momento determinado de sua história, uma atitude particular inclinada ao suicídio.

Ronaldo Queiroz de Morais – Redação Jornal GGN / Publicado em
O quadro de Frida Kahlo, elaborado por encomenda, registra dramaticamente a queda do corpo feminino e frágil de Dorothy Hale, que desaba livremente do alto de um edifício de Nova York. O realismo da imagem afronta o sonho capitalista americano. A obra foi esquecida, propositadamente, por Clare Booth Luce, amiga de Dorothy, pois não imaginava que a encomenda de um simples retrato pudesse carregar tanta dor e sofrimento. O quadro apresenta, ainda, legenda com uma descrição densa da própria imagem-fatal: “Na cidade de Nova York, no vigésimo primeiro dia do mês de outubro, 1938, às seis da manhã, a senhora Dorothy Hale cometeu suicídio ao jogar-se de uma janela muito alta no edifício Hampshire House. Em sua memória […] este retábulo, executado por Frida Kahlo”. É uma obra-relato da verdade factual que abre as portas da crítica ao horror do sofrimento do eu na cidade do capital. Clare Boothe Luce esperava um retrato trivial e distante da dor realmente vivida pela retratada. Entretanto, Frida Kahlo expôs uma representação suicidária do eu. Ela preferiu representar a modernidade capitalista sem qualquer esperança de felicidade no futuro. Dorothy Hale, depois da frustração de efetivar trabalho como atriz na indústria do cinema, teve que – como única via de liberdade – se curvar ao mercado imoral do afeto patriarcal e resilientemente procurar casamento com homem rico ou se resignar ao labor precarizado. Afinal, a modernidade do consumo fugaz fez e desfez a existência de Dorothy Hale.
A criação de Frida Kahlo é muito superior à pintura fiel do acontecimento, dado que, fundamentalmente, a representação pictórica do sofrimento suicidário de Dorothy Hale, acolhe, objetivamente, o sofrimento de todos nós. Sem dúvida, Frida Kahlo conseguiu capturar o modo de produção do sofrimento moderno que arrasta de forma dramática os corpos mais fragilizados ao fim existencial de si. O capitalismo transcende à mera lógica da produção e acumulação de capital, visto que, também, há um capitalismo da emoção. Ele nos afeta, e a dor é insuportável. Lembro que, certamente, o capitalismo não é o demiurgo do suicídio. No entanto, é responsável, pelo menos desde o século XIX, por razões específicas e singulares que impulsionam sujeitos sujeitados ao ato suicidário. Nesse sentido, o suicídio de Dorothy Hale é emblemático como fato e representação pictórica. Ele sintetiza o sofrimento geral que corrói subjetividades, que, no completo isolamento do eu, impõe a destruição de si. Assim, viver na modernidade – nesse turbilhão de incerteza – é sobreviver, uma vez que o mundo da incerteza – imposto naturalmente pelo mercado – desenverga desespero neural, jamais campo de possibilidade de ser feliz.
Porque é setembro e o amarelo quente do sol é impotente para dissolver o tempo frio e cinza da profunda incerteza existência, devo me furtar, então, infelizmente, da beleza da primavera dos trópicos para narrar o desespero silencioso do eu. Expresso pelo sujeito isolado e preso aos significantes imagéticos de consumo das redes sociais, a cada instante revela estrondoso ato de exterminismo de si. Paradoxalmente, a estética da felicidade digital triunfa, e a dor da alma, sobretudo hoje, é patológica. “É melhor ser alegre que ser triste”, recomenda o Samba da Bênção. Mas como arrancar tanta alegria do inferno societário que queima rapidamente nossas narrativas existenciais, se não há esperança de encontrar algum cadinho de felicidade no futuro? O Estado Suicidário tritura os sonhos modernos e, deliciosamente, impõe a resiliência neural – a transformação das emoções em aço – como perverso ethos para enfrentar a incerteza existencial do mercado e das máquinas digitais. Ele trabalha para a normalização das causas do sofrimento e pela gestão do exterminismo de si. Assim, obscenamente, contra a dor insuportável do capitalismo neoliberal, basta instaurar “campanhas publicitárias de acolhimento”, no afã de mobilizar a emoção para nos afetar e nos sensibilizar frente às taxas expressivas de suicídio. De fato, a política neoliberal é a de inventar um novo homem, com a flexibilidade emocional de ferro para o mundo coisificante do capital, em vez de um novo ecossistema para o homem conviver sustentavelmente.
