O cinema romeno mantem destaque em Cannes

Por Raquel Gandra (*), de Cannes, para a Revista Consciência.Net

Após a surpreendente premiação da 60° edição de Cannes, que em 2007 prestigiou o filme de Cristian Mungiu, 4 meses, 3 semanas e 2 dias com a Palma de Ouro, o cinema Romeno continua cada vez mais conquistando espaço no panorama dos festivais e consequentemente no panorama internacional.

Outros filmes também ajudaram a construir a admiração e o respeito por essa retomada. Em 2005, Cannes exibiu, na mostra paralela Un Certain Regard, A Morte do Senhor Lazarescu (Moartea Domnului Lazarescu), de Cristi Puium. Ao Leste de Bucareste (A Fost Sau n-a Fost?), de Corneliu Porumboiu, Como eu Vi o Fim do Mundo (Cum Mi-am Petrecut Sfarsitul Lumii), de Catalin Mitulescu, e California Dreaming, de Cristian Nemescu, que morreu inesperadamente aos 27 anos em 2008, passaram no Brasil, seja em circuito ou no Festival do Rio, e atraíram a curiosidade de todos aqueles que querem saber um pouco mais sobre as culturas do leste europeu, um mundo que parece tão distante devido a seu passado político e consequente isolamento.

Este ano, a Mostra Un Certain Regard, nos ofereceu a oportunidade de acompanhar a evolução desse cinema através de dois filmes:

Police, Adjective de Corneliu Porumboiu e a obra coletiva Tales From The Golden Age dos diretores Hanno Höfer, Razvan Marculescu, Cristian Mungiu, Constantin Popescu e Ioana Uricaru. Um grupo que representa um pouco o futuro do cinema Romeno.

O primeiro é um filme simples, com narrativa lenta, sem trilha sonora não justificada diegeticamente, diálogos engraçados e uma estética realista e de observação, com planos abertos e estáticos e poucos movimentos de câmera.

Police, Adjective fala sobre um policial em meados de uma investigação de um adolescente que todos os dias, depois da aula, fuma maconha com alguns amigos na saída da escola. Ele precisa averiguar se o delito é apenas o uso da droga ou também tráfico. Cristi, o protagonista, conclui que o rapaz não é um traficante, mas não tem como o provar. Ainda assim, ele se recusa a fazer uma operação de flagrante, pois não acha justo que o rapaz perca alguns anos de sua vida na prisão sem grandes justificativas.

Como a maioria dos filmes da leva romena, este consegue igualmente misturar seriedade e humor, drama e risadas. O timing cômico se estabelece principalmente através do tempo, do silêncio, do constrangimento, das longas esperas (longos takes), da aparente inutilidade de certos diálogos e das situações patéticas geradas por todos esses fatores.

A narrativa é pontuada por diversas cenas de conversas entre Cristi e sua mulher, com quem discute regras de gramática, seu chefe, com quem fala sobre viagens e termos que designam cidades e seu colega de trabalho, inocente e ignorante, um pouco no papel do bobo da corte. Tais conversas, como pode-se ver, não se concentram apenas no tema principal, mas giram em torno de anedotas e comentários sobre o cotidiano, ajudando mais uma vez a gerar comicidade – a seriedade com a qual discutem algo que parece banal, o estranhamento criado pelo distanciamento do contexto esperado, o ritmo calmo e pausado das respostas e dos gestuais dos atores, e a montagem que se concentra quase sempre em deixar os planos sequência, sem cortes.

O dilema entre lei e moral é outro aspecto bastante interessante da história. Cristi acha que a lei já está ultrapassada e diz preferir ter a consciência tranquila do que seguir as regras cegamente. A partir daí temos a oportunidade de refletir sobre o que seria mais imporante, a sua moral interna ou a da lei?

As discussões entre Cristi e sua esposa sobre o significado de uma música que ela escuta repetidas vezes na internet e que os levam a falar sobre gramática, por exemplo, são uma ótima forma metafórica de pensar nas regras criadas por um grupo minoritário que decide como a maioria deve falar, escrever ou, mais abrangentemente, agir em sociedade.

A simplicidade na realização do filme, a não pretensão, a leveza e a interessante discussão que este propõe lhe dão elementos suficientes para encher as salas de cinema.

Tales from the golden age é um conjunto de 5 curta metragens de 20 minutos cada, que contam pequenas histórias de lendas urbanas relacionadas a época do comunismo. Desde lendas mais diretamente relacionadas a política, como uma cidadezinha que espera a visita do fiscal do governo que nunca chega, até histórias que mostrariam um pouco a pobreza da cidade, as condições de vida de seus habitantes e até que ponto estes chegavam para superar os problemas. Todas as cinco são bem realizadas e mantêm uma unidade com o todo, mais uma vez equilibrando tom sério e leve.

Uma forma divertida de fazer o espectador conhecer um pouco da história Romena, Tales from the golden age é mais um bom filme que fico feliz de ter tido a oportunidade de assistir em Cannes.

(*) Raquel Gandra é editora de Cinema e Artes da Revista Consciência.Net. Mora atualmente na França e está cobrindo o Festival de Cannes.

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