“Não há disposição no Congresso para fazer uma reforma política séria”, critica o ex-senador Pedro Simon

Foto: EBC
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Embora tenha encerrado sua carreira política no ano passado, o ex-senador Pedro Simon, aos seus 86 anos, continua percorrendo país afora para participar de debates sobre os rumos do Brasil. Apesar de desde sempre militante do PMDB, então à época de sua filiação MDB, o partido de oposição à ditadura militar, não poupa críticas aos integrantes de seu partido. Atento aos escândalos em curso, é um árduo defensor da operação Lava Jato.
Conversamos com o advogado antes de um debate na Casa da Ciência, no Rio de Janeiro, sobre a conjuntura nacional com os deputados federais Alessandro Molon (REDE), Chico Alencar (PSOL) e Wadih Damous (PT), além do senador Randolfe Rodrigues (PSOL). A conversa foi realizada um dia antes do procurador-geral, Rodrigo Janot, pedir a prisão de Romero Jucá, José Sarney e Renan Calheiros, todos expoentes do PMDB.
Na entrevista, ele defende um pacto nacional para arrumar a casa e a realização de uma nova eleição para o povo escolher seu representante. Afirma também que com o atual Congresso não será possível realizar uma reforma política séria, pois não é de interesse da maioria na casa. Sua principal esperança, segundo ele, é a juventude e o povo nas ruas.
Leia também ao final os principais pontos colocados pelo ex-senador durante o evento.
Como você avalia o cenário atual em que a cada dia aparecem mais personagens expressivos da política nacional de todos os partidos envolvidos em questões de corrupção?
Fiz um apelo ao Temer, às vésperas de se decidir no Congresso pelo afastamento temporário da Dilma, que ele conclamasse uma espécie de pacto de Mancloa, que aconteceu na Espanha na década de 30. Todos se reuniram e fizeram um entendimento para levar adiante a liberdade, se não não tinha condições. O Franco [general ditador] tinha caído e era todo mundo contra todo mundo. O Temer tivesse a grandeza de fazer a proposta de reunir a sociedade brasileira, com a Dilma afastada ele podia fazer uma renúncia e se fazer um grande governo para disputar a eleição para presidência. Eu achava que era a fórmula para a gente sair, não andou e agora estamos vivendo esta situação.
É imprevisível dizer qual será o resultado da votação do Senado, mas seja qual for haverá muita confusão. Porque é muito diferente do impeachment do Collor, quando ele caiu era um zero à esquerda. Não tinha um militar com ele, um jornalista, um partido, um empresário, uma rádio ou jornal, ele estava isolado e tinha caído no ridículo. Agora não, mas o PT e a presidenta afastada estão tendo um temperamento que eu considero muito infeliz. Fazer campanha publicitária contra um golpe a nível internacional, uma desmoralização do país a nível de mundo, acho muito estranho e difícil isso. Não se sabe o que vai acontecer.
Enquanto líder histórico do PMDB, como vê a contradição de seu partido que, embora não ter assumido o executivo, está no poder há mais de duas décadas, hoje tem mais eleitos em todas as instâncias e capitaneou uma resolução para a corrupção com vários integrantes sendo investigados?
Quem pediu o afastamento da Dilma foi o PSDB, e o MDB é governo nesse processo. O vice-presidente não tinha participação no governo brasileiro, a decisão e o comando era da dona Dilma e do PT. É óbvio que o MDB fazia um papel secundário. Aliás, uma das mágoas que eu tinha ao longo dos quatro governos do PT e até na época do Fernando Henrique é ter maior participação nos ministérios, mais força, mais autoridade e não apresentar candidato à presidência. Não apresentava porque tinha um grupo lá que se contentava com os ministérios, cargos que os mantinham na roda do poder. Pode dizer que o MDB tem o ministro tal e fulano no governo, sim, mas no comando ninguém.
Mas os que estão no comando agora estão sendo investigados pela mesma razão que alegaram a retirada da Dilma, estão todos envolvidos em casos de corrupção. E essa contradição?
Retirem agora. Tem que fazer a seleção, que tinha de ser obrigatória, antes de entrar. Isso não tem explicação, é irracional. Numa hora como essa, numa sucessão como essa, não só não era para ter indicado como tem o caso do cidadão indicado ter denúncia do procurador-geral na Lava Jato. Indicaram para ministro e depois voltaram atrás. Foi bom voltar atrás, ótimo. Não é um partido perfeito, um caso ou dois…
Você há de convir que não são poucos, e inclusive são pessoas expressivas na política nacional.
Isso é grave, é grave.
É legítimo o Temer como vice de um programa votado pela população mostrar claramente que vai implementar outro pelo qual não foi eleito?
Não me leve a mal, a Dilma se reelegeu com um programa e depois de reeleita apresentou uma proposta de reforma totalmente diferente. O programa e as medidas que ela aplicou foram completamente diferentes do programa.
A Dilma foi mais conservadora que o seu programa se propunha a ser, mas as pessoas que assumiram estão sinalizando para algo ainda mais conservador.
Ela se elegeu com um programa e estava no meio do seu governo com outro. O PMDB não tinha programa nenhum, não frequentava a presidência da República. Não teve em nenhum momento uma audiência. Quando a gente fala em coligação partidária, numa democracia em que partidos se unem, a gente discute no particular essas propostas mas isso com o PT nunca aconteceu.
Pode se considerar uma retaliação do partido, que sempre quis ter mais poder, colocar o [José] Serra como ministro e como liderança do governo o líder do PSDB que era oposição?
