Miséria e Misericórdia

“Vocês é que têm de lhes dar de comer.” (Mt 14, 16) / Google

A palavra MISÉRIA (infelicidade, desventura, estado lastimoso, indigência, penúria, extrema pobreza, privação etc.) deriva-se do termo latino MISER, que significa infeliz, desafortunado, desprezível. Mísero, do Latim misérum, é, portanto, alguém infeliz e desgraçado. Já a palavra MISERICÓRDIA refere-se a um sentimento de compaixão em relação ao sofrimento ou à infelicidade de alguém, piedade, pena, dó, algo que mexe com o nosso coração diante da miséria alheia; generosidade em relação a quem praticou alguma falta, benevolência, perdão, graça. São palavras muito fortes, cujo significante (nome / forma expressa) já nos deixa impactados em relação ao seu significado (conteúdo), quer seja relativo ao BEM, quer seja relativo ao MAL, e se pronunciarmos bem devagar cada termo e seu oposto parecem nos falar ao coração, tranquilizando-o ou apavorando-o. Dentre tantos exemplos, fiquemos com estes: graça/desgraça; suavidade/agressividade; gentileza/brutalidade; harmonia/desarmonia; bem-aventurado/desgraçado etc.

Há muita diferença entre ser pobre e ser miserável, pois a miserabilidade é uma espécie de pobreza extrema, digamos assim, um profundo estado de pobreza. Nossa dificuldade começa ao acharmos que, tanto quanto a pobreza, a miséria se refere apenas às carências em relação a coisas materiais. Nossa sociedade entende riqueza e pobreza como a posse ou carência de bens materiais. Neste sentido, ser rico é TER ou possuir bastante coisas; ser pobre é não ter nada ou quase nada. No livro do Apocalipse, encontramos o seguinte trecho: “Você diz: ‘Sou rico! E agora que sou rico, não preciso de mais nada’. Pois então escute: Você é infeliz, miserável, pobre, cego e nu. E nem sabe disso.” (Ap 3, 17). É assustador, porém bastante educativo, pois no mesmo capítulo está escrito: “…Está querendo enxergar? Pois eu tenho o colírio para seus olhos. Quanto a mim, repreendo e educo todos aqueles que amo. Portanto, seja fervoroso e mude de vida!” (Ap 3, 18-19).

A partir da Palavra de Deus, nossa visão vai se ampliando um pouco mais e passamos a enxergar a vida e o mundo de forma bem diferente. No terreno do SER, nossa essência (EU verdadeiro) é divina e humana, plena de bondade e, por isso mesmo, sempre nobre e bela; no entanto, em relação às coisas materiais, incluindo aí o nosso próprio corpo “Você é pó, e ao pó voltará” (Gn 3, 19), é chocante constatar e admitir que, independentemente de classes sociais, posses e bens materiais, somos todos MISERÁVEIS! Meu Deus, que dura verdade!… Humildemente, passamos a constatar que todos, sem exceção, somos aqueles filhos pródigos e esbanjadores (filho mais novo), ou invejosos e ciumentos (filho mais velho) da parábola contada por Jesus Cristo (Lc 15, 11-32). Desobedientes, dissipadores, vaidosos, invejosos e arrogantes têm sido, infelizmente, as características marcantes do nosso perfil. Não queremos saber do Pai, muito menos daquilo que nos compromete com a nossa realidade verdadeira. Queremos viver por conta própria: “Pai, me dá a parte da herança que me cabe” (Lc 15, 12), sem ninguém interferindo ou dizendo o que devemos ou não fazer. “Curtir” a vida, no sentido de satisfazer nossos instintos egoístas, é o que importa: “E aí esbanjou tudo numa vida desenfreada” (Lc 15, 13). Produzir e consumir, adquirir bens materiais, poder, fama e prestígio é o desejo máximo. O falso eu, egocêntrico por natureza, descarta tudo, inclusive Deus, pois na sua autossuficiência, acha-se o deus de si mesmo. Isto não seria a verdadeira MISÉRIA, ou pecado, como queiramos chamar?

