
“Há quem passe pelo bosque e só veja lenha para a fogueira.”
Leon Tolstoi
Por Vera Periassu, 05 de junho de 2022
Todos os dias, quando abro a janela do meu quarto, contemplo aquela palmeira solitária lá no alto da serra. Enfrentando bravamente os fortes ventos e chuvas, todas as tempestades e intempéries do clima, lá está ela: majestosa, forte, resistente. Há algum tempo, vem sendo para mim um ícone de força, beleza e resistência. Nos dias de céu claro, fica esplendorosa; com as chuvas e ventos, suas folhas envergam de tal maneira que a vejo de perfil. Quando isto acontece, sua imagem como silhueta lembra-me a de um grande chefe indígena com seu belo e deslumbrante cocar. Ela vive naquela serra e nem sabe o quanto também me ajuda a existir, resistindo. Quem será que vai se entregar primeiro? Ela? Eu?…
“Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá…” – versos de Gonçalves Dias – dos quais estou me lembrando agora, e me perguntando: cadê as outras palmeiras que havia por aqui? E todas as árvores das nossas ruas e quintais, com seus pássaros e borboletas, onde estão? E aqueles rios cheios e cachoeiras magníficas? E aquela serra de eucaliptos, que parecia encantada quando, por trás das árvores, surgia aquela lua cheia e tão brilhante? Cenas de um passado não muito longínquo. Lamentar o presente – é só isto que nos resta de concreto? Concretamente falando, acho que não! Ainda bem que não! Percebo, aliviada e esperançosa, que uma forte reação ao mundo cimentado já se faz sentir. Trata-se de uma verdadeira batalha de vida ou morte. Nesta acirrada luta do Verde-Vida com o deus-capetal (de capeta mesmo), monstruoso, insaciável e tão voraz que nos quer devorar a todos, somos os peixinhos da piracema, nadando contra a corrente sem jamais desistir. Acreditar na força da vida, apesar de tantos absurdos, não é mesmo?
Ainda esta semana, senti uma grande indignação e muita tristeza. Confesso que até chorei. Até agora estou sem coragem de olhar novamente o terreno ao lado da minha casa. Quando voltei de viagem, tomei um grande susto. Cadê aquelas mangueiras maravilhosas, que serviam de abrigo a tantos pássaros e àqueles miquinhos saltitantes? Pois não é que Dona Candinha e sua filha Ju, tão devotas e rezadeiras, mandaram cortar as duas árvores! Mesmo o padre tendo feito na semana anterior uma reflexão muito importante a respeito do meio ambiente e do zelo que devemos ter pela mãe natureza! Segundo alguns vizinhos, elas alegaram conseguir liberação da prefeitura, pois tinham muito trabalho para varrer tantas folhas, não tinham sossego com os micos e as raízes estavam atingindo a casa. Imagine! Outros vizinhos me confidenciaram que, na verdade, elas estavam chateadas porque os meninos de rua, quando passavam, atiravam pedras para conseguir algumas mangas. Além de destruir a natureza, e a falta de solidariedade, hein? Como fica?
Diante de tal fato, venho me perguntando desde então: Meu Deus do céu, de onde será que nos vem este instinto de destruição e perversidade? Por que será que não aguentamos ver uma linda flor no jardim e já queremos arrancá-la, despetalando-a com a história de mal-me-quer e bem-me-quer? Por que até mesmo as criancinhas – graças a Deus não todas – quando veem uma formiguinha, um besourinho, uma borboletinha, um sapinho, uma rã etc. vão logo pegando os chinelinhos para matar, espancar, pisar, agredir? Ainda bem que a humanidade avança e já está em extinção o tal do estilingue ou bodoque, aqui para nós, a famigerada baladeira ou balieira. Quantos pais presentearam seus filhos com estes instrumentos de morte? Quantas crianças brincaram de matar, atirando nos passarinhos ou destruindo seus ninhos? Recordo meu choro de criança, vendo meu irmão caçula matar um beija-flor, simplesmente por diversão. Nunca compreendi aquela atitude, como ainda hoje não entendo por que alguns adultos saem de férias para matar animais num safári. Que prazer mórbido é este? E os que ainda prendem numa gaiola um pássaro, apenas porque é lindo, e canta bem? O que dizer dos agressivos rodeios, das deprimentes vaquejadas, touradas, rinhas de galo ou de qualquer outra ave? O que se poderia falar a respeito de uma pessoa batendo num indefeso animal? Animal este que, inúmeras vezes, lhe serve tanto?