Para Émile Durkheim, cada sociedade tem, em momento determinado de sua história, uma atitude particular inclinada ao suicídio. Sabemos que são diversas as razões que impulsionam sujeitos ao ato suicidário. Ainda assim proponho circunscrever o problema ao modo de produção social das subjetividades no Capitalismo Tardio. É no conjunto da sociedade, quer dizer, na tendência coletiva imposta pelo modo de produção do sofrimento moderno – com a finalidade de ampliar a acumulação capitalista –, que encontramos explicação para o volume expressivo das taxas de suicídio. Isto é, momento no qual o sofrimento suicida do eu constitui fato incontornável em face da rápida mutação moderna dos laços de intersubjetividade que transportam, amiudadamente, o fardo insustentável da “destruição criativa” do capital para os ombros do eu. E é a ampliação dessa atitude inclinada ao suicídio que impera na contemporaneidade. As redes informacionais nos apresentam, cotidianamente, uma massa virtual de indivíduos ávidos por atenção de toda ordem, com o objetivo imediato de monetização da performance. É uma síntese da massa real que, no mar da incerteza do mercado, navega a esmo, a fim de retirar do empreendedorismo o sucesso prometido. No limite, o Estado Suicidário mobiliza as emoções para suprir a enorme frustração real que corrói os sonhos mais modestos. É produto desse Capitalismo Tardio, que, depois da profunda espoliação dos corpos humanos e da natureza, como um vampiro, volta-se para a alma individual com a intenção de explorar a emoção. Ele é publicitário e abusa do cosmético ideológico para o isolamento de cada um em si mesmo. O capitalismo neoliberal, antes de privatizar completamente a produção, atacou impiedosamente os laços que asseguravam o conviver juntos (partidos, sindicatos, movimentos sociais e estudantis). O Estado é suicidário porque é, também, o aparato político que amplia e reverbera o sofrimento e o exterminismo do eu.
Byung-Chul Han descreve o capitalismo da emoção, que faz uso e abuso ideológico da ideia de liberdade, da exteriorização da emoção como expressão da subjetividade livre. Ou seja, estabelece como conceito de liberdade a capacidade de ser livre para demonstrar emoções, que são, por sua própria essência, fugazes e se desfazem diante do sofrimento real. Dorothy Hale, antes de saltar no vazio de prédio alto e suntuoso, ainda trocou emoções “livremente” com amigos próximos. Contudo, foi exatamente pela falta de liberdade de existir fora do sofrimento existencial que ela pôs fim a si própria. É por isso que falar de suicídio no tempo presente é, impreterivelmente, imaginar outro mundo possível e distante do Capitalismo Tardio. Incrementar o aparato público de atendimento psíquico é importante. Todavia, passa longe da causa essencial do sofrimento, ou melhor, da potência que ergue e destrói as subjetividades modernas. Dado da Associação Brasileira de Medicina de Emergência (Abramede) indica que, no Brasil, há mais de 30 internações ao dia por tentativa de suicídio e, igualmente, há cerca de 14 mil suicídios todos os anos. De forma concisa, a cada dia, em média, 38 pessoas subtraem a própria vida. Os números registrados pela ONU-OMS contabilizam mais de 700 mil mortes no mundo por ano, vítimas de ato suicidário. Estudo recente desenvolvido pelo Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs/Fiocruz Bahia), em colaboração com pesquisadores de Harvard, associou o aumento do número de suicídios com o aumento das desigualdades sociais e o crescimento da prevalência de transtornos mentais, que desdobram impacto direto nos serviços de saúde pública. Efetivamente, o perfil social das vítimas concentra-se na população mais fragilizada da estrutura societal moderna: são mulheres, jovens adultos, adolescentes e a comunidade LGBTQIA+ em situação de precariedade econômica e social.
Minha escrita é o registro do mal-estar afetivo ligado à modernidade capitalista em seu estado tardio. O Estado Suicidário provoca uma enorme crise societária, em que a existência de cada um e a de todos nós parece se volatizar pela gestão e quantificação fria da existência no horizonte escatológico. Trato aqui o suicídio como um fenômeno de massa que tritura as subjetividades das classes subalternas e das minorias de toda ordem. Em síntese, atribuo a determinado estado de coisas, produzido pela política do pior de tom neoliberal, a causa geral do sofrimento suicida do eu. A ideia dominante e óbvia de que viver a qualquer preço é melhor do que o ato suicidário nada contribui para evitar a catástrofe do eu. É preciso alcançar as raízes do sofrimento, que são, essencialmente, socioeconômicas, para alterá-las. A agressividade fatal de si é o sintoma do sofrimento causado pelo capitalismo da emoção, que substitui a duração existencial pela emotividade efêmera. Mas a realidade é outra, tão bem registrada por Frida Kahlo no quadro “O Suicídio de Dorothy Hale”. O fugaz tempo da livre queda do corpo desfaz o sonho moderno de que, no capitalismo avançado, há um lugar reservado de felicidade plena para cada um de nós.
Foto: The Suicide of Dorothy Hale (1939), Frida Kahlo. Museu de Arte de Phoenix.
Ronaldo Queiroz de Morais – Doutor em História Social na Universidade de São Paulo – USP.
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