Trump ameaça o Vaticano

Miguel Paiva

No mapa-múndi pendurado torto na parede do Salão Oval, Trump apontou com um palito de dentes um pontinho minúsculo.

— Aqui. Vamos invadir isso aqui!

O Secretário de Defesa dos EUA pigarreou.

— Excelência… isso é o Estado do Vaticano.

— Justamente! – retrucou Trump ao se erguer como se tivesse descoberto um novo continente. — Em um país do tamanho de um estacionamento de shopping, a vitória é garantida. Quero algo simbólico, histórico, grandioso!

A operação foi batizada de “Glória Celestial I”, o que, segundo a Secretaria de Imprensa da Casa Branca, “soava de acordo com as tradições americanas”. Partiram do Palazzo Margherita – a embaixada dos EUA em Roma – rumo à Cidade do Vaticano três velhos tanques ali esquecidos desde que foram expostos na XV Feira Internacional de Utensílios Bélicos, em 1952; dois helicópteros com problemas no rádio; e um batalhão de soldados que acreditavam estarem indo para um desfile.

Ao chegarem, encontraram algo inesperado: silêncio… e homens vestidos de cetim de seda, como se tivessem saído de uma pintura renascentista. De uma dignidade desconcertante, portavam alabardas e seus capacetes eram encimados por uma pena de avestruz.

— Identifiquem-se! – gritou o comandante invasor, tentando disfarçar seu constrangimento machista ao observar que os guardas vestiam calças bufantes e meias listradas em azul-real, amarelo-ouro e vermelho.

— Guarda Suíça Pontifícia – respondeu um deles, com uma calma que sugeria que já tinham visto coisas piores que ditadores com mapas tortos.

O comandante hesitou.

— Vocês… vão resistir apenas com essas lanças? Não sabem que temos drones que transportam mísseis?

— Isso faz parte do uniforme – disse o guarda ao bocejar como quem já se cansou de responder às curiosidades dos turistas e peregrinos.

O primeiro tanque avançou, triunfante, até parar… porque há anos ninguém o havia abastecido direito. O segundo tentou contornar, mas ficou entalado entre duas colunas de Bernini. O terceiro não saiu do lugar porque o motorista do blindado decidiu que era melhor não se envolver.

Enquanto isso, os guardas suíços, com uma eficiência quase constrangedora, começaram a desarmar os soldados invasores com movimentos elegantes, como se fosse uma coreografia ensaiada há tempos.

Mas o verdadeiro problema começou quando a monumental Porta della Morte, toda em bronze, se abriu e surgiram esvoaçantes figuras de preto. Carregavam crucifixos, baldes de água benta e aspersórios.

— Quem são esses? – perguntou o comandante intrigado com inimigos tão bizarros.

— Exorcistas – respondeu o major, como quem diz “homens imbatíveis”.

O monsenhor-chefe dos exorcistas avançou calmamente.

— Recebemos notícias de sua presença perturbadora aqui na Praça de São Pedro, general. Querem também sequestrar o Papa?

O comandante tentou manter a postura.

— Estamos aqui por ordem do presidente Trump. Somos o mais poderoso exército do mundo!

— Ah – disse o exorcista ao tirar do bolso da batina um pequeno livro e folheá-lo. — Isso explica a possessão coletiva.

O vento mudou de direção. Um dos helicópteros começou a girar sem motivo aparente. Um soldado jurou ter escutado sua mãe chamando-o para casa. Outro se ajoelhou e começou a confessar seus crimes ao atirar em civis desarmados em recentes intervenções ianques.

O comandante, agora pálido, tentou reagir.

— Isto é guerra psicológica!

— Não, general — respondeu o exorcista. — É apenas nosso trabalho contra possessões demoníacas.

Enquanto isso, na Casa Branca, Trump assistia tudo por uma transmissão instável.

— Por que os tanques não avançam?!

— Um está sem combustível, excelência.

— E os outros?

— O outro ficou entalado entre as colunatas da Praça de São Pedro. E o terceiro foi abandonado por nossos soldados.

— Nossos homens não reagem?!

— Estão paralisados devido aos escrúpulos religiosos deles. Alguns se ajoelharam na praça e pedem perdão por seus pecados. Outros bebem água benta. Todos abandonaram as armas.

Trump desligou a transmissão e ficou em silêncio por um momento.

— Preparem um comunicado – disse finalmente. — Não podemos admitir mais uma derrota. Diremos que foi um exercício de treinamento para oferecer segurança ao idiota do papa.

— Com exorcistas nos enxotando, excelência?

— Principalmente com exorcistas. Só a eles temo.

Naquele dia, o menor país do mundo não venceu uma guerra. Apenas manteve sua rotina. O que, para alguns, é muito mais assustador.

Frei Betto é escritor, autor de “Treze Contos Diabólicos e um Angélico”, entre outros livros.

Deixe uma resposta