“Estala relho marvado, recordar hoje é meu tema…”: Recordo também um outro canto de Luiz Gonzaga: “O jumento é nosso irmão…” Irmão de quem mesmo? Experimente sair por aí dizendo isto. Se muitos ainda não se enxergam como irmãos do seu próximo, imagina ser irmão de um pobre animal, tratado como simples “bicho” pela grande maioria! “Irmão lobo, tu és meu irmão” já nos dizia São Francisco. Mesmo assim, algo vem me intrigando há bastante tempo: por que será que, aos olhos de muitos, aqueles animais que tanto nos ajudam são considerados tão desprezíveis? Em contrapartida, aqueles que nos agridem e prejudicam são tão enaltecidos? Veja quanta satisfação alguém ser chamado de fera ou cobra, quando passa em concursos; leão, tigre ou touro, por ser valente e forte; monstro – tem até os “monstros sagrados” do cinema e da tv – por causa do talento. No entanto, ser chamado de cavalo, burro, jumento, porco, galinha, vaca etc. não é bom nem pensar, quanto mais falar!
A respeito da minha geração, fico pensando que esta desarmonia em relação à vida e à natureza vem de muito longe, e desde cedo, senão vejamos: Ainda no berço, já ouvíamos arrepiantes cantigas de ninar, a exemplo de “Dorme neném, que a cuca vem pegar…”; “Boi da cara preta, pega esta criança que tem medo de careta” ; estorinhas que metiam medo, falando de um tal bicho-papão, de um papa-figo, de um velho do saco, de uma mula sem cabeça; cantigas de roda deprimentes e agressivas, haja vista as mais conhecidas: Atirei o pau no Gato; O Cravo brigou com a Rosa; Escravos de Jó; Pirulito que bate, bate; Samba lelê tá doente; Marcha soldado, cabeça de papel; Corta, corta, minha machadinha; Terezinha de Jesus deu a queda, foi ao chão. Não é demais para uma simples e mortal criaturinha? Será que um início de vida assim, tão atropelado, não poderia mesmo concorrer para esmagar a tantos no final? Quanto àqueles “heróis” da nossa infância, nem quero me recordar agora. Aqueles “imortais” eram de morte!
Hoje, para despoluir a mente de tantas agressões, e como forma de resistência, prefiro ir recordando as coisas boas e saudáveis que me enchem de fé e esperança na humanidade. Nem tudo está perdido! São tantos exemplos maravilhosos e significativos: pessoas que acolhem crianças e idosos; outros que adotam animais desprezados nas ruas; gente que alimenta e agasalha os moradores de rua, que se abraça a uma árvore para que ninguém a derrube; meninos e meninas que se recusam a comer os “bichinhos”. Recentemente, algumas histórias me tocaram bastante, todas envolvendo crianças bem pequenas. A primeira, a respeito de um menino que chorou muito e ficou bastante arrasado, ao ver uma imponente mansão construída pelo pai onde antes era uma simples chácara, cheia de árvores e muitos passarinhos. A alegria do pai murchou diante da frustração e tristeza do garoto. A segunda, a de uma menininha que adotou um peru, a fim de livrá-lo da morte numa ceia de Natal. Outra história comovente, a de uma escola infantil, que envolveu todos os seus alunos na comemoração do dia da árvore, realizando um grande desfile denominado “MUDA DE VIDA”. Foram milhares de plantas distribuídas aos moradores da região. Cada um fazendo sua parte, como aquele beija-flor, indo buscar um pouco d’água, a fim de apagar aquele grande incêndio na floresta.
Felizmente, ainda há em nossos dias pessoas sensíveis, que choram diante dos incêndios e queimadas; outras, são maravilhosas e até se arriscam para apagar o fogo e salvar vidas; iluminadas são aquelas que de tudo fazem para que nem sequer se inicie uma simples faísca, e são estas que a todo momento estão lembrando a todos e a cada um de nós: “Muda de Vida!”
PerYaçu
“Peregrina da Esperança”
Bananeiras-PB: 05 de junho de 2022
Vera Periassu – poeta, cordelista e educadora popular
veraperiassu@gmail.com
