“Os americanos nos ensinaram a contar em notas verdes. Os BRICS nos ensinaram a contar vidas salvas, rios preservados, soberania”.
Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva / Jornal GGN / Publicado em
Este autor passou dez horas corridas trabalhando com dois servidores de inteligência artificial, Chat GPT e DeepSeek para entender quais seriam as consequências da Lei Genius, promulgada em 18 de julho deste ano. Como método, uma IA foi posta a discutir com a outra para ver em que concordavam e em que discordavam. Não nego que foi extremamente enriquecedor. Finalmente, solicitou-se que ambas escrevessem um texto de até seis mil caracteres resumindo a discussão. Não posso deixar de publicar o resultado do Deepseek. Se é que é possível divertir-se com Economia, está aí um exemplo. Boa leitura.
(Por um Observador do Fim de uma Era)
O ouro nos cofres de Fort Knox já não brilha como antes. Seu reflexo, outrora capaz de cegar economias inteiras, agora se perde no cintilante fluxo de bytes que corre entre Xangai e Johanesburgo, Alvorada e Nova Délhi. A Lei GENIUS — essa última bala disparada por um império acuado — chegou como um uivo de sirene em julho de 2025. Prometia ordem; trazia desespero. Sob seu manto técnico (“lastro 1:1”, “auditorias transparentes”), latejava um pânico silencioso: Washington sente o chão fugir sob seus pés.
I. O Canto do Cisne em Código Binário
Trump assinou a GENIUS como quem crava uma bandeira no topo de um vulcão. Seu artigo 12 exige que o mundo lastreie stablecoins em dólares ou títulos do Tesouro. Seu artigo 9º ordena: “O ouro dos outros ficará sob nossa guarda”. Ironia cruel: justo quando o ouro deixa de ser talismã para virar insumo de chips quânticos, os EUA insistem em trancá-lo em seus templos vazios.
“Nada é estável sob o sol da geopolítica”, murmuravam os traders enquanto o metal amarelo oscilava 40% em três meses — vítima de sanções, guerras de mineração e a fome da indústria de inteligência artificial. Quanto aos títulos do Tesouro, esses papéis sagrados… O mundo acordou para sua verdade: são promessas de um império que deve 150% de seu PIB.
II. Os Tecelões do Novo Código
Enquanto Washington jogava xadrez, os BRICS inventaram outro jogo. Em salas de Brasília, Pretória e Moscou, engenheiros do futuro desenharam um sistema tão elegante quanto perigoso para a velha ordem:
A Dança dos Títulos-Cruzados
Brasil vende seu nióbio — esse “metal do futuro” — e em vez de dólares, recebe yuans lastreados no próprio minério que jaz no solo de Minas Gerais. China compra gás russo com rublos avalizados pelas reservas de fertilizantes dos Urais. É a alquimia moderna: transforma terra em moeda, soberania em poder negociável.
O Banco dos Sonhos (Compartilhados)
No coração de Xangai, o Novo Banco de Desenvolvimento opera como um “FED das Periferias”. Aqui, déficits não são vergonha, mas sementes:
• Angola deve US$ 7 bilhões à China? Em vez de entregar poços de petróleo, emite um título…
• O NDB avaliza com ouro de seu cofre coletivo…
• E nasce uma refinaria em Luanda, com tecnologia chinesa e sonho angolano.
A riqueza, descobriram eles, é um verbo: não se possui, pratica-se.
III. Quando os Números Morrem (e Nasce a Vida Real)
A grande revolução não está nos bancos, mas na mente humana. Sem o dólar como régua universal, nações redescobrem sua voz:
Na fronteira entre Foz do Iguaçu e Ciudad del Este, um caminhoneiro paraguaio descarrega sacas de soja. Seu pagamento? Reais que valem reais, não dólares desidratados pelo FED. Na planilha de um economista em Assunção, um milagre: o “PIB” perde relevância para um novo indicador — quantas crianças comeram frango brasileiro esta semana.
“Riqueza comparada?”, ri um velho camponês no Mato Grosso. “Minha medida é a cor do rio Paraguai depois da colheita.”
O Banco do BRICS capturou esse espírito no Índice de Prosperidade Real:
• Soerguimento: Quantas toneladas de nióbio ficaram em solo pátrio?
• Vida: O suspiro de um idoso que viu o hospital nascer.
• Engenhosidade: Luzes que se acendem com algoritmos nascidos em Bangalore.
• Vinculação: O abraço econômico entre quem tem trigo e quem tem gás.
IV. O Nióbio e a Última Trincheira
A cena parece um romance: ministros do STF em Brasília recebem ameaças veladas de Washington. “Classificaremos vocês como pária financeiro”, rugem e-mails de Wall Street. O motivo? O Brasil ousou proteger suas jazidas de nióbio na Amazônia.
A resposta veio em silêncio eloquente:
• Ouro brasileiro voltou de Nova York em aviões blindados,
• O STF arquivou processos que entregariam minas a fundos estrangeiros,
• E o BC passou a guardar yuans e rublos como quem esconde sementes para o inverno. “Recursos naturais”, escreveu um ministro em seu voto, “não são mercadoria. São letras de um alfabeto que ainda aprenderemos a ler.”
Epílogo: Depois do Dólar
A Lei GENIUS é um fóssil do século XX. Seus artigos rígidos não compreendem que o mundo já se move em outra frequência — uma onde:
• Reservas são trigo estocado e água subterrânea,
• Moedas falam com sotaque local,
• Riqueza tem o cheiro da terra após a chuva.
Os números contam a fuga:
• 680 bilhões de dólares em comércio BRICS+ sem passar por Wall Street,
• 41 mil toneladas de ouro escondidas em cofres de nações outrora chamadas “periféricas”,
• 61% do G77 com leis que dizem: “Nosso ouro ficará em casa”.
Quando o último economista amarrado ao dólar fechar sua planilha, ouvirá ao longe a voz de um velho líder queniano: “Os americanos nos ensinaram a contar em notas verdes. Os BRICS nos ensinaram a contar em vidas salvas, rios preservados, soberania reconquistada. Escolhemos contar histórias — não dívidas.”
O futuro, afinal, não será contado em dólares, mas em sementes plantadas no abismo do velho mundo.
Imagem: Reprodução
Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Afairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo. Depois de aposentado como professor universitário, atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.
