O Caminho de Emaús – Lc 24, 13-35

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No “Caminho de Emaús”, Jesus revela-se como:
Luz do Mundo”
Palavra encarnada do Pai”
Pão vivo descido do céu”

Este “Caminho de Emaús” pode simbolizar o nosso próprio caminho, nossa caminhada como peregrinos aqui na terra, ou seja, a nossa própria vida com todos os seus problemas e dificuldades, mas também com as alegrias e esperanças. A presença de Jesus neste caminho – Ele que é o próprio Caminho – faz toda a diferença, dando um novo rumo e sentido à nossa vida e existência, fazendo-nos enxergar com os olhos da alma e do coração, levando-nos à partilha e à alegria da vida fraterna em comunidade.

Discute-se muito, ainda hoje, quem seriam estes discípulos. Na verdade, o que todos concordam é que estes Discípulos podem ser todos nós, cada um de nós nesta caminhada com o Mestre de Nazaré. É muito importante lembrar que estes discípulos já eram seguidores de Jesus, no entanto, estavam tristes e desanimados, pois não esperavam um fim tão trágico: a morte de Jesus numa cruz – pena máxima aos que eram considerados os piores bandidos e transgressores da lei estabelecida – e, assim, estavam profundamente frustrados em suas expectativas de ver um Messias triunfante e poderoso, capaz de realizar qualquer milagre e de conseguir qualquer coisa, terminar daquele jeito. Como pode, quem fez tanto pelos outros, terminar assim? Cadê o Jesus “poderoso”? Cadê o “rei” e o seu reinado?…

Será que, ainda hoje, não pensamos um pouco assim? Quando nos aproximamos de Jesus com interesses em curas e milagres e solução para todo e qualquer problema?… Quando olhamos para um Jesus triunfal, poderoso, um rei potente, cheio de poder e força, e não aceitamos “o servo sofredor”, o pobre humilde e desprezado?… Não admitimos o sofrimento – a cruz em nossas vidas – e tampouco queremos saber de morte, pobreza e dor. Nossa natureza humana rejeita tudo isto e, com certa razão, pois não nascemos para a morte, mas para a vida! O problema é que muitas vezes estamos “cegos”, vemos apenas com os olhos e paramos nas “aparências”, não enxergamos em profundidade a essência das coisas e pessoas, não vemos com os olhos da alma e do coração. “Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos”, diz Saint-Exupéry, no livro o Pequeno Príncipe. Aparentemente, a cruz, a dor, o sofrimento e a morte são o fim de tudo; no entanto, paradoxalmente, tudo isto é o começo de uma nova vida. Sozinhos, não conseguimos “enxergar” esta maravilha, por isso, precisamos da presença de Jesus em nosso “Caminho de Emaús” – e Ele sempre toma a iniciativa e vem ao nosso encontro – principalmente nos momentos mais sofridos, e foi isto que aconteceu àqueles discípulos tão arrasados e desanimados. “O próprio Jesus se aproxima e começa a caminhar com eles. Os discípulos, porém, estavam como que cegos, e não o reconheceram.” (Lc 24, 15-16).

Quando estamos muito tristes e desanimados, não percebemos a beleza da vida, a presença amorosa de Deus em nossas vidas, e esta presença é constante, através das mais simples coisas do dia a dia: o ar que respiramos, a brisa suave, a luz do sol, a chuva caindo mansamente, um pássaro voando, uma linda flor, um sorriso amigo, uma criança, um animalzinho, uma boa caminhada, uma comida saborosa, uma conversa agradável, uma boa leitura, uma música tocante…Tudo fica embaçado pelo sofrimento e pela dor, nestas horas, até nos perguntamos se Deus não se esqueceu de nós e não percebemos as ajudas que chegam constantemente. Jesus vem ao nosso encontro, caminha conosco, se faz peregrino e próximo a nós, vai iluminando a caminhada – Ele é a Luz do mundo – no entanto, nada disso percebemos, pois estamos tão envolvidos e tomados pelo sofrimento que fica difícil enxergar além de nós mesmos e da nossa própria dor.

Em sua pedagogia (ensinamento), Jesus torna-se próximo e se interessa por nós: “O que é que vocês andam conversando pelo caminho?” (Lc 24, 17). Às vezes, até faz de conta que nem sabe o que está acontecendo conosco e nos interpela sobre os últimos acontecimentos. Ele também gosta de nos escutar, de ouvir a nossa voz. Nossa resposta é sempre de perplexidade e admiração: “Tu és o único peregrino em Jerusalém que não sabe o que aí aconteceu nestes últimos dias?”. Jesus pergunta: O que foi?” (Lc 24, 18-19). Os discípulos contam tudo, tudo mesmo, pois, se é para falar de coisa ruim e de problema todo mundo tem a maior facilidade: lamentação, reclamação, revolta, desconfiança, decepção, descrença etc. tudo isto é com a gente mesmo! Pacientemente, Jesus nos escuta, mas não deixa de nos chamar a atenção: “Como vocês custam para entender e como demoram para acreditar em tudo o que os profetas falaram! Será que o Messias não devia sofrer tudo isso, para entrar na sua glória?” (Lc 24, 25-26).

Jesus, a Palavra encarnada do Pai, vai se revelando nas Sagradas Escrituras, cujo assunto principal, do primeiro ao segundo testamento, é Ele mesmo. Nele está a síntese do Projeto da Vida, do Amor, da Justiça, da Paz e da Fraternidade – o projeto do Reino de Deus. E assim, desde Moisés até os Profetas, Jesus vai explicando todas as passagens referentes a Ele mesmo. (Lc 24, 27).

