
Clara Lúcia, mais conhecida entre nós por Lara Lu, deixou-me bastante pensativa a respeito de um determinado assunto, que agora passo a lhe contar. Espero ser fiel às suas colocações, sem julgar, criticar, diminuir ou acrescentar nada a tudo que ouvi. Ela me dizia:
“Se não fosse Larinha, acredito que a situação estaria bem mais difícil. Por sua causa não houve grandes estragos em minha vida. Ainda bem que ela existe e é a Larinha Sempre-Viva – é assim que a chamo carinhosamente. Menina esperta, viva, animada, cheia de vida! Quando chega, há de se ter muito cuidado, senão, “toma conta do pedaço”, como dizem os jovens por aqui. Sua pureza e inocência vêm me encantando ao longo desses anos; no entanto, nunca foi tolinha ou ingênua. Desde cedo, em contato com a natureza, aprendeu tantas coisas e era quem explicava às coleguinhas, nos recreios da escola, assuntos que jamais seriam abordados em sala de aula. Garota precoce, alegre e brincalhona.
Com toda essa esperteza, mesmo assim, levou um certo tempo para descobrir que aquelas nuvens na linha do horizonte não eram de algodão, como pensava e, mesmo chegando ao alto daquelas montanhas, não conseguiria pegá-las jamais. Descobriu que, mesmo passando horas e horas à margem do rio, esperando a Mãe D’Água chegar, essa mulher do cabelão e olhos verdes, não chegaria nunca. Começou a desconfiar também que a Cegonha não existia, pois nunca vira passar esse tal pássaro com uma criancinha no bico. Foi vendo que o céu não era um grande chuveiro, cujos buraquinhos eram feitos por São Pedro quando começava a chover.
E Papai Noel? Que Papai Noel que nada! Por aqueles rincões, nunca se ouvira falar deste e de outros assuntos, por exemplo, Coelhinhos e Ovos da Páscoa. Isto eram mesmo conversas para aquelas crianças ricas e da cidade grande. Aquelas mesmas que vinham passar as férias no campo e ficavam o tempo todo nos perguntando onde era a caverna do dragão, se a formiga tinha mesmo coração, quem punha açúcar no mel das abelhas, enfim, haja paciência!
Mas, voltando à Larinha, quando começou a ler, ficou encantada com aqueles Contos de Fada. Em sua pureza, como enxergam bem as crianças! Só via beleza em tudo aquilo que me parecem hoje um verdadeiro absurdo: Joãozinho e Maria, abandonados pelos pais numa floresta, a lutar com uma malvada bruxa; Chapeuzinho Vermelho, andando sozinha pela floresta, falando com um Lobo Mau, tendo uma avó tão velhinha e indefesa, morando sozinha numa cabana e sendo engolida pelo tal Lobo; Cinderela, órfã, fazendo trabalho escravo, ficando sem um sapato à meia-noite, na única festa que foi, chegando em casa toda esfarrapada; Branca de Neve, outra órfã, a morar com sete homenzinhos numa floresta, servindo de empregada, numa verdadeira exploração do trabalho infantil; a Bela Adormecida, por outro lado, muito preguiçosa, que só vivia a dormir, esperando o tal príncipe encantado; Pinocchio, mentiroso, cujo nariz ia crescendo mais e mais a cada mentira; Ali Babá e os 40 Ladrões, roubando e dando mau exemplo a todo mundo. E hoje, mesmo sabendo que todos estes contos são mitos, são simbólicos, a gente adulta não deixa passar nada, vê malícia em tudo, não é mesmo? Por que será que um adulto, geralmente, é trator de fantasias e sonhos?
