David Carradine (1936-2009)

Foram tão deprimentes as circunstâncias da morte de David Carradine que só agora eu me sinto em condições de escrever algo sobre ele.

Ao tomar conhecimento de que a causa mortis seria, segundo a polícia tailandesa, uma prática autoerótica malsucedida, dois pensamentos me ocorreram.

Lembrei-me do caso do gerente de uma grande empresa que, já próximo da aposentadoria, caiu em desgraça: tiraram-lhe a autonomia, colocando-o sob as ordens de um chato de galochas. A decepção foi tamanha que, transando com a amante dias depois, foi fulminado por um ataque cardíaco.

Isto aconteceu no horário de expediente. A fulana teve o bom senso de avisar primeiramente os colegas de serviço dele. E estes, o despreendimento de vestirem o defunto e transportá-lo do prédio onde morreu (próximo) até o estacionamento da sua empresa, para que lá fosse encontrado.

Arriscaram-se a ter sérios contratempos com as autoridades, mas salvaram as aparências, poupando a esposa e filhos do pobre coitado de um vexame que tornaria ainda mais amargo o momento.

Pena que nenhum bom samaritano haja evitado o dano póstumo à reputação de David. Por que os malditos policiais tailandeses não tiveram, pelo menos, o profissionalismo de esperar a conclusão do inquérito, antes de darem com a língua nos dentes?!

Também me ocorreu que as mortes de Bruce Lee e do seu filho Brandon foram igualmente esquisitas. Fatalidades bizarras atingirem três atores ligados a filmes de kung-fu é coincidência demais. Eu não descartaria a hipótese de assassinato e armação de cenário. A família de David manifestou a mesma desconfiança.

Mas, falemos do ator, que é o que realmente importa.

David era filho de John Carradine, canastrão de filmes classe B, principalmente os de terror. Entre fitas de cinema e seriados para TV, John tem registrada 340 atuações, ao longo de 57 anos, no site especializado IMDB.

Além disso, John conseguiu encaixar seus filhos na profissão: David e Keith tiveram carreiras mais marcantes, Robert sempre foi um coadjuvante muito requisitado.

Isto, aliás, ajudou o diretor Walter Hill a viabilizar uma idéia pitoresca: utilizar atores que eram irmãos na vida real para personificarem os manos integrantes do bando de Jesse James, em Cavalgada de Proscritos (1980).

Assim, David, Keith e Robert interpretaram os Youngers Brothers, enquanto James Keach foi Jesse James e Stacy Keach, Frank James. Dos cinco, o mais marcante foi mesmo David, como Cole Younger. Tinha carisma.

Ele estreou como ator em 1963, nos seriados de TV, mas sua carreira só decolou mesmo ao interpretar o gafanhoto Kwai Chang Kane nos 46 episódios da série Kung Fu, entre 1972 e 1975 (depois, de 1993 a 1997, reassumiria o personagem, com idade mais avançada, nos 83 episódios de Kung Fu – A Lenda Continua).

A sorte favoreceu David, pois quem deu a idéia inicial para essa série foi Bruce Lee, acreditando que ela o catapultaria para o estrelato, depois de ter despontado bem no seriado O Besouro Verde (como Kato, o empregado do herói).

O estúdio, entretanto, não quis colocar um verdadeiro oriental como protagonista, preferindo repuxar os olhos de Carradine e alisar-lhe o cabelo para fazê-lo passar-se por chinês. Foi uma reprise do caso de O Cantor de Jazz (1927), primeiro filme falado, no qual o branquelo Al Jolson passou graxa na cara para ficar parecendo um cantor negro.

O êxito na telinha alavancou a carreira de David na telona. Pouco antes do lançamento de Kung Fu, passara despercebida sua boa atuação em Sexy e Marginal, dirigido por Martin Scorcese (1972). Foi, aliás, um filme em que teve a oportunidade de atuar ao lado do pai.

Surfando nas águas do sucesso televisivo, destacou-me muito mais como o protagonista do trash Ano 2000 – Corrida da Morte (d. Paul Bartel, 1975), incomparavelmente pior.

SEU GRANDE PERSONAGEM: WOODY GUTHRIE

Seu apogeu viria logo a seguir: compôs um Woody Guthrie inesquecível em Esta Terra É Minha Terra (d. Hal Ashby, 1976).

É um dos três principais papéis de sua carreira, favorecido por ser Guthrie (o inspirador de Bob Dylan) um magnífico personagem: trata-se do cantor/compositor folk que percorria o país como vagabundo na época da Grande Depressão, viajando no teto dos trens, apresentando-se nos acampamentos de desempregados e estimulando a sindicalização dos trabalhadores.

David também dirigia. Americana, um filme que começou a fazer em 1973 e só conseguiu finalizar dez anos depois, é surpreendentemente bom, apesar da precariedade da produção e de os demais atores quase nada acrescentarem (o esquema foi caseiro, David recebeu uma força dos parentes e amigos envolvidos com o cinema).

Outra de suas performances superlativas foi num filme menor de Ingmar Bergman, O Ovo da Serpente (1978). Os críticos pernósticos empinaram o nariz, não admitindo que o astro de Kung Fu profanasse o templo da grande arte…

Na verdade, Carradine se mostrou muito mais inspirado como ator do que o celebrado Bergman como diretor: o filme começa muito bem, flagrando a prostração reinante na Alemanha durante a hiperinflação da década de 20, mas depois desanda, ao colocar extemporaneamente um experimento com cobaias humanas como trailer do nazismo (isto só aconteceria bem depois da época em que transcorre a ação) .

Finalmente, ele teve superlativo desempenho no cult O Círculo de Ferro (d. Richard Moore, 1978), um projeto memorável em todos os sentidos: foi uma homenagem póstuma a Bruce Lee.

Dois roteiristas deram forma a uma idéia que o dragão chinês esboçara: uma jornada do conhecimento, cumprida por um praticante de artes marciais, servindo para apresentar ao público ocidental as linhas-mestras do zen-budismo. É um filme belíssimo, com David assumindo quatro personagens distintos.

O estereótipo dos filmes de ação, entretanto, acabou prevalecendo sobre as qualidades que ele mostrara em alguns papéis dramáticos. E nada mais fez de realmente bom, embora nunca parasse de trabalhar (superou a marca de 300 atuações, a maioria, claro, na TV).

Discordo dos que aclamaram sua performance no Kill Bill Vol. 2 (d. Quentin Tarantino, 2004) como um renascer das cinzas. Esteve mais para uma caricatura dos seus personagens anteriores, com uma artificialidade até constrangedora.

Foi impressionante apenas como símbolo, já que sua morte na tela nos tocou como se fosse a saída de cena do último titã e o apagar das luzes de uma época em que éramos bem mais inocentes e esperançosos. Ninguém mais acredita que um monge de Shao-Lin possa sozinho sanar os males da sociedade… infelizmente.

E é por essa grandeza simbólica, além dos lampejos de grande ator, que lhe desejávamos um the end mais apropriado. Os deuses foram cruéis com ele.

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