Não, estou dizendo que o PT administrou com decisão dele e da sua gente. O MDB não tem presença nessa decisão. E ela depois de eleita mudou o programa, e também não houve presença do MDB. Agora o que está acontecendo é um entendimento de se buscar uma fórmula, através da qual se vença a crítica junto ao governo. O que está se fazendo hoje é um governo temporário, temos que ver se ficar o que está aí horrível para onde é que vai. Vivemos uma situação muito complicada, são 21 senadores para ver se arquiva tudo ou se continua. Não sabemos qual será a consequência disso. Se continuar será uma crise, porque o PT não se entrega, e se arquiva volta a Dilma e juro por Deus que não sei o que ela fará.
Se ficar provado que esses líderes do PMDB roubaram, como fica esse governo e sua credibilidade?
Isso não tem nenhuma explicação, falo com toda sinceridade.
O Cunha, por exemplo, é visto nacionalmente tanto pela esquerda quanto pela direita como um cara que não é de boa índole e era líder na Câmara e integrante do PMDB.
Mas é todo mundo, até no PT tem gente assim, é um ors concours. É um fenômeno que tem de ser analisado, ele é um genérico da hora que estamos vivendo, fruto da realidade do Brasil. O Cunha é o maior exemplo da contra política, os partidos não existem para ele. Está lá com a sua ideia. Temos que encontrar uma via democrática para tirar essa força que ele tem e não tem que haver, porque não é natural.
Mas ele não é representante de uma oligarquia como um Sarney ou Calheiros da vida, que têm muito mais força e é mais difícil de tirar.
O Sarney é o último vestígio que temos das oligarquias, porque o último foi o Antônio Carlos Magalhães. O Sarney está há mais de 50 anos no Maranhão e nordeste, o ACM antes de morrer era o principal. O Cunha é um fenômeno, começou como auxiliar do Garotinho.
Muitos estão criticando o papel na mídia nesse processo. Você acha que ela está sendo tendenciosa? Há quem diga que ela está batendo mais no PT, Lula e Dilma que nos outros.
Acho que ela está cumprindo o seu papel, nessa semana numa manchete foram páginas e páginas em cima do Jader, do Sarney, do Jucá e esse cara da Petrobras.
A reforma política era a grande bandeira de todos os partidos, só que não passou e o PMDB é o partido que tem maioria. E agora?
Foram praticamente todos os partidos. Fazer uma reforma política para valer? Não têm vontade política, é o contexto de todos que não quer. Desde a constituinte está lá na constituição a fidelidade partidária, e quando o STF regulamentou dizia que perde o mandato o político que troca de partido. O Congresso mudou para “a não ser se for para entrar noutro partido”, daí apareceram mais quinze partidos. A fidelidade partidária desapareceu, então não há nessa gente que está lá nenhuma disposição para fazer uma reforma política séria. Eu acredito é no povo na rua, e esses jovens que fizeram duas coisas importantes: defendem a fidelidade partidária e determinam que o cidadão condenado em segunda instância não pode mais se candidatar, é cassado e condenado. Seja deputado, presidente da república, empresário, etc. Se não vai para terceira, quarta, quinta instâncias e leva a vida inteira. Agora não, é cassado, vai para cadeia, perde mandato e se roubou tem que devolver. É o que está no Ficha Limpa, foi a mocidade nas ruas. Acredito nos jovens para a coisa melhorar.
Leia algumas falas de Simon no debate na UFRJ:
“Fiquei longe da direção [do PMDB] e do comando, não tenho por que defender o partido. Teve momentos importantes e esse é de interrogação. Vocês [integrantes da mesa e auditório] estão cometendo um erro combatendo a Lava Jato. Pode ter havido exagero do procurador ou juiz tal, promotor, delegado, mas é a primeira vez no Brasil que essas coisas estão acontecendo. No mundo o que mais se fala é que no Brasil, país onde tem liberdade e democracia, nunca se viu tantos escândalos. Sempre houve, é bom deixar claro. Precisamos analisar o ego do brasileiro, o país do jeitinho, para não pagar multa, não pagar excesso de bagagem. Infelizmente isso é real”
“Começou nos oito anos do FHC com o engavetador geral colocando todos os crimes na gaveta: não denunciava, negava. Foi o Lula que aceitou a tese de que o procurador não é o presidente que escolhe, e esse procurador num tribunal em que o PT nomeou 8 dos 11 ministros. Não podem acusar que é o procurador ou STF que está a favor de um ou de outro. A roubalheira sempre houve, na Petrobras tinha mas nunca aconteceu a oficialização como nos últimos tempos. O PT nomeou esses dirigentes, lá atrás podia ter sido diferente quando denunciaram a CPI do Correios. Não demitiram ninguém, e não deixaram criar a CPI que depois deu no escândalo do mensalão”
“O governo está começando mal que é uma barbaridade. Até com coisas que não dá para entender, nomear ministro da Justiça um cidadão que assinou um manifesto contra a Lava Jato. Depois teve que demitir porque não sabia, tudo bem, mas a assessoria dele devia saber uma série de coisas que está acontecendo. Mas pela primeira vez temos um presidente da Câmara cassado, o líder do MDB e do PT cassados, o maior empresário da Odebrecht na cadeia, e não sei quantos milhões voltando. É uma operação séria, nosso inimigo não é a Lava Jato e o juiz Moro. Estamos em vésperas de chegar lá: roubou foi para cadeia, pois é homem público e tem que fazer sua parte. Terminar com meia dúzia de políticos com foro privilegiado, esses caras têm processos de 15 anos atrás engavetados e agora não vão poder mais. Estamos ‘punificando’ e moralizando a política, porque tem a ameaça de ir para cadeia”

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