Ainda bem que Larinha só ia guardando o lado bom da história – o lado fantástico da vida. Só brincadeira, fantasia e diversão, principalmente quando chegaram as famosas histórias em quadrinhos – que chamávamos Gibis – e os famosos desenhos animados de TV. Ainda hoje, fico intrigada com o sucesso de tais histórias: a Turma da Mônica, muito desorientada, vivia sempre aprontando: Magali, gulosa, comendo o tempo todo, Cebolinha com transtorno fonológico, trocando o r pelo l e todos com medo da Mônica, menina mal humorada e até violenta, a ponto de viver batendo o tempo todo num pobre coelhinho; a Turma da Disney, com o Pato Donald, falando todo atrapalhado, cuja namorada Margarida vivia saindo com um tal Gastão, todos submissos ao avarento e sovina Tio Patinhas, e ainda tinha um rato muito esperto, chamado Mickey, e um Pateta todo apatetado; o Tom e Jerry, brigando o tempo todo, numa violência sem fim; o pobre Piu-Piu assustado, com medo de um tal Gatinho; o Pica-Pau, só ensinando malandragem e como se dar bem na vida, a exemplo da Pantera Cor-de-Rosa; o marinheiro Popaye, todo “marombado”, tomando um energético suspeito, enquanto sua namorada, a pobre Olívia Palito, parecia ser anoréxica ou sofrer de bulimia. Eita, gente, por que será que adulto vê maldade em tudo, ou quase tudo? Ser adulto, às vezes, cansa e é tão chato, não é? Meu Deus do céu!
Nada disso assustava Larinha, cada vez mais empolgada e envolvida com tantas histórias e personagens fantásticas. Para ela uma festa, muita alegria e animação onde eu só via tristeza, monstruosidade e aberração. Os heróis maravilhosos das suas lentes claras de pureza e fantasia iam se tornando meus óculos escuros de horror e medo. Intrigava-me, não achando nada normal o que para ela era, simplesmente, fantástico: um Tarzan, correndo pelado pela floresta, morando com Jane e uma macaca Chita; um tal de Aladim, ladrão vagabundo, enchendo-se de dinheiro ao encontrar um gênio da lâmpada; um Homem-Aranha, um Zorro e um Batman, sempre mascarados e escondendo-se em lugares tenebrosos, a exemplo do Super-Homem, que via através das paredes e voava mais rápido que avião. Eu os vejo hoje como opostos de um verdadeiro ser humano; Larinha, ao contrário, embarcava nas aventuras e se deliciava dia após dia. Era somente pura diversão! Eu vejo, olho e espio, apenas; ela, enxerga.
O encantamento e as aventuras continuavam agora a partir das leituras do Sítio do Pica-Pau Amarelo, do famoso Monteiro Lobato. Pois não é que a Larinha ia se identificando cada vez mais com a tal Emília? Sentindo-se poderosa, ousada, criativa e atrevida, querendo ser o centro das atenções e mandando em todo mundo? Enquanto isso, eu consigo ver apenas uma grande petulância daquela boneca e tanta desobediência por parte de Narizinho, Pedrinho e toda sua turma. Questiono-me, também, por que os representantes do nosso folclore brasileiro têm que ser desse jeito: o Saci sem uma perna, o Curupira com os pés para trás, a Mula sem a cabeça, enfim, todos deficientes físicos! E por que a Caipora e Maria Fulozinha vivem fumando, dando mau exemplo às crianças? Que pensamentos deprimentes, não? Se não fosse Larinha, mesmo agora, o que seria de mim?
Após toda essa conversa, minha amiga Lara ainda acrescentou:
Hoje, confesso que, se dependesse apenas das minhas reflexões de adulta, estaria completamente perdida, neurótica, frustrada, decepcionada diante do mundo e da vida. Ainda bem que mora comigo esta Larinha Sempre-Viva, na verdade, nunca nos separamos. Sua pureza e inocência ajudam-me a enxergar o lado bonito da existência, despertando em mim os mais nobres sentimentos: a alegria, a fé, a esperança, o amor, a compaixão, o sonho por um mundo melhor. Considero-a, verdadeiramente, uma Menina Superpoderosa, pois, com seu olhar de criança, ajuda-me a ver as coisas muito mais lindas e a vida muito mais bela. Nestes tempos de Pokemons, em que as pessoas vivem correndo atrás de monstros, caindo pelas calçadas e metendo a cara nos postes; nestes tempos de tanta maldade, violência e terror, preciso, mais do que nunca, dessa presença divertida, alegre, leve e solta. Como as duas faces da mesma moeda, somos eternamente inseparáveis: eu e esta minha amada criança interior, Larinha sempre viva! Ela existe, realmente, a fim de que não me perca jamais e não me torne, de fato, uma velha rabugenta, ranzinza e desesperançada. Aí, já não seria mais uma questão de enxergar a Maldade. Não seria mesmo “Mal da Idade”?…
PerYaçu
Bananeiras-PB: agosto de 2016
Vera Periassu – poeta, cordelista e educadora popular
veraperiassu@gmail.com