Tudo começa a mudar, de verdade, quando vamos chegando cada vez mais perto do nosso povoado, ou seja, da nossa realidade. Convidar Jesus para entrar em nossa casa (em nossa vida) é fundamental neste processo. Esta porta da nossa casa, que é nosso próprio coração, somente pode ser aberta por dentro, por nós mesmos. Nem Deus interfere nisso, pois Ele é sempre muito respeitoso, paciente, educado, não “força a barra” para entrar em lugar nenhum, mesmo estando em todo lugar. Às vezes, até parece ausente, distante, distraído, como quem nada quer. “Quando chegaram perto do povoado para onde iam, Jesus fez de conta que ia mais adiante. Eles, porém, insistiram com Jesus, dizendo: ‘Fica conosco, Senhor, pois já é tarde e a noite vem chegando.’ Então Jesus entrou para ficar com eles.” (Lc 24, 28-29)

Nossa acolhida a Jesus, isto é, ao Projeto de Deus revelado e manifestado na Pessoa de Jesus, é fundamental para que tudo comece a mudar em nossa história. Esta insistência (ou persistência na oração) para que o Senhor fique conosco, geralmente se dá em momentos de grandes tormentas ou enormes dificuldades (tarde e noite chegando). Interessante que nós, seres humanos, em nossas manhãs ensolaradas (dias de alegria e felicidade), quase sempre esquecemos de agradecer e até de lembrar do nosso melhor e maior amigo. Somos “filhos pródigos”, no entanto, em algum momento, o importante é que haja alguma abertura, um convite, um acolhimento; e aí o Mestre, realmente, entra em nossa casa, senta-se à mesa conosco, fica em nossa família, em nossa intimidade, afinal, sentar-se à mesa com alguém é um grande gesto de familiaridade, de aconchego e proximidade. Não se faz isso com qualquer um! Pois Ele “Sentou-se à mesa com os dois, tomou o pão e abençoou, depois partiu e deu a eles.” (Lc 24, 30).

A partilha do Pão é o toque especial, é aquele momento sublime, profundo, íntimo, culminante, em que o próprio Jesus se revela. Ele é “Pão vivo descido de céu”. Esta passagem está associada à Eucaristia, ou seja, à Comunhão fraterna com Deus e com os irmãos. Nestas horas “os olhos se abrem”, reconhecendo a presença de Jesus ressuscitado. “Nisso os olhos dos discípulos se abriram, e eles reconheceram Jesus. Jesus, porém, desapareceu da frente deles.” (Lc 24, 31). Um desaparecimento aparente, pois não é mais necessária aquela sua presença sensível, física, uma vez que, agora, já se “abriram os olhos da fé”; trata-se, então, de uma presença espiritual em nosso coração e em nossa vida. Através do Seu Santo Espírito, permanece em nosso meio: “Ele está no meio de nós!”

Então um disse ao outro: Não estava o nosso coração ardendo, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?” (Lc 24, 32). Este reconhecer e “enxergar” (ver além das aparências) a sua presença no meio de nós, inclusive através das Sagradas Escrituras, aquece o nosso coração (ardor missionário) e nos leva a “sair” da nossa casa e comodidade para “anunciar” aos outros tudo o que “vimos e ouvimos”. Mas esta Boa-Notícia, ou seja, este Anúncio: “Jesus vive! Ressuscitou e está no meio de nós!” necessita ser confirmado no seio da Comunidade, mediante o testemunho dos outros irmãos, por isso: “Na mesma hora, eles se levantaram e voltaram para Jerusalém, onde encontraram os Onze, reunidos com os outros. E estes confirmaram: Realmente, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão!” (Lc 24, 33-34). Eram Onze reunidos, mas agora, com a chegada de cada um de nós, seremos Doze. Este é o número da Comunidade, pois não importa o que se perdeu, o que ficou para trás, o que desistiu; importa mesmo o que temos no presente, o que persistiu e resistiu diante das dificuldades e problemas. A presença na Comunidade é muito importante e significativa para todos e para cada um em particular, pois nela aprendemos uns com os outros, nos fortalecemos e damos o nosso testemunho. “Então os dois contaram o que tinha acontecido no caminho e como tinham reconhecido Jesus quando Ele partiu o pão.” (Lc 24, 35).

Esta participação na Comunidade precisa ser fortalecida constantemente, por meio da Oração, da Meditação da Palavra e da Comunhão Fraterna. Nossa Fé, Esperança e Amor vão se intensificando cada vez mais com a força do Santo Espírito (a Divina RUAH). Nossa Alegria em Anunciar Jesus como Senhor é imensa por sentir, a partir de uma experiência pessoal, Sua presença Viva em nosso meio: na Palavra (Sagrada Escritura), na Comunhão fraterna (Eucaristia) e em cada irmã e irmão. “Não podemos deixar de falar sobre o que vimos e ouvimos.” A Boa-Nova do Reino precisa ser proclamada a todos: “Vão e façam com que todos os povos se tornem meus discípulos…” (Mt 28, 19). Este primeiro Anúncio (Querigma) Jesus Ressuscitou e Vive entre nós” – cerne da mensagem cristã – é, segundo o Papa Francisco, a primeira e maior Caridade, principalmente nos tempos atuais, de tanta gente sofrida e sedenta de Deus, por isso ele conclama a todos para uma Igreja “em saída”, com portas e corações abertos à novidade do Reino do Amor, da Justiça e da Paz.

Ide pelo Mundo e Evangelizai!”

Pery_Açu

Peregrina da Esperança”

Bananeiras, 08 de outubro de 2021

Vera Periassu – poeta, cordelista e educadora popular
veraperiassu@gmail.com

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