
Obra de Maria Rita Kehl conecta clínica, filosofia e literatura para explicar por que somos cada vez mais tomados por frustrações e vinganças imaginárias.
Escrito em Cultura / Revista Forum,
Publicado em 2011, Ressentimento, de Maria Rita Kehl, tornou-se uma das análises mais influentes sobre um afeto que se espalha pela vida privada e pela esfera pública. Mais de uma década depois, a obra permanece atual ao examinar como queixa, frustração e impotência se convertem em modo de subjetivação nas sociedades contemporâneas. A psicanalista, doutora pela PUC-SP e referência nos debates sobre cultura brasileira, constrói um estudo que atravessa clínica, filosofia, literatura e política para compreender por que o ressentimento se tornou tão central na experiência do sujeito moderno.
Kehl define o ressentimento como uma “constelação afetiva” característica do homem contemporâneo. O ressentido se vê como vítima de uma injustiça — real ou imaginária — cuja reparação nunca chega. Incapaz de confrontar diretamente o objeto de sua queixa, ele passa a girar em torno dela, alimentando uma vingança que jamais se concretiza. Esse mecanismo preserva sua integridade narcísica, mas o aprisiona em um circuito paralisante.
Um diálogo entre psicanálise e ressentimento
O primeiro capítulo aproxima psicanálise e ressentimento, mesmo sem Freud ter formulado uma teoria específica para o tema. Kehl descreve como o paciente ressentido se apresenta: sempre “coberto de razão”, repetindo incessantemente a mesma queixa — uma forma de gozo e de defesa que impede qualquer avanço analítico. A autora também destaca as semelhanças entre ressentimento e melancolia, recuperando conceitos como narcisismo primário e “covardia moral” para explicar a dificuldade do ressentido em assumir responsabilidade por sua própria ação no mundo.
No segundo capítulo, Kehl revisita Nietzsche, que disseca como o ressentimento se transforma em afeto moral e instrumento político. Para o filósofo, o Estado moderno e a moral escrava estimulam “forças reativas”: modos de vida que negam o risco, evitam o enfrentamento e transformam a culpa em arma. A autora também assinala aproximações e distanciamentos entre Nietzsche, Espinosa e Freud, mostrando como o ressentimento se enraíza tanto na subjetividade quanto nas instituições sociais.

Ressentimento na literatura
A literatura surge no terceiro capítulo como laboratório privilegiado para observar o ressentido em ação. Kehl percorre obras que tratam do tema sem nomeá-lo diretamente. Em Ricardo III, Shakespeare expõe a relação entre ambição, impotência e desejo de vingança. Em Crime e Castigo, Dostoiévski revela como o olhar idealizado da mãe pesa sobre Raskolnikov, alimentando a cisão psíquica que o leva ao crime “para provar uma ousadia que não possui”.
Na literatura brasileira, o ressentimento aparece de forma manifesta em São Bernardo, quando o suicídio de Madalena aciona a cisão já latente em Paulo Honório e desmonta sua couraça de coronel autoritário. Já em As Brasas, de Sándor Márai, o ressentimento conduz a trama ao longo de décadas, embora não explique, sozinho, a complexidade do reencontro entre os protagonistas que é marcado também por afetos não ditos, como o homoerotismo latente.
Política, igualdade e frustração social
Em seguida, o livro desloca o olhar para a política. Kehl argumenta que o ressentimento ganha força nas democracias modernas justamente porque estas se sustentam em um ideal de igualdade que raramente se concretiza. Quando a desigualdade é percebida como injusta, o ressentimento se torna motor de conflitos sociais e individuais. Nesse contexto, observa a autora, o Estado funciona como “protetor narcísico”, convocado a reparar frustrações que ele próprio não consegue resolver.
A memória e a elaboração simbólica aparecem como alternativas para a superação de traumas coletivos — e para quebrar o ciclo ressentido. Kehl destaca o papel do testemunho em sociedades que precisam olhar para os próprios conflitos, algo que ainda tensiona a identidade brasileira, frequentemente marcada pela negação de sua história de violência estrutural.
Mais de dez anos depois de sua publicação, o diagnóstico de Kehl parece ainda mais agudo. Em um cenário em que discursos de vitimização, polarização moral e rivalidade se intensificam no debate público, Ressentimento oferece ferramentas para compreender tanto a subjetividade quanto o comportamento coletivo. A obra sugere que romper com posições reativas exige responsabilidade, criação e risco. Só assim o novo se torna possível.
Ao concluir que “o ato político implica sempre um risco de desestabilizar a ordem”, Kehl aponta para um horizonte de transformação que só se abre quando o ressentimento deixa de organizar a experiência. Sua escrita, que combina rigor conceitual e sensibilidade clínica, continua sendo referência para pensar as tensões psíquicas e políticas do mundo contemporâneo.