Para esta situação de “penúria” – pecado – em que vive a nossa humanidade, a Parábola do Filho Pródigo nos aponta um caminho de ESPERANÇA, numa espécie de dinâmica ao mesmo tempo humana e divina. Da parte do Pai, MISERICÓRDIA sem limites a todo e qualquer instante: “Quando ainda estava longe, o Pai o avistou e teve compaixão…” (Lc 15, 20); da parte do filho mais novo e mais velho, que somos todos nós, HUMILDADE para nos reconhecer filhos rebeldes, ingratos, egoístas, invejosos e bastante frágeis. Essa tomada de consciência é o começo de um processo de CONVERSÃO que nos permite voltar para a casa do nosso Pai, sendo, portanto, o começo da nossa redenção e soerguimento como seres humanos: “Vou me levantar, vou encontrar meu Pai…” (Lc 15, 18). Esta atitude humana de um filho que era esbanjador, mas agora arrependido, passa a ser divina quando se age com Misericórdia ou Compaixão, tal qual o próprio Pai. Imitar as atitudes do Pai Misericordioso é, na verdade, o ideal humano para toda e qualquer pessoa. Com toda certeza, isto é muito exigente, porém, não impossível, uma vez que o próprio Mestre Jesus nos diz no Sermão da Montanha: “…sejam perfeitos como é perfeito o Pai de vocês que está no céu” (Mt 5, 48).

Agindo com MISERICÓRDIA, imitaremos o Pai Eterno, assim como Jesus o fez: perdoando as ofensas, acolhendo os irmãos, cuidando da vida, partilhando o pão, respeitando a tudo e a todos. “Se alguém está em Cristo, é nova criatura” (2Cor 5, 17) e, neste seguimento, agirá conforme o coração do Pai Misericordioso. Ter misericórdia, ou compaixão, é atitude divina em nossa essência humana; a falta dela nos torna insensíveis, indiferentes e omissos em relação ao próximo, ao mundo e a nós mesmos. Isto nos desfigura como filhas e filhos do Altíssimo, tira a nossa dignidade de pessoa humana, cujo Pai não desiste de nós e está sempre à nossa espera, para dizer a todos com grande alegria: “Vamos fazer um banquete. Porque este meu filho estava morto e tornou a viver, estava perdido e foi encontrado.” (Lc 15, 23-24), pois, segundo as Escrituras Sagradas, “Haverá no céu mais alegria por um só pecador que se converte, do que por noventa e nove justos que não precisam de conversão” (Lc 15, 7).

Segundo Jesus, no Sermão da Montanha, são felizes ou “Bem-aventurados os que são misericordiosos, porque encontrarão misericórdia” (Mt 5, 7). Criticado pelos fariseus ao chamar Mateus (Levi, o cobrador de impostos) para o seu seguimento, Jesus é acusado de andar com pessoas impuras e pecadoras, ao que responde da seguinte forma: “As pessoas que têm saúde não precisam de médico, mas só as que estão doentes. Aprendam, pois, o que significa: ‘Eu quero a misericórdia e não o sacrifício’. Porque Eu não vim para chamar justos, e sim pecadores” (Mt 9, 12-13). Neste chamado aos pecadores – que somos todos nós – comparáveis àquela mulher adúltera, por nossa infidelidade e traição ao Ser Divino que habita em nós, Jesus, a exemplo do Pai, sempre nos acolhe como pecadores (miseráveis); no entanto, não compactua com a miséria (o pecado). Sua vinda à terra para nos salvar e libertar de todo o mal (MISÉRIA humana = pecado) expressa a MISERICÓRDIA do próprio Pai, que nunca se esquece de nós quando nos diz: “Eu vi muito bem a miséria do meu povo […], conheço os seus sofrimentos. Por isso, desci para libertá-los […]” (Ex 3, 7). Humildemente, como aquele publicano da parábola que reconhece sua frágil condição humana, suplicando: “Meu Deus, tem piedade de mim, que sou pecador” (Lc 18, 13), também nos unimos a ele, dizendo: “Meu Deus, tem piedade de nós, que somos pecadores!”

 

Misericórdia, Senhor,

Misericórdia!

PerYaçu

Peregrina da Esperança

Bananeiras-PB, 07 de abril de 2024

Vera Periassu – poeta, cordelista e educadora popular
veraperiassu@gmail.com

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