
Chamou bastante a minha atenção, e aos demais presentes, a chegada de uma Mãe “Dondoca” ao salão de cabeleireiro. Vinha acompanhada do seu cachorrinho de estimação, que chamava de “filhinho da mamãe”, pelo qual se derretia de amores. Se era mãe biológica de alguém, não deu para saber; mas “bichológica” era com toda certeza, pois fazia questão de assim aparecer. Nada contra os animais, mas daquele jeito já era demais! Veio-me, então, uma saudade imensa de Mãe Noca. De vez em quando, lembro-me dela com muito carinho e saudade, mas hoje o sentimento foi muito mais forte diante de tanta falta de bom senso, de tanta superficialidade. Posso dizer que a lembrança de Mãe Noca salvou o meu dia. Que maravilhosa e santa mulher! Fechei os olhos a recordar…
Mãe Noca era assim chamada por todas as crianças da nossa região. Nossos pais a chamavam de Comadre Noca. Sabe aquela pessoa simples, humilde, agradável e acolhedora, que a gente nem tem vontade de sair de perto? Pois essa era a nossa querida e amada Mãe Noca! Não sei como dava conta de tantos afazeres, visitas e cuidados. Além de benzedeira, era também parteira. Naqueles tempos difíceis e de tantas carências, especialmente na área da saúde, Mãe Noca era o socorro imediato! Num corpo bem franzino, era uma gigante do bem.
Não havia quebranto, mau-olhado, olho gordo ou qualquer outra mazela que resistisse às suas orações. Praticamente todas as crianças do nosso lugar foram dadas à Luz por meio das suas abençoadas mãos, e como nascia muita criança, Mãe Noca não parava em casa.
Na verdade, chamava-se Janeide Maria da Conceição, familiarmente conhecida por Dona Janoca. Criou seus 12 filhos e, após ficar viúva, tornou-se assistente de Dona Zefinha, tradicional parteira dos nossos pais, cuja mãe já havia sido parteira dos nossos avós. O povão, com a sabedoria que lhe é peculiar, foi reduzindo mais e mais o nome de Dona Janoca, na mesma proporção que ia aumentando a consideração, o carinho, o respeito e a gratidão por tão nobre pessoa. Como para mim não existe coincidência, e tudo é “teocidência”, o povo escolheu direitinho o seu nome: Noca são as articulações dos nós dos dedos, e aquelas mãos benditas eram sempre articuladas para o bem de todos nós.
Meu coração se enche de alegria e gratidão por eu ter vindo ao mundo amparada pelas mãos de Mãe Noca. Como se não bastasse sua presença num momento tão sagrado e especial como o do parto, ela nos acompanhava pela infância afora: curando, aconselhando, visitando… Meus pais, quando saiam de casa, sempre nos deixavam sob seus cuidados. Era pessoa de extrema confiança. Éramos sete irmãos, apenas um havia nascido na única maternidade do município.
Que o jeito de ser de Mãe Noca, diante de tantas Mães “Dondocas” do supérfluo e superficial, nos inspire a viver com mais naturalidade, humildade e generosidade; que suas mãos nos lembrem da importância do cuidado, do carinho, do amparo e do compromisso com a vida; que suas orações nos recordem a necessidade urgentíssima de nos reconectarmos com o divino, a fim de iluminar o humano que há em nós; que sua tesourinha afiada nos sinalize para um despertar ou “renascer”, cortando todos os “cordões” que possam nos impedir de viver e conviver como autênticos seres humanos!
Pery-Açu

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A Voz do Ser_tão Resistente
Bananeiras-PB: 20 de janeiro de 2024
Vera Periassu – poeta, cordelista e educadora popular
veraperiassu@gmail.com
